Título: Juro de cheque é de 188%
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 25/08/2011, Economia, p. 16

Taxa da linha especial oferecida pelos bancos aos clientes, entre as mais caras em todas as modalidades de crédito, é a maior dos últimos 12 anos. O saldo total das operações de financiamento cresce 1,1% e a inadimplência alcança 6,6% » Na avaliação dos economistas do Banco Central, os consumidores estão muito endividados, o que ajuda a diminuir o ritmo de novos empréstimos

Os juros do cheque especial chegaram, em julho, a 188% ao ano, o maior nível dos últimos 12 anos. Antes, em abril de 1999 a taxa havia alcançado 193%. Mesmo sabendo que essa operação, ao lado do rotativo do cartão de crédito, é a mais cara do mercado, o consumidor não consegue abandoná-la. No mês passado, a dívida dos brasileiros nessa opção estava em R$ 19,9 bilhões. Esse montante encolheu 3,1% em relação a junho, mas cresceu 14,7% sobre julho de 2010 e 22,6% no acumulado do ano.

Segundo informações do Banco Central e do mercado, depois das restrições de crédito impostas pelas medidas macroprudenciais do governo, os consumidores encontraram dificuldades para ter acesso a outras linhas e se viram obrigados a recorrer a créditos mais caros, como o cheque especial. "Essa modalidade continua sendo de emergência e de curta permanência para as famílias. Quando passam por alguma dificuldade, recorrem a ela", explicou Túlio Maciel, chefe do Departamento Econômico do BC.

Com essa procura, a dívida dos brasileiros no cheque especial foi a segunda que mais cresceu no ano, ficando atrás apenas dos financiamentos imobiliários, que avançaram 48% até julho. "Estamos começando a observar uma desaceleração tanto no cheque quanto no crédito pessoal. Eles subiram demais nos últimos meses e, agora, é natural que arrefeçam", disse Nicola Tingas, economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi). "Os próprios bancos têm feito campanha para os clientes trocarem esse limite mais caro por outros mais baratos."

Calote A necessidade de usar linhas de crédito mais caras, somada ao elevado endividamento do brasileiro, impulsionou também o aumento da inadimplência. Em julho, os calotes chegaram a 6,6%, o maior nível desde maio de 2010, quando havia alcançado 6,8%. "Tivemos uma migração para linhas mais arriscadas e a elevação da Selic. Essas linhas têm spreads (diferença entre o custo de captação dos recursos pelo banco e o que ele cobra dos clientes) mais elevados e isso está diretamente associado ao aumento da inadimplência", observou Alexandre Andrade, economista da consultoria Tendências.

Na média, os juros das operações de crédito para as famílias recuaram 0,4 ponto percentual no mês passado e ficaram em 45,7% ao ano. Para as empresas, houve elevação de 0,6 ponto percentual, o que deixou a taxa em 31,4%. Maciel explicou ainda que, apesar de as taxas para os consumidores terem caído, ainda não se configura uma tendência consistente de retração ¿ nos primeiros sete meses do ano, o crédito encareceu 5,1 pontos percentuais.

"A redução que ocorreu foi apenas na margem. Esse movimento nas taxas de juros é normal", ponderou o técnico do BC. A expectativa, porém, é de que elas recuem até o fim do ano, influenciadas pelos juros futuros (contratos usados para minimizar perdas com oscilações da taxa básica de juros, a Selic), que estão em queda e servem de referência para as operações.

Concessões Os juros chegaram a um nível tão elevado que, mesmo o brasileiro pagando as parcelas das suas dívidas e reduzindo o ritmo de tomada de empréstimos, o estoque se eleva. O saldo total das operações de crédito cresceu 1,1% entre junho e julho, chegando a R$ 1,854 trilhão, o equivalente a 47,3% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todas as riquezas do país). Em contraponto, as concessões despencaram 5,1% no período, evidenciando o impacto das taxas sobre o endividamento das famílias.

A expectativa dos economistas é de que, durante parte do segundo semestre, ainda ocorra uma piora das condições de financiamento. Somado ao endividamento elevado das famílias, isso deve reduzir ainda mais o ritmo. "O crédito pessoal está perdendo ritmo porque o tomador começa a perceber que não tem fôlego para mais endividamento e os bancos também ficaram mais seletivos. Isso está reduzindo o volume de negócios", avaliou Nicola Tingas. "O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) também vai emprestar menos no segundo semestre, reduzindo fortemente as liberações de crédito", disse Alexandre Andrade.

Expansão moderada O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel, disse que o saldo total das operações de crédito cresceu porque, apesar das concessões terem registrado taxas negativas, elas continuaram a ocorrer em ritmo superior às quitações. "Podemos observar uma expansão moderada, sobretudo no crédito livre", observou. Com a desaceleração do mês, os economistas ponderam que o avanço do crédito, este ano, ficará em torno de 15%, dentro do que prevê o presidente do BC, Alexandre Tombini. "Acreditamos que os dados de julho, somados à perspectiva de um ambiente de crescimento econômico menor, indicam tendência de recuo do estoque de crédito ao longo do segundo semestre, com boas chances de convergência para o nível estimado pelo BC", disse Adriano Lopes, economista do Itaú Unibanco. No crédito pessoal, as concessões recuaram 3,7% em julho. Outros exemplos: veículos (-0,6%), cartão de crédito (-0,4%) e imobiliário (-28%). (VM)