Se na semana passada o governo da Grécia batalhava nas urnas pelo “não” às exigências de austeridade da Europa, ontem o primeiro-ministro Alexis Tsipras correu contra o tempo por um “sim”. Antes de receber o aval do Eurogrupo às suas propostas, semelhantes àquelas repudiadas no referendo de domingo passado e consideradas por ele mesmo “medidas dolorosas”, Tsipras teve de convencer o Parlamento grego de que o plano de arrocho fiscal e tributário do partido governista Syriza para ajustar as contas é a melhor, senão a única, alternativa para o país. Pouco antes das 22h pelo horário de Brasília — quase 4h de hoje em Atenas —, o premier venceu mais uma batalha na luta pela economia da Grécia: a proposta de reformas foi aprovada por 250 votos. Trinta e dois parlamentares votaram contra, e oito se abstiveram. A coalizão do governo tem 162 cadeiras.
Tsipras pedira a carta branca no Parlamento para negociar uma dívida de € 320 bilhões, enquanto, do lado de fora, na Praça Syntagma, ocorria uma manifestação convocada pelo Partido Comunista, contrário ao euro, à qual compareceu a ala mais radical do Syriza, irritada com o que vê como um recuo nas promessas eleitorais.
— Pela primeira vez temos sobre a mesa uma discussão substancial para a reestruturação da dívida — argumentou Tsipras em seu discurso.
A avaliação da proposta se estendeu madrugada adentro em clima de desconfiança. Afinal, a Grécia cedeu em diversos pontos para atender às exigências da troika — Comissão Europeia (CE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI). E em Bruxelas, onde os ministros de Finanças da zona do euro se reúnem hoje para debater o pacote, as instituições disseram apenas ter feito “uma avaliação positiva” do plano grego. Uma fonte com trânsito junto ao Eurogrupo, porém, disse à agência Reuters que agora está “100% seguro” de que os ministros da zona do euro concordem hoje em abrir as negociações com a Grécia.
PREMIER ADMITE QUE COMETEU ERROS
No púlpito do Parlamento, Tsipras trocou o tom desafiador dos últimos dias por outro, mais humilde. Ele se disse ciente de que as medidas de austeridade estão distantes das promessas eleitorais de seu partido. Admitiu erros nas negociações, mas pediu apoio, alertando que as dificuldades da Grécia não terminarão com a aceitação do resgate de € 53,5 bilhões solicitado aos credores europeus:
— Houve erros, mas foi feito o humanamente possível. Este pacote contém muitas ações prioritárias que estão muito longe do nosso pacto pré-eleitoral, mas, a partir de agora, temos pela frente um campo minado, com armadilhas, não posso negar.
O primeiro-ministro garantiu que a Grécia cumprirá os pagamentos de € 6,8 bilhões em títulos que vencerão junto ao BCE entre julho e agosto. E fez questão de ressaltar que a proposta submetida aos credores contém uma série de avanços:
— Teremos um financiamento de três anos, muito superior aos cinco meses propostos pelos credores no final de junho, e um plano de investimentos.
Mais cedo, foi a vez do novato ministro grego das Finanças, Euclid Tsakalotos, tentar convencer os políticos da importância de aprovar o pacote.
— Se nada mudar na segunda-feira, e se todos nós não desempenharmos um papel, então teremos um grande problema — alertou.
O pacote de ajuste fiscal entregue aos credores inclui uma meta de superávit primário (economia para pagar os juros da dívida) de 1% este ano, 2% em 2016, 3% em 2017 e, finalmente, 3,5% em 2018. A alíquota do Imposto sobre Valor Agregado (IVA, uma espécie de ICMS local) será elevada a 23%, incluindo restaurantes — em uma importante concessão de Atenas.
BOLSAS SOBEM COM PROPOSTA MAIS AUSTERA
Os bancos estão fechados desde 29 de junho. E não devem reabrir até que o BCE estenda uma ajuda de emergência, mantendo milhões de gregos submetidos a controles de capital. A previsão é que os bancos precisem de entre € 10 bilhões e € 14 bilhões para conseguirem voltar a funcionar normalmente, disse um banqueiro à Reuters. E as agências poderão ter que ficar fechadas até o fim da próxima semana.
As medidas de ajuste fiscal propostas à União Europeia por Tsipras agradaram aos mercados financeiros. As bolsas europeias fecharam em alta: Londres avançou 1,39% e Frankfurt, 2,90%. No Brasil, a Bolsa de Valores de São Paulo subiu 1,56% e o dólar caiu para R$ 3,16.
Mas, nas ruas, muitos gregos se perguntavam o porquê de abraçar a austeridade.
— Eu votei “não” no referendo, e está claro que essa nova proposta não corresponde a isso. Estou me sentindo um escravo. Eles fazem o que querem, e eu não posso participar — queixou-se Vassilis Sika, de 20 anos, desempregado, em um protesto na Praça Syntagma.
A batalha grega hoje será em Bruxelas, na reunião do Eurogrupo. De um lado, a França tenta impulsionar o socorro e a reestruturação da dívida grega. Mas o bloco capitaneado pela Alemanha se mantém contrário a qualquer alívio.
— As propostas gregas são completas. Mas ainda estão sendo avaliadas — afirmou o presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem.
Amanhã será o capítulo final, quando todos os 28 líderes da UE decidirão se aprovam um novo socorro à Grécia.