Maior juro em nove anos

 

O Banco Central aumentou a taxa básica de juros em 0,5 ponto percentual, para 14,25% ao ano, o maior nível desde 2006. Num momento de ajuste fiscal, a elevação terá impacto de R$ 7 bilhões no custo da dívida federal em 12 meses. - BRASÍLIA, SÃO PAULO E RIO- Pela sétima vez consecutiva, o Banco Central ( BC) elevou a taxa básica de juros, com o objetivo de conter a inflação. Por decisão unânime e sem viés, o Comitê de Política Monetária ( Copom) elevou a Selic em 0,5 ponto percentual, de 13,75% para 14,25% ao ano, o maior patamar em nove anos — a taxa ficou em 14,25% de agosto a outubro de 2006. “O Comitê entende que a manutenção desse patamar da taxa básica de juros, por período suficientemente prolongado, é necessária para a convergência da inflação para a meta final de 2016”, afirmou o Copom em nota.

Estimativas do mercado mostram que a inflação medida pelo IPCA deve chegar a 9,23% este ano, mais que o dobro do centro da meta estipulada pelo BC para 2015, de 4,5%.

Criticado por ter antecipado seu voto a representantes do mercado e à imprensa, durante evento realizado na última segunda- feira, em São Paulo, o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Tony Volpon, decidiu se abster de participar da reunião do Copom, “a fim de evitar possíveis prejuízos à imagem do Banco Central do Brasil, sendo essa decisão em caráter pessoal e irretratável”. Segundo o BC, os membros do Copom “respeitaram a decisão”. O Colegiado acolheu os esclarecimentos de Volpon, mas recomendou a seus membros que “redobrem a natural e reconhecida cautela em suas manifestações”.

Foi feita uma reunião extraordinária para que Volpon prestasse esclarecimentos sobre suas declarações. Ela ocorreu antes da segunda etanomista da decisão sobre a Selic, o que acabou provocando demora na divulgação da taxa. Segundo a ata dessa reunião, a manifestação de Volpon não implicou antecipação de voto.

ANALISTAS PROJETAM DÍVIDA ACIMA DE 70% DO PIB

A alta dos juros básicos ocorre em um momento de crise política com rápida deterioração do cenário econômico, com o reconhecimento do governo de que o ajuste das contas públicas será praticamente nulo. O juro maior também vai contribuir para o aumento da dívida pública — um dos pontos analisados pelas agências de classificação de risco. O governo teme perder o grau de investimento, que representa um selo de bom pagador.

A elevação de ontem ainda terá um impacto de R$ 7 bilhões no custo da dívida pública federal ao longo de 12 meses, de acordo com cálculos do professor de economia da Fundação Getulio Vargas ( FGV) Clemens Nunes. Para chegar ao número, ele considerou o estoque da dívida bruta federal, que, segundo o dado mais recente do BC, soma R$ 3,5 trilhões. Como a Selic é usada para calcular a remuneração dos títulos públicos, o governo é obrigado a desembolsar mais quando a taxa sobe.

— Esse impacto ocorre sobre a parcela da dívida atrelada à Selic. São R$ 547 bilhões em títulos corrigidos pela taxa, mais R$ 869 bilhões em operações compromissadas do Banco Central ( venda e compra de títulos com compromisso de recompra ou venda futura). Assim, da dívida bruta, R$ 1,4 trilhão é impactado pela Selic. Portanto, uma alta de um ponto percentual nos juros tem impacto de R$ 14 bilhões no custo da dívida pública ao longo de 12 meses — explica Nunes.

As agências de classificação de risco consideram a dívida bruta de um país ao calcular o rating. O indicador mostra efetivamente o que o governo tem de desembolsar para pagar a quem detém os títulos federais que acompanham a Selic ( pós- fixados).

Segundo estimativa do economista Hélcio Takeda, diretor de pesquisas da consultoria Pezco Microanalysis, a despesa com juros do governo este ano poderá chegar a R$ 400 bilhões. Em 2014, os desembolsos para pagamento de juros chegaram a R$ 311 bilhões, o equivalente a 6,1% do Produto Interno Bruto ( PIB). Takeda lembra que o crescimento da despesa com juros devido à alta da Selic acaba anulando parte do esforço fiscal do governo:

— O pagamento de juros terá um crescimento expressivo em relação ao ano passado, anulando uma parte do esforço fiscal. O problema é que o ciclo de queda dos juros deverá ser menos ousado do que os anteriores.

Em nota técnica, o Tesouro Nacional prevê que a dívida pública continue crescendo até 2017, passando dos atuais 64,1% do PIB para 66,3%, para então entrar em movimento de queda. Alguns especialistas têm avaliação diferente. Um relatório assinado pelo economista Ilan Goldfajn, do Itaú Unibanco, estima que a dívida pública poderá atingir 70,3% do PIB em 2017, fechando 2018 em 71,6%.

Nunes, da FGV, também estima que a dívida pública equivalerá a 70% do PIB em 2017. Para ele, a Fazenda traçou um cenário otimista, que aposta em recuperação mais acelerada da economia.

— A projeção do governo para o PIB neste ano é de uma retração de 1,5%, enquanto o mercado já fala em mais de 2%, por exemplo. Acho esses números otimistas — diz Nunes.

SANTANDER VÊ FIM DO CICLO DE APERTO

Com a decisão de ontem, o Brasil mantém a maior taxa real de juro ( descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses) em um grupo de 40 países. Segundo ranking elaborado pelo ecopa Jason Vieira, da Infinity Asset Management, com mais esta alta de 0,5 ponto percentual, os juros reais do país são de 4,60%. O Brasil está à frente da China, segunda colocada, com taxa de 3,30%, e da Índia, na terceira posição, com 2,14%.

O Brasil ocupa a primeira posição no ranking desde março. Entre janeiro e fevereiro, ficou atrás da Rússia, que elevou os juros a 17% ( taxa real de 9,55%) para tentar conter a fuga de investidores internacionais e a consequente desvalorização do rublo. Até então, o Brasil se mantinha em primeiro desde outubro de 2013.

— Mas, depois, o Banco Central russo baixou os juros, e as expectativas de inflação subiram muito. Atualmente, o país ocupa a 38 ª posição, com taxa real de juro negativa de 3,04% — explica Jason Vieira, para quem o país deve continuar ocupando a primeira colocação durante algum tempo. — Seria necessária uma queda de um ponto percentual na Selic para que o país deixasse de ser o maior pagador de juros.

Para o economista- chefe do Santander, Maurício Molan, a decisão veio dentro do esperado. Segundo ele, a alta de ontem já pode indicar o fim do ciclo de aperto monetário. Molan disse ainda que o BC já pode estar trabalhando com a expectativa de que a inflação se aproxime do centro da meta, de 4,5%, em 2016:

— O BC sinaliza que encerrou o ciclo de aperto monetário e que suas estimativas de inflação já convergiram para a meta. Mas o BC tem sua própria projeção, que é diferente da do mercado. Esperamos uma inflação de 6,5% no ano que vem.