Reveses políticos e econômicos insuflam nova escalada do dólar

 

06/08/2015

A política econômica está à deriva depois que a estratégia de forte aperto fiscal para os próximos três anos foi abandonada diante da rebeldia do Congresso e do aprofundamento da recessão. O apoio monetário ao controle das contas públicas foi agora interrompido sem que a perspectiva de uma inflação pelo menos abaixo dos 5% esteja assegurada. Desde o anúncio do afrouxamento da meta fiscal para 0,15% do PIB este ano e do esforço de economia para os anos subsequentes, o real entrou em queda livre. Ontem o dólar comercial encostou nos R$ 3,50 (R$ 3,4894), com uma perda no ano que equivale a um novo choque cambial, de 23,78% - 7,9% desde que o governo anunciou sua revisão fiscal. Se não for revertida a escalada, mais pressões inflacionárias virão.

Até junho, em seu relatório de inflação, o BC trabalhava em suas projeções com uma taxa de câmbio de referência de R$ 3,10. A ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária deve revelar hoje outra cotação, mas não muito distante. Por outro lado, o Banco Central deixou claro que o ciclo de elevação dos juros terminou, e que a taxa de 14,25% será mantida pelo tempo necessário. Mas a disparada do dólar tende a arruinar as chances, já não muito grandes, de a inflação chegar perto de 4,5% ao fim do ano que vem.

O encurralamento do governo pelo Congresso e a súbita ausência de um norte da política econômica são os fatores domésticos relevantes para a valorização da moeda americana. Mas ela tem também significativo componente externo, com o dólar se fortalecendo ante todas as moedas, revigorado pela recuperação dos EUA e pela perspectiva de aumento dos juros em setembro - ainda incerta. Diante de uma cesta de moedas, a moeda americana chegou bem perto de seu pico de 12 de março. Na ocasião, o real se desvalorizou 4,6% em menos de uma semana.

Até quase o fim do primeiro mandato de Dilma, a elevação dos juros tinha como resultado geral a interrupção da desvalorização cambial e alguma reversão temporária das cotações. Com o avanço da crise política e a fraqueza da economia, isto quase não está mais ocorrendo. O BC reduziu o porcentual de rolagem dos swaps cambiais, com a concordância dos investidores, mas a instabilidade fez esse movimento do BC tornar-se um fator coadjuvante, e não muito importante, da depreciação cambial recente.

O dólar está subindo livremente e o BC pode estar fazendo o que o Fundo Monetário Internacional e investidores recomendaram até recentemente: desmontar os swaps para que o ajuste cambial ocorra mais intensa e rapidamente. Diante de uma grave crise política, esta atitude fatalmente conduz a "overshootings". E não se sabe se essa é a intenção do BC, visto que a depreciação atrapalha o tardiamente ressuscitado interesse em atingir o centro da meta de inflação.

Com aval de Dilma, o endurecimento da política fiscal e monetária formaram um dueto lógico para consertar os rumos da economia em um par de anos. Com a diminuição do esforço fiscal, que já era bem menor do que o necessário para estabilizar a relação dívida bruta/PIB, os números serão ainda piores. A perspectiva de rebaixamento do grau de investimento do Brasil ganhou novamente concretude. As projeções para a evolução do PIB ainda contam com o aprofundamento da recessão - contração de 2% - e já nublam o ambiente de alguma recuperação de 2016.

Se o ajuste rápido e doloroso saiu da agenda, algo tem de entrar em seu lugar. Uma série de reformas para desvincular receitas, melhorar a estrutura tributária, enxugar a máquina administrativa, mudar a trajetória do déficit da Previdência e acelerar os programas de concessões na infraestrutura poderia ter impacto importante e apresentar-se como um caminho alternativo. A tragédia é que a presidente pode não estar disposta a seguir esse caminho e que ele também depende de um Congresso hostil, em que a base governista se esfacelou.

Pode ser que o governo pense agora apenas em uma estratégia para sobreviver ao resto do mandato, mas isso tornará a economia prisioneira da mediocridade por muito tempo e não a isentará de crises. Tanto o ministro Joaquim Levy quanto o vice-presidente Michel Temer elevaram as vozes ontem para apontar a gravidade da situação econômica. Temer fugiu à impassibilidade habitual para alertar: "Podemos entrar em uma crise desagradável". Por enquanto, não há nada que possa desmentir seu vaticínio.