Valor econômico, v. 16, n. 3777, 16/06/2015. Finanças, p. C2
Juros sobem com projeção mais alta do IPCA
Por Lucinda Pinto e Silvia Rosa | De São Paulo
Os juros futuros fecharam ontem em alta na BM&F movidos pela aposta de que o Banco Central poderá ser duro diante dos recentes dados de inflação mais salgados e revisão para cima das projeções para o IPCA.
O boletim Focus, divulgado ontem, mostrou uma revisão para cima da mediana da projeção de inflação para 2015 de 8,46% para 8,79%, enquanto a mediana das expectativas para 2016 permaneceu em 5,50%.
A revisão da inflação para 2015 aumenta a preocupação com o impacto em 2016 em função da inércia inflacionária e da resistência das expectativas de inflação para 2016 em ceder, levando o mercado a apostar na extensão do ciclo de aperto monetário.
Ontem, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2016 subiu de 14,25% para 14,32%, enquanto o DI para janeiro de 2017 avançou de 13,88% para 14,06%.
As projeções de juros embutidas nos DIs refletem a maior probabilidade de uma alta de 0,5 ponto percentual da Selic em julho, com as apostas divididas entre um aumento de 0,25 ponto e 0,5 ponto na reunião de setembro. Mas já há quem trabalhe com a hipótese de uma Selic a 15% no fim do ano. "O mercado está bem pessimista quanto à possibilidade de o ciclo de aperto monetário terminar na próxima reunião. Números mostrando uma inflação ainda elevada e o discurso 'hawkish' [inclinado ao aperto monetário] do BC sustentam essa visão", afirma Arnaldo Curvello, diretor de gestão de recursos da Ativa Corretora.
Ontem, chamou a atenção a declaração feita por fonte da equipe econômica à jornalista Angela Bittencourt, do Valor, dizendo que "não existe maneira melhor de contribuir com a política fiscal do país do que colocar a inflação rapidamente na meta e ancorar as expectativas para poder reduzir o nível da taxa de juro real de forma sustentável".
O diretor de pesquisas econômicas para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos, destaca que para ancorar a inflação, a taxa de juros real tende a subir um pouco mais para fazer o trabalho de desinflacionar a economia. Apesar de isso ter um impacto na atividade no curto prazo, Ramos destaca que a incerteza em relação à inflação atrapalha a dinâmica de crescimento. "A inflação é um custo e aprecia o câmbio real, tornando a economia menos competitiva."
No médio prazo, segundo ele, a taxa de juros poderá ficar mais baixa a depender do esforço fiscal. Há, no entanto, o risco de uma desvalorização do câmbio no ano que vem, com o banco central americano devendo começar a subir a taxa de juros nos Estados Unidos.
Ontem, o dólar subiu 0,33% e fechou a R$ 3,1269, acompanhando o movimento no exterior.
A moeda americana chegou a romper o piso técnico de R$ 3,10, negociando a R$ 3,0948 na mínima intradia, o que acabou atraindo compradores. O movimento no mercado local acompanhou a valorização do dólar no exterior, sustentada pelas incertezas em relação à negociação da Grécia com seus credores. O temor de um calote do governo grego e da saída do país da zona do euro tem reduzido o apetite por ativos de maior risco.