O globo, n. 29901, 19/06/2015. Economia, p. 21
“No momento, não temos diálogo. O ponto mais urgente é retomar o diálogo com os adultos da sala” Christine Lagarde Diretora- gerente do FMI “Estamos perigosamente perto do estado de espírito de aceitar um acidente” Yanis Varoufakis Ministro grego das Finanças
- LUXEMBURGO- O medo crescente do calote e de uma possível saída da zona do euro se refletiu ontem no sistema bancário da Grécia. Os bancos gregos assistiram a mais um recorde em saques, que chegaram a cerca de € 2 bilhões, somente nos últimos três dias. E enquanto os cofres do país se esvaziam, os credores de Atenas parecem cada vez mais cheios. Após o fracasso de mais uma reunião para negociar um acordo capaz de salvar a Grécia da bancarrota — considerada pelos credores uma “última oportunidade” —, a União Europeia ( UE) convocou para segundafeira uma reunião com os 28 líderes do bloco para discutir o impasse.
— É hora de falar urgentemente, no mais alto nível político, sobre a situação na Grécia — afirmou o presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk.
Foram apenas 90 minutos de reunião entre representantes do Eurogrupo, os principais negociadores de Comissão Europeia, Banco Central Europeu ( BCE) e Fundo Monetário Internacional ( FMI) com o ministro grego de Finanças, Yanis Varoufakis. E ao fim, sem acordo, sobraram apenas críticas e palavras duras a Atenas. As mais contundentes vieram da diretoragerente do FMI, Christine Lagarde. Fontes presentes ao encontro contam que, ao chegar, ela fez questão de cumprimentar Varoufakis com uma ironia.
— A criminosaem- chefe veio lhe dizer um olá — teria dito ela, em referência às reclamações do premier grego, Alexis Tsipras, que chamara de “criminosas” as exigências de austeridade dos credores para um entendimento.
Após o encontro, Lagarde manteve o tom áspero:
— Nós só podemos chegar a um acordo se houver diálogo. No momento, não temos diálogo. O ponto mais urgente é retomar o diálogo com os adultos da sala.
Por sua vez, o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, classificou como lamentável a falta de acordo.
— O tempo está acabando, e a bola agora está no campo de Atenas. Demos um claro sinal às autoridades gregas de que depende delas enviar novas propostas nos próximos dias. O Eurogrupo está preparado para os piores cenários — afirmou Dijsselbloem.
Ele destacou com preocupação a fuga de depósitos e também mandou um recado velado:
— Estamos comprometidos para manter a Grécia no euro, mas é impossível chegar a um acordo sem estar preparados para adotar medidas duras. É preciso haver políticos que estejam prontos para dizer a verdade ao povo.
Pressionado, o ministro grego se disse triste por não ter suas propostas ouvidas e acabou fazendo um apelo ao Eurogrupo: — Estamos perigosamente perto do estado de espírito de meus colegas para não se renderem aceitar um acidente. Disse aos
a esse estado de espírito. Segundo ele, a Grécia entregou uma proposta abrangente para resolver a crise grega. À noite, em seu blog, Varoufakis disse que o plano inclui uma ampla agenda de privatizações nos próximos dez anos; a criação de uma ReceitaFederal independente e de um Conselhoo OrçamentoFiscal parado Estadosupervisionar e um programa de curto prazo para administrar calotes em empréstimos, entre outras. O ministro também insistiu em negar todas as informações vazadas à imprensa durante o encontro.
Os credores, porém, dizem não ter recebido nada. E faltam apenas 11 dias para que a Grécia pague um vencimento de quase € 1,6 bilhão ao FMI, sem qualquer acordo para que Atenas receba a última parcela, de € 7,2 bilhões, do socorro concedido ao país em 2012. Ou mesmo para um entendimento visando à renegociação da dívida atual, com novo socorro e novas condições.
BANCOS FECHADOS NO DIA 22?
O país está à míngua. Ontem à noite, milhares de gregos tomaram as ruas da capital em protesto contra os credores europeus. Segundo fontes gregas, o ritmo das retiradas diárias dos bancos triplicou desde o colapso das negociações, no último fim de semana. Os € 2 bilhões retirados por poupadores gregos entre segunda e quarta- feira representam cerca de 1,5% dos depósitos de € 133,6 bilhões mantidos no sistema bancário até o fim de abril. Antes do colapso das conversas, banqueiros disseram que as saídas estavam entre € 200 milhões e € 300 milhões por dia. E fontes do BCE afirmam que já há motivos para acreditar que, totalmente sem dinheiro, talvez os bancos do país sequer consigam abrir as portas na próxima segunda- feira. — Amanhã ( hoje), sim. Na segunda- feira, eu realmente não sei — afirmou Benoît Coeuré, integrante do Conselho Executivo do BCE.