Título: Juros caem para 12%
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 01/09/2011, Economia, p. 16
Sob pressão do Planalto e para espanto de analistas, o BC surpreende e reduz a taxa básica em 0,5 ponto percentual.NotíciaGráfico
Presidente do Banco Central, Alexandre Tombini será alvo de intenso tiroteio no mercado financeiro
Com uma decisão surpreendente, o Banco Central deixou o mercado atordoado e o Palácio do Planalto em festa. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa básica de juros (Selic) em 0,5 ponto percentual, de 12,50 para 12% ao ano. Nem mesmo os operadores de instituições financeiras, que apostavam na baixa, esperavam tanto. No máximo, apostavam numa queda de 0,25 ponto. Nas cinco reuniões anteriores ¿ todas no governo de Dilma Rousseff, que vinha pregando a baixa dos juros ¿ a Selic subiu, totalizando um arrocho de 1,75 ponto. "Foi a decisão mais acertada que o BC deveria tomar", disse um assessor próximo de Dilma. "Todos têm de admitir que 12% ainda é uma taxa muito elevada em um mundo que está à beira da recessão", acrescentou.
Muitos analistas tacharam a decisão do BC de "loucura" e fruto da pressão do Planalto e do Ministério da Fazenda, que, dois antes do anúncio do Copom, divulgaram um aumento de R$ 10 bilhões no superavit primário (economia para o pagamento de juros da dívida). Para Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora, o BC está correndo um sério risco, sobretudo de perder a credibilidade construída ao longo de anos. No seu entender, além de dar um peso excessivo ao cenário internacional, que pode não se concretizar, a autoridade monetária sofrerá com as acusações de que abriu mão de sua autonomia operacional, a ponto de o seu presidente, Alexandre Tombini, ter se transformado em um subordinado do ministro Guido Mantega.
A decisão do BC não foi fácil. A reunião do Copom durou mais de quatro horas e a votação não foi unânime. Cinco diretores votaram a favor da redução da taxa e dois, pela manutenção da Selic em 12,50%. O comunicado do BC, o mais longo da história, reflete a complexidade das discussões. No lugar do curto parágrafo tradicional após as reuniões, desta vez o texto de duas páginas e cinco parágrafos lembrou mais uma ata ¿ o documento detalhado da reunião divulgado na semana seguinte.
"O que o BC destacou já vinha sendo dito há muito tempo: que o quadro externo piorou, com a nota de crédito dos Estados Unidos rebaixada, a Europa às portas da recessão e o Japão em dificuldades. Tudo isso ajudará a reduzir a inflação no Brasil", disse um ministro. "Além disso, o segundo semestre deste ano já seria de crescimento menor, devido ao aumento dos juros nos primeiros seis meses. Se o BC não agisse agora, os problemas já de for a reduziriam ainda mais a atividade e o consumo domésticos", acrescentou.
Consumidor Na avaliação de Cristiano Souza, economista do Banco Santanter, o comunicado do Copom deu uma noção do peso que o governo está dando ao cenário externo, mesmo com a inflação ainda preocupando. "Por isso, o corte forte na taxa Selic". Ele observou que, pelo menos no comunicado, o Comitê deu pouca importância ao cenário doméstico, o que foi rebatido por técnicos da Fazenda, que acreditam na queda dos índices de preços a partir de outubro próximo até abril, indo em direção ao centro da meta de 4,5%.
Para justificar o corte de 0,5 ponto na Selic, o Copom pintou de negro o quadro internacional com expressões como "substancial deterioração", "condições de crédito mais restritivas", " piora no sentimento de consumidores e empresários". O ceticismo continuou grande entre os economista. Segundo Eduardo Velho, a curva de juros de curto prazo cairá vertiginosamente, enquanto a de longo prazo subirá, sinal claro de desconfiança em relação aos rumos da política monetária. " A curva de longo prazo subirá porque o mercado ficará cada vez mais desconfiado. E, se o quadro pintado não se confirmar na magnitude esperada, é certo que o BC terá que subir os juros mais à frente. Por enquanto, o BC pode se preparar para sofrer todo tipo de crítica", avaliou.
Na visão de Felipe França, economista do Banco ABC Brasil, a confiança no BC vai diminuir. "A percepção era de que os juros só cairiam mais à frente, quando se tivesse um horizonte mais claro da inflação e do nível de atividade", disse. "Agora, vamos conviver com uma imensa incerteza, muito ruim para a economia", ponderou. Para o consumidor, a decisão do Copom terá impacto limitado no curto prazo. Segundo o professor de economia das Faculdades Integradas Rio Branco, Onofre Portella, será preciso um tempo razoável para sentir os benefícios do afrouxo monetário. " A queda da taxa básica não é transmitida de imediato para os custos do crédito", disse.
A transmissão é lenta, explicou Portella, porque o dinheiro que os bancos têm disponível para emprestar foi captado lá atrás, quando o cenário era outro. A redução da Selic, no entanto, é importante para o país. "Já deveríamos ter começado a reverter essa taxa há algum tempo. Ela vem causando um prejuízo enorme para a indústria e para as empresas exportadoras, ao derrubar os preços do dólar além do necessário", observou.
CENTRAIS CRITICAM SELIC ELEVADA Na avaliação dos sindicalistas, o Banco Central acertou no remédio, mas errou na dose, ao reduzir os juros em apenas 0,5 ponto percentual. O presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf), filiada à CUT, Carlos Cordeiro, lembrou que cada ponto percentual da taxa básica (Selic) representa R$ 19 bilhões no crescimento da dívida pública. "Esse é, na verdade, o maior programa de transferência de renda do mundo, o "bolsa-banqueiro", que recebe muito mais dinheiro do que o Bolsa Família, com orçamento previsto de R$ 13,4 bilhões", ironizou. Para o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, há espaço para redução mais drástica dos juros, mas o BC só não faz isso porque prefere se manter surdo aos apelos da classe trabalhadora.
Comunicado Leia os principais trechos do texto divulgado pelo Banco Central » O Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 12,00% ao ano, sem viés, por cinco votos a favor e dois votos pela manutenção da taxa Selic em 12,50% ao ano. Reavaliando o cenário internacional, o Copom considera que houve substancial deterioração, consubstanciada, por exemplo, em reduções generalizadas e de grande magnitude nas projeções de crescimento para os principais blocos econômicos.
» O Comitê entende que aumentaram as chances de que restrições às quais hoje estão expostas diversas economias maduras se prolonguem por um período de tempo maior do que o antecipado. Nota ainda que, nessas economias, parece limitado o espaço para utilização de política monetária e prevalece um cenário de restrição fiscal. Dessa forma, o Comitê avalia que o cenário internacional manifesta viés desinflacionário no horizonte relevante.
» O Comitê entende que a complexidade que cerca o ambiente internacional contribuirá para intensificar e acelerar o processo em curso de moderação da atividade doméstica, que já se manifesta, por exemplo, no recuo das projeções para o crescimento da economia brasileira. Dessa forma, no horizonte relevante, o balanço de riscos para a inflação se torna mais favorável. A propósito, também aponta nessa direção a revisão do cenário para a política fiscal.