Moodys vê recuo de 1,8% do PIB em 2015

17/07/2015 
Antonio Temóteo

 

 (Breno Fortes/CB/D.A Press - 2/9/10)


"O pior ainda não passou. Com a crise política, o governo tem dificuldade de implementar o ajuste. As incertezas são enormes e a Moodys leva isso em conta na hora de definir a nota do país
Zeina Latif, economista-chefe da XP Investimentos




A agência de classificação de risco Moodys divulgou ontem um relatório com perspectivas ruins para a economia brasileira a curto prazo. O documento aponta que o Produto Interno Bruto (PIB) encolherá 1,8% em 2015, e que a deterioração da confiança dos investidores, as incertezas políticas e as pressões inflacionárias manterão a atividade em ritmo lento no próximo ano. As previsões foram publicadas horas antes de os representantes da agência se reunirem com o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O chefe da equipe econômica tentou convencê-los a manter a nota de crédito do Brasil, mas analistas avaliam que o rebaixamento é inevitável.

Mesmo com a redução do rating, o Brasil pode permanecer na faixa definida como grau de investimento, uma vez que a classificação dada pela Moodys ao país está dois degraus acima do limite que colocaria os títulos brasileiros na categoria de especulativos. Para evitar o corte da nota, Levy, afirmou aos técnicos da agência que a economia brasileira enfrenta desafios a curto prazo, mas que o governo tem feito ajustes para que o país volte a crescer. Em entrevista à rádio CBN, o ministro reconheceu que o desempenho fiscal em 2015 não é bom, mas que o Executivo está empenhado em reorganizar as contas.

Para o analista sênior da Moodys Marcos Schmidt, as investigações de corrupção na Petrobras pressionaram a economia brasileira e penalizaram setores estratégicos, como os de engenharia e construção e energia. Ele avaliou que isso também afetou o desempenho das indústrias de aço e de materiais de construção. Schmidt ainda observou que as investigações da Operação Lava Jato deixaram os investidores cautelosos em relação às companhias do Brasil, o que limitou o acesso das companhias nacionais ao mercado global..

O relatório observou ainda que tanto a confiança quanto o poder de compra do consumidor se deterioram, e que o endividamento das famílias, os juros em alta, a inflação galopante e o aumento do desemprego são pressões adicionais para a economia. Conforme o documento, companhias aéreas, de telecomunicações e de mineração serão afetadas. Apesar de projetar um cenário ruim, a agência de classificação projetou que o Brasil crescerá 1% em 2016.

Incertezas
A economista-chefe da XP Investimentos, Zeina Latif, explicou que, diferentemente de outras agências, a Moodys leva mais em conta o cenário de curto prazo para atribuir as notas aos países. Nesse contexto, o Brasil apresenta dificuldades para fazer superavit primário, os empresários estão reticentes em investir, e as incertezas políticas são enormes e contaminam ainda mais as expectativas dos analistas. Para ela, o rebaixamento é inevitável, apesar do ajuste econômico em curso.

Segundo Zeina, não é possível enxergar o fim das investigações da Lava-Jato e dos impactos na economia. A economista explicou que não é possível projetar quando o Brasil vai retomar o crescimento. O pior ainda não passou. Com a crise política, o governo tem dificuldade de implementar o ajuste necessário. Logo, as incertezas são enormes e a Moodys leva isso em conta na hora de definir a nota do país, assinalou.

Na avaliação do economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes, o relatório sinaliza que o país está na direção correta, com os ajustes promovidos até o momento, mas ainda existem muitas incertezas em virtude da crise política. De acordo com ele, há dúvidas se o restante do pacote fiscal, com redução das desonerações tributárias, será aprovado pelo Congresso.

Apesar disso, Gomes vê a agência mais otimista com a retomada do crescimento da economia do que vários analistas brasileiros. Houve uma melhora razoável das condições macroeconômicas do país. Mas ainda existem fortes ventos contrários que podem atrapalhar essa retomada, resumiu.

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Santander aumenta projeção de queda


 
Após Bradesco e Itaú cortarem as projeções de desempenho da economia, o Santander anunciou ontem que revisou a estimativa de variação do Produto Interno Bruto (PIB) de 2015 de queda de 1,5% para retração de 1,9%. A projeção para 2016 é de alta, mas foi reduzida de 0,5% para apenas 0,1%.

Há uma contração na atividade econômica bastante disseminada entre os setores, com surpresas negativas no varejo, a indústria com estoques muito elevados e níveis de confiança de empresários e consumidores nos patamares mais baixos das séries históricas, explicou o economista Rodolfo Margato, economista do Santander Brasil.

Margato acredita que sinais de recuperação da economia podem surgir na segunda metade do próximo ano, o que levaria a um crescimento moderado em 2017. Essa perspectiva, no entanto, considera a materialização de ajustes importantes, não só nos âmbitos fiscal e monetário, mas também na relação entre câmbio e salários.

O processo de deterioração do mercado de trabalho deve persistir em 2016, causando queda dos salários em termos reais, o que, com a depreciação do câmbio, geraria mais exportações, levando a um aumento de produção e de investimentos, comentou.

Nesta semana, o Bradesco revisou de 0,5% para zero sua previsão para o desempenho da atividade no próximo ano, citando o forte carregamento estatístico de 2015, que deve ter contração de 1,8%. Na quarta-feira, foi a vez do Itaú Unibanco, que cortou de alta  de 0,3% para queda de 0,2% a perspectiva do PIB em 2016, após o tombo de 2,2% esperado para este ano.