Maior população do planeta e segunda economia do mun-dò, a China é uma terra de grandes números. Ontem, em uma segunda-feira de pânico entre investidores, o mercado.de ações chinês registrou a incrível marca de” mais de mil ações que atingiram o limite máximo de desvalorização de 10%, o que aciona o chamado “circuit-breaker” – mecanismo que interrompe os negócios.
Em meio ao temor de estouro de uma bolha financeira na China, o medo de que Pequim pode estar retirando, medidas de apoio aos mercados e novos dados fracos sobre a atividade deflagraram mais um dia de forte queda nas duas principais bolsas do país: em Xangai, a desvalorização foi de 8,5%, e Shenz-hen fechou com perdas de 7,6%.
Durante o dia, o mecanismo do Circuit breaker foi usado em mais de mil ações diferentes. O instrumento é acionado quando um papel perde mais de 10% do valor em um dia. Como re sultado, os negócios são suspensos por alguns minutos, numa tentativa de dar racionalidade ao pregão. Juntas, as bolsas de Xangai e Shenzhentêm mais de 2,5 mil empresas listadas.
Mesmo com a paralisação dos negócios, a perda de um décimo do valor atingiu até as grandes empresas. Ao todo, oito instituições financeiras tiveram as transações suspensas. Entre elas, o Bank of Communications, quinto maior banco chinês, que anunciou em maio a compra de 80% do brasileiro Banco BBM. A ação do banco chinês cedeu 9,96% no dia. Também foram registradas 22 corretoras que tiveram queda de 10% em algum momento do pregão.
No setor de commodities, o movimento também foi agressivo. As petroleiras China National Petroleum Gorp e Sinopec, por exemplo, fecharam o dia com desvalorização de 9,6% e 10%, respectivamente.
Medo da bolha. O novo tombo nas bolsas de valores da China revela uma dura realidade para Pequim: nem sempre o governo consegue controlar as forças do mercado financeiro. Mesmo com a sequência de medidas oficiais para tentar conter a desconfiança nas últimas semanas, a onda vendedora voltou a prevalecer e cresce o temor de estouro de uma bolha na segunda maior economia do mundo.
Diante dessa realidade, analistas cogitam novas medidas para incentivar a economia, como a aceleração do afrouxamento monetário ou até mesmo a desvalorização gradual do yuan para incentivar exportações.
Até a metade de 2015, o mercado chinês viveu um período de glória. Em 12 meses até meados de junho, o principal índice da Bolsa de Xangai acumulou alta de 151%. A percepção de que os juros seguirão baixos no país, diante da desaceleração da economia, foi o principal argumento para a alta.
O fôlego, porém, parece ter acabado. Uma série de fracos dados sobre a atividade e lucros em queda derrubaram os preços, O medo de um movimento de manada entre os 56 milhoes de pequenos investidores acentuou a pressão. Em pouco mais de um mês, desde o meio de junho, Xangai perdeu 28%. A venda maciça de papéis despertou o medo de estouro de eventual bolha. Por isso, Pequim correu para agir e anunciou nas últimas semanas medidas sem precedentes, como proibição de venda a descoberto, interrupção da oferta de novas ações, restrição à venda para grandes acionistas e incentivo para que fundos de investimento público comprem papéis.
No entanto, a nova queda das ações em Xangai e Shenzhen revela que a estratégia está longe do sucesso e, por enquanto, o mercado leva a melhor nessa queda de braço. Apesar da disposição de Pequim em controlar os ânimos, não há certeza entre analistas se o governo quer continuar a luta contra o mercado. Assim, cresce a expectativa de que Pequim possa anunciar mais medidas para incentivar a atividade. Dessa forma, atacaria a raiz do problema e não o sintoma.
Uma alternativa seria acelerar o relaxamento monetário da China. Em junho, o Banco do Povo da China (PBoC, o BC chinês) cortou o juro em 0,25 ponto, para 4,85%, na quarta redução seguida desde novembro do ano passado. Mas alguns, analistas acreditam que a estratégia pode ser ainda mais ampla e incluir uma ação com o yuan.