LUIZA DAMÉ
O globo, n. 29956, 13//08/2015. País, p. 6
Em uma semana em que decidiu partir para o corpo a corpo com a base rebelada, com os movimentos sociais e com o empresariado, a presidente Dilma Rousseff afirmou ontem, em entrevista ao “Jornal do SBT”, que não pretende renunciar ao cargo e voltou a defender respeito ao voto popular. Dilma disse que as manifestações populares, como as marcadas para o próximo domingo, fazem parte da democracia, mas condenou a intolerância, argumentando que pode levar à violência. Dilma afirmou ainda não ver no país uma tendência ao fascismo.
— Por que eu jamais cogito renunciar? Porque não é possível que alguém, discordando de um processo ou de alguma política, pretenda tirar um representante, no caso, a presidente, legitimamente eleito pelo voto popular. Nós temos ( que) aprender que democracia exige respeito à instituição. Esse respeito à instituição é fundamental, não para mim, não para o meu cargo, é para todos os presidentes que virão depois de mim — afirmou Dilma.
Sobre as manifestações, apoiadas pelo PSDB, a presidente afirmou que o governo precisa conviver com posições diferentes e com momentos difíceis:
— Não somos mais uma democracia infatilizada. Portanto, manifestações são coisas normais em uma democracia. Agora, o que temos de evitar é intolerância, porque a intolerância leva a conflitos que não têm solução. Ela divide um país e transforma algumas manifestações até em processos que levam à violência. Acho que tem um processo de intolerância como não visto antes no Brasil, a não ser nos períodos passados, quando se rompeu a democracia. Não acredito em um Brasil fascista, porque este país é composto de diferentes etnias: índios, negros e brancos de diversas origens.
“NÃO VEJO ( ESSE CLIMA DE GOLPE)”
A entrevista foi concedida na manhã de ontem e veiculada à noite. Ao falar sobre a renúncia, Dilma citou Carlos Lacerda, principal oponente de Getúlio Vargas. A presidente lembrou a frase de Lacerda sobre a candidatura de Getúlio: “Não deve se eleger. Se se eleger, não deve tomar posse. Se tomar posse, não deve governar. Se governar, tem de ser destituído”.
— Eu acho fantástico uma questão desse tipo ( sobre a renúncia). A sociedade não é intolerante, mas as elites, algumas vezes neste país, foram e foram muito intolerantes — afirmou Dilma, acrescentando não haver hoje um clima de golpe, semelhante ao daquela época:
— Não vejo ( esse clima). Eu vejo uma tentativa ainda bastante incipiente e muito artificial de criar um clima desse tipo.
Dilma disse que o Congresso colaborou com seu governo. Ela argumentou que os ex- presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva não precisaram enfrentar votações de vetos, pois as regras para acelerar esse processo endureceram no seu mandato. Mesmo assim, segundo ela, de 3 mil vetos, somente um foi derrubado, “o que mostra um Congresso extremamente cooperativo”:
— Eu não posso dizer que o Congresso que tive nos últimos anos foi um Congresso ruim, pelo contrário.
A presidente cobrou responsabilidade do Congresso, do próprio governo e das entidades da sociedade civil na análise das chamadas pautas- bombas. Para Dilma, neste momento, o país não comporta reajustes salariais, em uma referência ao projeto do aumento dos servidores do Judiciário.
— Eu acredito que essa rebelião tende a ser vista com uma certa diferença. Eu não acho que a Câmara não tenha responsabilidade com o país, a trajetória dela não mostra isso. Não acredito que as chamadas pautas- bombas vão proliferar no Congresso. O Congresso tem uma tradição de estar adequado ao ritmo do país.
A presidente evitou entrar em confronto com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha ( PMDB- RJ), e também disse que não falaria sobre a decisão dele de devolver pedidos de impeachment aos autores para que eles sejam aperfeiçoados e possam tramitar. Dilma minimizou ainda a declaração do vice- presidente Michel Temer, articulador político do governo, de que era preciso “alguém” para unificar a base aliada:
— Eu não acredito nesse tipo de especulação. A contribuição do vice- presidente para o governo tem sido sistemática. Não tem intriga entre mim e o Temer. Ela não dura.
Dilma disse que não falaria sobre assuntos em debate no governo, mas não negou que esteja avaliando a possibilidade de fazer uma reforma ministerial e reduzir o número de pastas, que hoje são 39.
— Eu não vou adiantar medidas que ainda não estão prontas e não foram profundamente discutidas. Mas quero dizer que várias medidas de reformas tanto micro como macroeconômicas estão no radar do governo — afirmou.
A presidente reconheceu que cometeu erros no governo, sem detalhar quais. Dilma disse apenas que deveria ter se esforçado mais para tirar as amarras da economia para permitir investimentos em infraestrutura e o crescimento do país.
— Eu não acho que não errei, não. Eu sou completa e totalmente humano, eu posso ter cometido vários erros. O que eu quero dizer é que os erros não são justamente esses que falam — afirmou.
Dilma voltou a defender a autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal pra investigar as denúncias de corrupção da Petrobras, no âmbito da Operação LavaJato, que já colocou na prisão ex- diretores da estatal, dirigentes das maiores empreiteiras do país e petistas, incluindo o ex- ministro José Dirceu e o ex- tesoureiro do partido João Vaccari:
— Tenho de respeitar as decisões judiciais, mas também tenho de defender o direito de defesa. Eu só vou externar juízos quanto a pessoas a partir do completo direito de defesa. Agora, sou a favor que se investigue e se puna todos os crimes e maus feitos previstos na lei. Nada arbitrário.