Título: Parentes de mãos atadas
Autor: Mariz, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 04/09/2011, Brasil, p. 10

A falta de estrutura para atender dependentes respinga no Judiciário. São comuns os casos de internação conseguida no tribunal e descumprida por falta de leito » Em meio à incompetência das autoridades para cumprir ações anunciadas, brasileiros sem condições de pagar clínicas particulares depositam sua última esperança no Judiciário. Diariamente, em tribunais dos quatro cantos do país, homens e mulheres desesperados suplicam por tratamento para o vício em drogas. Até descobrirem que a decisão do juiz é simplesmente ignorada pelos governos. "Fiquei tão feliz quando saiu o resultado. Não consigo entender por que os homens do poder não cumprem o que está escrito aqui", diz Teresa*, com a determinação judicial, de fevereiro, nas mãos. Enquanto a ordem de internação em rede pública ou privada continua no papel, a senhora de 67 anos teme ser assassinada pelo filho de 43 anos usuário de álcool.

"Pensei que o fim da minha vida seria mais feliz. Que nada! Todo dia, quando ele volta da rua, o terror começa. Se ele vem para cima de mim, subo no telhado de casa e fico rezando, pedindo para a mãezinha entrar na frente, proteger nós dois. Uma hora ele vai me matar", constata, aos prantos, a moradora do Gama, no Distrito Federal. Embora não haja estatísticas no país sobre a demanda de ações judiciais, é unânime a percepção de aumento entre os operadores do direito. "Quase diariamente atendemos famílias querendo saber o que precisam fazer para conseguir tratamento ou aquelas que já ajuizaram ações com esse fim. A presença do crack é muito forte na maior parte das demandas", diz Rodrigo Paschoal e Caldas, defensor público do DF.

A esperança é de que, com o novo plano anunciado pelo governo local, as soluções cheguem. Para Luiz*, 38 anos, visivelmente abatido pelo uso de crack, a boa notícia ainda não veio. Ele recorreu à Defensoria Pública para pedir o tratamento de desintoxicação. Embora o juiz tenha atendido o pedido em outubro passado, a vaga de internação nunca surgiu. "Os defensores se esforçaram ao máximo, as juízas sempre me ajudaram, mas o governo diz que não tem lugar para me colocar, estão tentando em uma clínica de Anápolis", afirma Luiz, hoje com 52 quilos, 35 a menos do que antes do vício. Desde o primeiro contato com a droga, 18 meses atrás, a vida do brasiliense mudou. "Uma vez, fui procurar maconha e não tinha. Aí me ofereceram crack. Gostei e continuei. Depois disso, até morar na rua já morei. Não sei até quando terei forças para procurar tratamento", diz.

O sofrimento do rapaz, que antes de começar a usar crack fazia curso de brigadista em horas alternadas com o trabalho de ajudante de obras, intensifica-se quando fala dos pais, já idosos. "Eles nunca beberam, nunca fumaram e, há 20 anos, sofrem por causa de mim, desde que eu comecei a mexer com maconha", diz Luiz.

Para Diaulas Ribeiro, promotor de justiça no Distrito Federal com longa atuação na saúde, é crescente o número de ações na Justiça solicitando tratamento em dependência química. O problema, segundo ele, está na falta de atendimento. "Não adianta haver decisão se o governo não tem onde internar as pessoas. Com as unidades de terapia intensiva (UTIs), ainda se usava o risco de vida para contratar leitos em hospitais privados, mas, no caso da droga, ficamos sem saída", destaca o promotor.

* Nomes fictícios a pedido dos entrevistados.