Oposição no ataque

24/06/2015 

Ao completar 30 dias de greve de fome, o líder oposicionista Leopoldo López anunciou ontem o fim do protesto, após ter uma de suas exigências atendidas: a marcação das eleições legislativas para 6 de dezembro, anunciada na véspera pelo Conselho Eleitoral Nacional (CNE). Em carta amplamente divulgada pela mulher, Lilian Tintori, López agradeceu o apoio que recebeu de venezuelanos e estrangeiros, mas lembrou que “ainda há caminho a percorrer”. As demandas da oposição incluem a libertação dos dirigentes presos e a presença de observadores internacionais na votação.

“A vocês, irmãos e irmãs, peço, com o coração na mão, que assumamos com humildade as conquistas obtidas nesse protesto e que, todos juntos, suspendamos a greve de fome”, escreveu López. “Começamos esse protesto não para morrer, mas para que todos os venezuelanos possamos viver com dignidade. A greve de fome é um método de luta”, prosseguiu. O oposicionista é ex-prefeito de Chacao, no estado de Miranda, e dirigente do partido Vontade Popular. Ele foi preso há um ano e meio e é mantido na penitenciária militar de Ramo Verde.

Segundo dados divulgados ontem pela oposição, mais 102 pessoas se uniram ao jejum de protesto. Entre outros correligionários, o coordenador regional do Vontade Popular Pedro Veloz acompanhou a decisão de López e interrompeu a greve de fome. “Meu compromisso com a libertação de meus irmãos presos políticos segue mais forte do que nunca. Hoje, completei uma etapa da luta. Amanhã, inicio outra”, escreveu Veloz em redes sociais. Ele ficou 18 dias sem se alimentar. O partido busca se fortalecer para enfrentar o governo no fim do ano, mas ao menos 12 jovens decidiram manter o protesto até que os presos sejam libertados.

Reunidos da Igreja de Guadalupe, em Caracas, os grevistas receberam na manhã de ontem a visita de funcionários de Ministério Público, para a realização de exames de saúde. Alguns dos manifestantes estão há 27 dias em jejum. “Enquanto não tivermos certeza do início da libertação dos presos políticos, vamos manter agreve”, declarou nas redes o deputado Julio César Rivas, presidente do grupo Juventude Ativa Venezuela Unida (Javu). Os opositores comemoraram a marcação das eleições como “a primeira derrota para o governo”, como destacou o deputado Lester Toledo, dirigente nacional do Vontade Popular, citado pelo site da legenda.

"Começamos esse protesto não para morrer, mas para que todos os venezuelanos possamos viver com dignidade”
Leopoldo López, dirigente oposicionista preso


Um porta-voz do Departamento de Estado americano, John Kirby, disse que as autoridades do país ficaram “satisfeitas” com o fim da greve e pediu à Venezuela permita a Leopoldo López o “acesso a médicos de sua escolha, para que se recupere dessa prova”.

Visita

Para acompanhar os desdobramentos da crise venezuelana, outra comitiva de senadores brasileiros deve embarcar hoje para Caracas. O grupo foi formado em resposta à viagem feita na semana passada por representantes da oposição, que pretendiam se encontrar com adversários do presidente Nicolás Maduro, mas tiveram a passagem interrompida e foram hostilizados por chavistas na saída do aeroporto de Maiquetía. Até a noite de ontem, quatro parlamentares haviam confirmado presença na viagem: Lindbergh Farias (PT-RJ), Roberto Requião (PMDB-PR), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) e Telmário Mota (PDT-RR).


"Hoje, completei uma etapa da luta. Amanhã, inicio outra”
Pedro Veloz, dirigente do partido Vontade Popular


No plenário, Lindbergh Farias criticou a primeira comitiva. Segundo ele, os senadores tiveram um “papel incendiário”, em vez de diplomático. “Espero trazer aqui uma posição de equilíbrio dessa comissão do Senado brasileiro. Por isso, vamos conversar com todas as partes. O pior caminho para a Venezuela é o do enfrentamento, do acirramento da crise”, ponderou. Os representantes da oposição responderam ao ataque ressaltando a importância da visita da semana passada, e voltaram a chamar a missão governista de “chapa branca”. “Não fomos atentar contra um presidente da República eleito. Fomos cobrar a transparência nas eleições que estão por vir. A grave omissão do Brasil nessa questão foi suprida pela presença firme, corajosa e altaneira dos senadores brasileiros”, declarou Aécio Neves (PSDB-MG), que liderou a comitiva.
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Escassez preocupa a ONU

24/06/2015

 
 

Consumidores fazem fila em feira livre de Caracas: desabastecimento castiga os venezuelanos desde 2012 (Juan Barreto/AFP - 24/1/15)

Consumidores fazem fila em feira livre de Caracas: desabastecimento castiga os venezuelanos desde 2012



A persistência da crise econômica na Venezuela, com inflação e falta de gêneros no comércio, motivou um informe severamente crítico de um órgão das Nações Unidas relacionado com o tema. O relatório do Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais da ONU, publicado ontem, manifesta preocupação com o grave desabastecimento e a escassez de alimentos de primeira necessidade no país e faz um apelo para a adoção de medidas urgentes. 

O comitê, composto por 18 especialistas independentes, alertou para um aumento da dependência da importação de alimentos. Os analistas da ONU atribuem a crise de abastecimento em parte à desorganização do sistema produtivo local. O texto pede ao governo do presidente Nicolás Maduro que faça uma avaliação dos resultados do processo de reforma agrária, que resulte em um redesenho da estratégia nacional para a realização do direito à alimentação. Os especialistas, escolhidos pelo voto dos países que ratificaram o Pacto dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais considerado um dos pilares da ONU , recomendam o aumento dos investimentos na produção agrícola local, melhorando a produtividade dos pequenos produtores e seu acesso aos mercados locais. 

A Venezuela sofre desde o fim de 2012 com a falta de divisas, o que provoca acúmulo de bilhões de dólares em dívidas comerciais com fornecedores e empresas multinacionais. A situação provocou uma grave crise de abastecimento em setores básicos e muito dependentes das importações, como os de produtos alimentícios e medicamentos. 

A ONU recomenda que o país destine recursos do orçamento público para enfrentar a escassez, com o objetivo de garantir a disponibilidade e a qualidade dos serviços de saúde. O comitê expressa preocupação, em especial, com a deterioração de alguns hospitais e com a carência nos programas de promoção da saúde sexual reprodutiva. O relatório destaca ainda o elevado número de abortos inseguros realizados no país. 

O persistente deficit habitacional é outra das preocupações levantadas pelos especialistas das Nações Unidas. No informe, eles alertam que o salário mínimo fixado pelo governo chavista não é suficiente para garantir um nível de vida digno para a população, e apelam às autoridades para que negociem de forma transparente com os empresários e os sindicatos de trabalhadores. 

A discussão salarial é complicada pela disparada diária dos preços e pela ausência de índices oficiais de inflação. Embora uma norma do Banco Central da Venezuela determine a publicação da taxa mensalmente, no dia 10, a última divulgada foi a anual relativa a 2014, que chegou a 68,5%. Analistas econômicos acreditam que o índice anual esteja agora próximo do patamar de 100%.