Presidente da Andrade Gutierrez e mais 8 são indiciados na Lava- Jato

 

O presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, e mais oito investigados na 14 ª fase da Operação Lava- Jato foram indiciados pela Polícia Federal por quatro crimes: corrupção, formação de cartel, fraude em licitações e lavagem de dinheiro. O presidente da Odebrecht, Marcelo Odebrecht, que assim como Azevedo está preso na carceragem da PF de Curitiba, também foi alvo desta fase da operação e poderá ser indiciado, mas até ontem à noite esta decisão não havia sido divulgada. O Ministério Público terá cinco dias para decidir se apresenta denúncia e a envia à Justiça Federal. - SÃO PAULO E CURITIBA- A Polícia Federal ( PF) entregou ontem à Justiça o relatório das investigações sobre a participação da Andrade Gutierrez em esquemas de corrupção na Petrobras. Nove pessoas foram indiciadas pelos crimes de corrupção, formação de cartel, fraude em licitações e lavagem de dinheiro. Entre elas, estão o presidente da construtora, Otávio Marques de Azevedo, e o executivo Elton Negrão, que cumprem prisão preventiva em Curitiba. Em nota, a empreiteira negou “qualquer relação com os fatos investigados pela Lava- Jato”.

GERALDO BUBNIAK/ 20- 6- 2015Caminhos cruzados. Marcelo Odebrecht ( à esquerda) e Otávio Marques de Azevedo, após serem presos pela Polícia Federal na 14 ª fase da Operação Lava- Jato: empreiteiros negam crime

O relatório aponta indícios de irregularidades em quatro contratos firmados entre a Andrade Gutierrez e a Petrobras, de 2008 a 2011. São citadas obras feitas pela empresa no Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro ( Comperj) e na Refinaria de Paulínia ( Replan). A investigação afirma que o resultado dessas licitações foi determinado previamente pelo cartel montado pelas construtoras investigadas na LavaJato para dividir os editais da estatal.

Para justificar o indiciamento, os agentes federais usaram informações passadas por delatores da operação. Segundo eles, a empreiteira pagou propina para diretores da Petrobras; parte desse dinheiro iria para partidos políticos.

Em uma das movimentações financeiras descritas no relatório, a Andrade Gutierrez contratou a Rio Marine para uma consultoria. A análise do contrato pelos peritos mostrou que “os pagamentos listados foram realizados sem lastro fático e documental adequado”. A Rio Marine pertence a Mário Goes.

OPERADORES INDICIADOS

Mário e seu filho, Lucélio Goes, foram indiciados como operadores do pagamento de propina da empreiteira. Também foi apontado como responsável pela mesma função Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano e já investigado pela Lava- Jato por envolvimento em operações financeiras de outros grupos.

O executivo Elton Negrão e o ex- funcionário da construtora Antônio Pedro Campello de Souza são apontados pela investigação da PF como “contatos para o recebimento de propinas e participação de reuniões do cartel". Embora não trabalhe na companhia, Paulo Dalmazzo também é citado por delatores como um contato da construtora.

Flavio Lucio Magalhães é citado como um operador que teve contatos com o doleiro Alberto Youssef e com Leonardo Meirelles e foi responsável por operações cambiais fraudulentas no exterior.

Já o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, foi indiciado por ter vendido uma lancha para Fernando Baiano, o que comprovaria sua relação com o operador. O ex- presidente da empreiteira Rogério Nora de Sá foi indiciado porque, na opinião dos investigadores da PF, os esquemas de corrupção não eram “mera iniciativa de algum executivo de forma isolada e em benefício próprio. Hão de ser entendidos como atos de gestão do grupo Andrade Gutierrez”.

DELEGADO RECLAMA DE “PRAZO EXÍGUO”

No documento enviado ontem à Justiça Federal, o delegado Eduardo Mauat da Silva reconheceu que não houve tempo para analisar todo o material apreendido nas empresas e nos endereços residenciais dos indiciados: “Oferecemos o presente sumário a vista do exíguo prazo decorrente da segregação provisória dos indiciados, em que pese constem celulares, mídias e alguns documentos pendentes de análise”.

Também estava previsto para ontem a entrega do relatório da Polícia Federal sobre as investigações contra a empresa Odebrecht. Até o fechamento desta edição, porém, ele não havia sido anexado ao processo. Em nota, a Andrade Gutierrez “reafirma que nunca participou de formação de cartel ou fraude em licitações, assim como nunca fez qualquer tipo de pagamento indevido a quem quer que seja.” (* Especial para O Globo)

 

Empreiteiro não explica relação com Baiano

 

O presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, indiciado ontem pela PF por vários crimes, negou ter relações de amizade com o lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano. Mas o executivo não explicou, no depoimento à PF, por que, em outubro de 2012, vendeu um barco de sua propriedade para Baiano por R$ 1,5 milhão. Baiano, que também foi indiciado ontem no mesmo inquérito, é acusado de ser um dos operadores da Andrade junto à Petrobras.

Otávio de Azevedo negou, no depoimento ao delegado Eduardo Mauat da Silva, ter feito parte do esquema para fraudar licitações da Petrobras. No depoimento, anexado ao relatório por Mauat, Azevedo diz que nunca pagou vantagens ilícitas a funcionários e dirigentes da Petrobras e que, tão logo foi deflagrada a Lava- Jato, foi realizada uma auditoria interna que constatou que a empresa não teria envolvimento com os ilícitos.

DIRETOR NEGA PROPINA

Azevedo reconheceu que participou de reunião com o ex- diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, réu confesso na Lava- Jato. Otávio disse que a reunião tinha “finalidade de tratar da posição da empresa perante à Petrobras, sendo ponderado que a Andrade deveria ter participação maior nas obras da estatal”. Costa recebeu pelo menos US$ 23 milhões na Suíça por conta de propinas pegas pelas empreiteiras.

Outro diretor da Andrade Gutierrez preso na Lava- Jato, Elton Negrão de Azevedo Junior, admitiu ter participado de reuniões com outras empreiteiras para debater assuntos “de interesse comum”. No depoimento à PF, Negrão disse que as reuniões não se tratavam de ajustes das empreiteiras, mas sim de discutir reajustes dos contratos com a Petrobras que, segundo ele, não estavam seguindo a inflação. Negou ter pago propinas a diretores da estatal. Elton disse que se encontrava com Baiano em eventos sociais. Rogério Nora de Sá, ex- presidente da Andrade Gutierrez e outro indiciado pela PF, disse que só teve relações institucionais com os exdiretores Costa e Renato Duque, acusados de receber propinas das empreiteiras.