Título: Atenção às crianças
Autor: Puljiz, Mara; Tolentino Lucas
Fonte: Correio Braziliense, 01/09/2011, Cidades, p. 30
Além do Governo do DF, o federal prepara mudanças no modelo de atendimento voltado para meninas e meninos dependentes da droga. Ideia é ampliar tempo de internação e criar abrigos especializados para recebê-los. Tudo será feito em parceria com os municípios
Diante da constatação de que o tratamento oferecido hoje à criança e ao adolescente usuários de crack é ineficiente, o governo federal prepara um novo modelo de atendimento. Internações mais longas do que as atuais, de poucos dias, realizadas em hospitais gerais para desintoxicação, consistem na primeira parte da abordagem, embora encontre resistência nos setores da saúde fortemente ligados à reforma antimanicomial. Depois disso, vem a criação de abrigos especializados para atender meninos e meninas em abstinência, que deverão ser incluídos na rede escolar local. O formato, em fase de elaboração por um grupo interministerial coordenado pela pasta dos Direitos Humanos, põe em xeque o centro da estratégia do Ministério da Saúde: os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Concebidos há 10 anos como serviços substitutivos às internações psiquiátricas prolongadas, os Caps atingiram uma cobertura de 68% da demanda, considerando o parâmetro utilizado pelo próprio Ministério da Saúde de uma unidade para cada 100 mil habitantes. A situação é ainda mais grave quando se trata de Caps especializados em álcool e drogas. Acre, Rondônia, Roraima e Tocantins contam com apenas um serviço do tipo. Em outras unidades da Federação, o número de centros não passa de dois. Pior: eles só atendem adultos. Criou-se, então, Caps voltados exclusivamente para a infância e a adolescência, mas que se concentram em transtornos mentais diversos, sem oferecer atendimento a dependentes químicos.
"Existe um vácuo, porque a criança e o adolescente não podem ir ao Caps de álcool e drogas, que atende só adultos, e também não encontram assistência no Caps da infância. As equipes desses locais, criados em uma época em que o crack não era um problema dessa proporção, não se especializaram em dependência química", explica Carmen Silveira, subsecretária Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente da Secretaria de Direitos Humanos.
Falta capacitação Chefe do Setor de Dependência Química da Santa Casa de Misericórdia no Rio de Janeiro, a psiquiatra Analice Gigliotti destaca que a falta de capacitação é geral no caso do crack. "Saber como lidar com os adultos já é complicado. Com crianças, o problema aumenta. Percebo uma dificuldade de oferta de tratamento até na rede privada para crianças usuárias de crack", diz a médica.
Características peculiares de meninas e meninos, segundo Analice, interferem no tratamento. "Crianças são mais impulsivas, não conseguem analisar bem as consequências dos seus atos. As que vivem nas ruas, então, não têm muito a perder. Junte tudo isso ao crack e temos uma mistura explosiva", afirma a psiquiatra. Para ela, o tratamento com dependentes socialmente vulneráveis só poderá ter sucesso com uma assistência social de ponta. "Tem que ser oferecida a essas crianças uma alternativa mais palatável. Se elas passarem pelo tratamento em um clube, por exemplo, onde possam nadar, brincar, jogar bola, comer bem, pode ser que optem por não usar crack porque gostam dali. Mas se você interna essa criança e ela volta para um lar desequilibrado ou para a rua, fica quase impossível", diz.
A nova estratégia em fase de elaboração dentro do governo federal contará com o apoio da rede de assistência social na fase em que o paciente chegará aos locais de acolhimento, depois da internação inicial. Os ministérios envolvidos farão linhas de financiamento com municípios para implantação do protocolo. "Só receberão aqueles que estiverem com as três fases aptas: a desintoxicação, os abrigos e, por fim, a inclusão escolar", garante Carmen Silveira. A previsão é de que, até o mês que vem, o grupo interministerial feche a proposta, que será analisada pela presidente Dilma Rousseff. Com o aval do Executivo, será a hora de firmar as parcerias com as prefeituras.
Abrangência Além da Secretaria de Direitos Humanos, fazem parte do grupo representantes de outras pastas, como os ministérios da Saúde, do Desenvolvimento Social e da Educação.
Opinião do internauta Leitores comentaram no site do Correio a reportagem sobre o plano de combate às drogas lançado ontem no Distrito Federal. Veja alguns trechos:
Francisco Lima "O plano de combate ao crack apresentado agora é a melhor solução para amenizar o problema social existente no DF. O viciado tem que ser internado, nem que seja à força. Recuperá-lo é obrigação do Estado. Mas com uso de autoridade. Já que o custo dessa operação é muito onerosa."
Dimas Mendes "Parabéns, GDF, pela atitude. Pode contar com o apoio da população! Estamos junto nesta luta! Uma dica: busque auxílio nas sociedades organizadas, como as igrejas evangélicas, por exemplo, pois essas têm uma enorme influência social."
Elizete Fernandes "Parabenizo o governador. Tem que tomar providências enquanto há tempo."
Modelo diferente do Rio de Janeiro
Além de tentar conter o problema do crack entre crianças e adolescentes, a nova estratégia do governo federal pretende inibir iniciativas estaduais polêmicas, como a do Rio de Janeiro, que internou compulsoriamente meninos de rua. Embora evite criticar diretamente o governo de Sérgio Cabral, Carmen Silveira, subsecretária Nacional de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente da Secretaria de Direitos Humanos, destaca que a abordagem prevista no protocolo que está sendo elaborado, para os dependentes em situação de rua, será social.
"Não criticamos o Rio de Janeiro, até porque eles (governantes do Estado) fizeram alguma coisa, estão tentando resolver a questão. Mas não concordamos com a abordagem policial feita. Crianças eram levadas para a delegacia muitas vezes", diz Carmen. Em visita recente à instituição para onde meninos de rua foram levados no Rio, ela ouviu queixas de falta de liberdade. "Eles reclamam por não poderem sair a qualquer hora do abrigo, mas nenhuma afirmou preferir a rua ao local onde estão. Isso é positivo", diz a subsecretária da área da infância e adolescência na Secretaria de Direitos Humanos. (RM)