Título: Marta ensaia saída à francesa
Autor: Campbell, Ullisses
Fonte: Correio Braziliense, 06/09/2011, Política, p. 6

Mesmo em alta nas pesquisas para a prefeitura de São Paulo, a senadora é pressionada por Lula a abrir espaço para o ministro Fernando Haddad

São Paulo ¿ Mesmo com todas as pesquisas apontando a senadora Marta Suplicy (PT) como a preferida neste momento para a prefeitura de São Paulo, nem passa pela cabeça do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a ideia de desistir de tentar emplacar o ministro da Educação, Fernando Haddad, na cadeira hoje ocupada por Gilberto Kassab (PSD). No levantamento do Datafolha feito na semana passada, a senadora aparece com 14 pontos de vantagens a frente de Haddad e José Serra (PSDB).

Os números não animaram Lula. Pelo contrário, ele ainda tentará um acordo com Marta para que ela desista da candidatura. Na análise do ex-presidente, o PT paulista é um barril de pólvora e uma prévia poderia causar uma explosão de grandes proporções ¿ que poderia arranhar a imagem da senadora. A ideia é fazer com que Marta saia da disputa à francesa, para não parecer que foi preterida. Lula decidiu ainda intensificar os trabalhos para emplacar Haddad.

Paternidade O que preocupa agora não é se Marta vai abrir mão da candidatura, o que é visto apenas como uma questão de tempo. O problema é o risco de tê-la como adversária dentro do partido. Ela passou a atacar Haddad pelos corredores de Brasília. Chegou até a criar uma saia justa ao dizer publicamente que é mãe do Centros Educacionais Unificados (Ceus), projeto popular em São Paulo. Haddad já tinha dito que foi o idealizador dos Ceus e determinou à sua equipe o levantamento de informações sobre o tema para sua pré-campanha.

O maior entrave de Marta é o isolamento. Enquanto prefeita, ela tinha um núcleo sólido de apoio dentro do PT paulista. Desde então, acumula derrotas políticas e antigos aliados foram para lados opostos. É o caso dos deputados petistas Carlos Zarattini e Jilmar Tatto, que se opõem a uma eventual prévia. Outro ex-aliado, Luiz Marinho (PT), prefeito de São Bernardo do Campo, é hoje um dos maiores entusiastas da pré-campanha de Haddad. "Não tem como ir contra o nosso presidente", diz Marinho. O líder do governo na Câmara dos Deputados, Cândido Vacarezza (PT-SP), vai na mesma linha: "Não há como desprezar a força política que Marta tem em São Paulo, mas ninguém dentro do PT quer contrariar Lula".

Rusgas antigas Mesmo bem colocada nas pesquisas, Marta está sem apoio político sólido para alçar grandes voos. Há rusgas com antigos aliados pela sua candidatura ao Senado em 2010, e não ao governo. Vem também desse período uma briga com o atual ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, na época senador e candidato ao Palácio dos Bandeirantes. Era visível o mal-estar entre os dois nos palanques. Os desentendimentos foram tantos que Marta rompeu com o publicitário de Mercadante, Augusto Fonseca, e contratou Duda Mendonça. Hoje, os dois apenas se cumprimentam.

Deixada à deriva por Lula, Marta buscou o apoio da presidente Dilma Rousseff. Disse à presidente que precisava de apoio feminino para concorrer. Ouviu que São Paulo é assunto de Lula e que o governo precisa de apoio no Senado. Mais tarde, ele reforçou a ducha de água fria com o mantra do PT para 2012: "Cara nova". Lula não pediu para Marta desistir da empreitada porque ela já chegou ao encontro anunciando a pré-candidatura. Ainda, porque o poder eleitoral da petista faz com que, para ser eleito, Haddad precise tê-la ao seu lado no palanque. Por isso, a solução seria uma saída discreta de cena.