Título: BC e mercado veem crescimento menor
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 03/09/2011, Economia, p. 10

Ainda que não tenha feito o anúncio oficial, o que deve ocorrer no fim deste mês, o Banco Central derrubou a estimativa para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, de 4% para 3,5%. O mercado não fez por menos e seguiu o movimento da autoridade monetária, reforçado pela desaceleração no segundo trimestre ¿ a soma das riquezas produzidas no país saltou apenas 0,8% no período ante os três meses anteriores.

Nas contas da Austin Rating, em vez de 4%, o PIB fechará o ano com incremento de 3,6%, devido, principalmente, ao fraco desempenho da indústria, que vem apresentando um ritmo bastante lento desde janeiro.

Para 2012, a previsão permanece em 4,2%, por causa da demora na transmissão da queda da taxa básica de juros (Selic) para a economia. Segundo Alex Agostini, economista-chefe da Austin, o afrouxo monetário de 0,5 ponto anunciado nesta semana, de 12,50% para 12%, terá efeito mais contundente na atividade em meados do ano que vem.

Para Fernando Montero, economista-chefe da Corretora Convenção, o PIB avançará 3,3% neste ano. Até ontem, ele apostava em incremento de 3,7%. A seu ver, a conjuntura externa mais incerta e a possibilidade de os Estados Unidos e a Europa mergulharem na recessão vão impactar o Brasil, mesmo que em menor proporção do que em 2008-2009, quando o mundo ruiu com a quebra do banco norte-americano Lehman Brothers.

Na avaliação da economista-chefe do Banco Fibra, Maristella Ansanelli, os estoques elevados da indústria serão vitais para derrubar o crescimento deste ano a meros 3,5%.

Segundo Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria, a boa notícia é que o emprego e a renda continuarão em alta, sustentando o consumo das famílias, que representa mais de 60% da composição do PIB do lado da demanda. "Felizmente, o que tem alimentado a nossa economia, diferentemente do visto em vários lugares do mundo, é o consumo. Também o setor de serviços, que aumentou 0,8% no segundo trimestre ante o primeiro, se mantém forte, impulsionado pelos ganhos na renda", destacou.

Os economistas chamam a atenção para o fato de o PIB continuar sentindo o impacto das importações, porque não há perspectiva de recuperação do dólar ante o real. Entre abril e junho, as compras no exterior "comeram" 0,5 ponto percentual do Produto frente ao primeiro trimestre, segundo a economista sênior do Royal Bank of Scotland, Zeina Latif.

Na comparação com igual período do ano passado, a influência foi negativa em 1,1 ponto. "O setor externo gerou impacto negativo para o PIB porque as importações cresceram 6,1%, superando as exportações, que avançaram 2,3%. O dólar baixo tem favorecido os produtos de fora e suprido a demanda doméstica", justificou Rebeca Palis, gerente da Coordenação de Contas Nacional do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). (Colaborou Victor Martins)