Menos de 24 horas após ser denunciado pelo Ministério Público por corrupção e lavagem de dinheiro, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, foi recebido por sindicalistas da Força Sindical aos gritos de “guerreiro do povo brasileiro” e “mexeu com ele, mexeu comigo”. O deputado Paulinho da Força chamou- o de “homem público exemplar”. Cunha disse que não vai renunciar nem deixar o comando da Câmara: “Renúncia não faz parte de meu vocabulário”. Um dia depois de ser denunciado pelo Ministério Público Federal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, acusado de participar de um grupo que recebeu propina de US$ 40 milhões, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi aclamado em ato da Força Sindical ontem de manhã. Os sindicalistas, comandados pelo deputado Paulinho da Força (SD-SP), receberam Cunha aos gritos de “guerreiro do povo brasileiro”. Enquanto ele passava, militantes ainda repetiam o slogan “Cunha é meu amigo. Mexeu com ele, mexeu comigo”.
Já no palanque, o presidente da Câmara foi chamado nos discursos de “corajoso, homem público exemplar e pessoa correta”. O tom de apoio ficou claro nas poucas menções à denúncia oferecida pelo MPF. As denúncias de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras foram classificadas de “falcatruas e inverdades”.
Satisfeito com as manifestações de apoio dos sindicalistas, Cunha descartou qualquer possibilidade de renúncia:
— Renúncia não faz parte do meu vocabulário e nunca fará. Assim como a covardia. Não há a menor possibilidade de eu não continuar à frente da Câmara dos Deputados. Ninguém vai me constranger, seja por editoriais ou artigos.
O encontro com sindicalistas na capital paulista foi organizado pelo deputado Paulinho da Força, aliado de primeira hora de Cunha. O parlamentar incluiu o presidente da Câmara num grupo em que figuram Jesus Cristo, Getulio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola.
— Quem defende os mais fracos é perseguido. Isso vem lá de trás. Começou com Jesus Cristo, e, no Brasil, aconteceu com Getulio Vargas, João Goulart e Brizola. Você tem coragem para enfrentar os poderosos — elogiou Paulinho.
O encontro foi convocado oficialmente para debater projetos de interesse dos trabalhadores aprovados recentemente pela Câmara e que vão voltar à Casa após serem vetados pela presidente Dilma Rousseff. Mas, na prática, o que prevaleceu foi o desagravo a Cunha.
O slogan “guerreiro do povo brasileiro” é constantemente usado por simpatizantes dos petistas condenados no escândalo do mensalão para saudálos, como foi feito com o ex-presidente do PT José Genoino e com o ex-ministro José Dirceu, preso na Operação Lava-Jato.
Em discurso, Cunha afirmou que “esses processos são muito longos”, referindo-se ao trâmite da denúncia, caso seja aceita pelo Supremo Tribunal Federal:
— Nada alterará meu comportamento e a forma como estou atuando.
Cunha disse estar “absolutamente sereno” e novamente chamou a denúncia de “ilação”:
— Não vou retaliar quem quer que seja, tampouco vou abrir mão de qualquer direito ou dever que eu tenho. O deputado fez até ironias: — Graças a Deus, a gente não tem pena de morte neste país, porque senão tinham proposto a minha pena de morte.
Ahistória narrada na denúncia de Eduardo Cunha é impactante. Para o Ministério Público, não há dúvidas de que o presidente da Câmara recebeu propina por negócios com a Petrobras, e, por isso, o procurador- geral, Rodrigo Janot, pediu a abertura de ação penal contra ele. Provavelmente convencerá os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) a fazê-lo, mas será o bastante para uma futura condenação?
A narrativa é verossímil, mas também apresenta algumas lacunas. A principal delas: as acusações contra Cunha são baseadas principalmente no depoimento do lobista Júlio Camargo, delator da Lava-Jato. As evidências apresentadas nas 85 páginas da peça assinada por Janot põem o peemedebista na trama. Faltam suas impressões digitais no dinheiro.
Conta Júlio Camargo que, a partir de 2006, a coreana Samsumg Heavy Industries passou a pagar propina em troca de contratos de aluguel de navios para a Petrobras. O delator diz que recebia o dinheiro da empresa e repassava parte dele ao operador do PMDB na estatal, Fernando Baiano. Este, por sua vez, encaminhava uma fração para Eduardo Cunha.
A propina, na descrição de Camargo, deixou de ser entregue em 2011. Em retaliação, de acordo com o delator, Cunha passou a pressionar empresas que participaram do negócio por meio de requerimentos de informação apresentados por aliados políticos. O objetivo seria obter dados de investigações que pudessem causar embaraços a essas empresas, para que elas voltassem a pagar as comissões.
Este é o ponto alto da denúncia. Os tais requerimentos, de fato, foram apresentados pela então deputada Solange Almeida, também do PMDB, aliada de primeira hora do presidente da Câmara. E mais: os registros dos computadores da Câmara mostram que o arquivo eletrônico do requerimento foi aberto no gabinete de Eduardo Cunha. Trata-se de uma prova concreta.
Camargo também diz que ele, Baiano e Cunha se encontraram num escritório no Leblon para tratar da retomada do pagamento da propina. Os investigadores foram a campo e comprovaram que Baiano esteve no local ao rastrearem as antenas de celular e os arquivos de um estacionamento. Cunha estaria no carro de Baiano, mas ainda não há registro formal de sua presença, como atesta o delator.
Seguindo os mandamentos clássicos da boa investigação, a Lava-Jato refez o caminho do dinheiro. Conseguiu documentos que comprovam a cadeia de repasses, mas só até Baiano. Os pagamentos a Cunha, por terem sido feitos em sua maioria em dinheiro, não estão documentados. Eis uma fraqueza da investigação.
Em resumo, a denúncia é consistente, mas tem algumas pontas soltas. A chave para amarrá-las é, sem dúvida, Fernando Baiano. Não por acaso, os procuradores estão negociando em Curitiba um acordo de delação premiada com ele. Se Baiano resolver falar e, principalmente, entregar provas, a história deverá ter começo, meio e fim