Título: Poder de barganha
Autor: Lyra, Paulo De Tarso
Fonte: Correio Braziliense, 22/08/2011, Política, p. 2
As sucessivas crises que vêm ocorrendo no governo desde o início do ano, com rebeliões da base aliada contra o Executivo e com a queda de quatro ministros em menos de oito meses, são vistas por especialistas como resultado do poder de barganha dos políticos brasileiros em alianças baseadas na distribuição de cargos, sem respeito a critérios técnicos. As dificuldades de aprovar matérias de interesse da Presidência é um dos resultados negativos desse modelo.
Para o cientista político Sérgio Abranches, que cunhou o termo "presidencialismo de coalizão" para designar esse tipo de organização política, não é propriamente a distribuição de cargos que gera corrupção e instabilidade, mas a condescendência de governantes quando os cargos públicos são usados com fins pouco democráticos. "Quando as principais referências da política são complacentes, acaba-se com qualquer tipo de barreira moral", aponta o estudioso.
A forma como a presidente Dilma Rousseff tem lidado com as denúncias de corrupção em seu governo é aprovada por parcela significativa da sociedade, mas tem o preço político do desgaste com seus aliados e com os próprios petistas, que vêm demonstrando incômodo com a ideia de que Dilma estaria limpando a sujeira do governo anterior. O resultado dessa insatisfação é a dificuldade para aprovar medidas importantes para o Executivo.
A prorrogação da Desvinculação das Receitas da União (DRU), que permite gastos mais livres de até 20% dos recursos do orçamento, é uma das batalhas que o Planalto tentará vencer nos próximos meses. Para isso, vai precisar pacificar seus aliados sem, no entanto, deixar de lado as denúncias em ministérios controlados por partidos da base.