Juros chegam a dobrar para produtor agrícola
Recursos, anunciados por Dilma como uma medida para estimular a economia e amenizar efeitos do ajuste, sobem 20,2% e atingem R$ 187,7 bilhões.
Antonio Temóteo
03/06/2015
Criticada pelo próprio partido por comandar uma agenda impopular de ajustes na economia com alta de impostos e retirada de direitos trabalhistas, a presidente da República, Dilma Rousseff, iniciou ontem a divulgação de uma série de medidas para estimular a atividade produtiva e melhorar a imagem do governo.
O primeiro ato de sinalizações ao mercado foi o de liberação R$ 187,7 bilhões para a safra agrícola e pecuária de 2015/2016. O recurso anunciado é 20,2% superior ao do ano passado. Mas o dinheiro mais farto não significa maior facilidade: os juros também aumentaram e, em alguns casos, dobraram. A taxa dos recursos destinados aos cerealistas, por exemplo, passaram de 5% ao ano para 10%. Os juros para custeio e comercialização foram reajustados em até 40,9%.
O presidente do Conselho Científico para Agricultura Sustentável (CCAS), Antonio Roque Dechen, alertou que os produtores rurais devem ficar atentos ao encarecimento nas taxas de juros para evitar tomar empréstimos que não terão condições de pagar em dia. Conforme ele, a compra de insumos para a próxima safra ocorrerá em um momento de dólar alto e as oscilações cambiais podem levar os agricultores a acumular prejuízos na próxima colheita. “Estão vendendo a produção deste ano com dólar em alta, mas essa curva pode se inverter no próximo ciclo. O momento é de atenção”, afirmou.
Para Dechen, o Brasil passou por um grande desenvolvimento tecnológico no campo e esse processo impulsionou o agronegócio nos últimos anos. Apesar disso, o presidente do CCAS lamentou o fato de o poder público não concentrar os esforços necessários para que o setor possa se desenvolver ainda mais. “Nos últimos 10 anos quebramos todos os recordes de produção. Mas ainda temos grandes deficiências na infraestrutura para escoamento e armazenamento da produção. Precisamos minimizar os desperdícios que decorrem desses gargalos para que o país passe por um novo ciclo de expansão agrícola”, comentou.
Ajuste fiscal
Durante o anúncio do Plano Safra, a presidente justificou a medida como necessária para alavancar o desenvolvimento do país e amenizar os efeitos dos cortes para equilíbrio das contas. “O ajuste fiscal não é um objetivo em si mesmo e, por isso, simultaneamente a ele, estamos construindo uma agenda de crescimento”, disse. Para ela, o ajuste é imprescindível para que o Brasil volte a crescer.
Ao mesmo tempo que anunciou a injeção de recursos para o setor produtivo, Dilma lembrou que será necessário aprovar o projeto de lei que altera as desonerações da folha de pagamento — medida em discussão no Congresso que onera alguns setores. “Temos dois eixos: o do ajuste para crescer e o dos investimentos, em parceria com o setor privado. Estamos mostrando que, com ações concretas, o Brasil, ao mesmo tempo, faz ajustes e tem uma agenda clara de futuro.” A presidente aproveitou a oportunidade para ressaltar que o governo anunciará, na próxima semana, o pacote de concessões e em seguida a terceira fase do Minha Casa, Minha Vida, que são “ações simultâneas da agenda do futuro”.
Em consonância com a presidente Dilma Rousseff, que aproveitou a oportunidade para defender as medidas negociadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, para equilibrar as contas públicas, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, não deixou de lembrar do chefe da economia. Segundo ela, Levy teve sensibilidade para atender os pleitos do agronegócio. “Nosso agradecimento a ele por esse gesto de grandeza. Ele foi o primeiro ministro da Fazenda, desde Delfim Neto, a entrar no Ministério da Agricultura para negociar. O plano safra mostra que o ajuste econômico não se faz apenas com cortes, mas também com investimentos”, disse ela.
O presidente da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), Luiz Carlos Corrêa Carvalho, considerou o incremento nas verbas para o setor, apesar da alta de juros, como positiva, por demostrar apoio ao setor rural em momento delicado da economia. “Seria difícil imaginar que as taxas permaneceriam nos mesmo patamares do ano passado. Mas em vez de fazer anúncios anuais, o governo deveria criar uma plano plurianual ou uma lei de incentivos agrícolas, como ocorre os Estados Unidos”, sugeriu.
Carvalho ainda comentou que os custos de produção têm aumentado e diversos produtores acumulam perdas com a queda no preço das commodities. Ele destacou que nas principais culturas, como soja e milho, nem o dólar mais valorizado tem sido suficiente para manter o lucro dos produtores. “As margens estão mais apertadas, mas ainda vivemos um momento razoável no agronegócio. Entre tudo o que o Brasil produz, um dos poucos ou o único que manterá resultados positivos no Produto Interno Bruto (PIB) e na balança comercial é o setor rural”, disse.