Sem saída fácil

 

MERVAL PEREIRA

O globo, n. 29951, 08//08/2015. País, p. 4

 

A partir da premissa de que 2015 ficará marcado pelo colapso de um ciclo econômico e político, o economista Claudio Porto, presidente da consultoria Macroplan, especializada em estratégia e cenários futuros, traçou três cenários para o 2º governo Dilma — Colapso, UTI e Recuperação. Todos, rigorosamente, apontam para conjunturas difíceis, sendo que o cenário de colapso, do qual trataremos amanhã, é o mais provável.

Para a Macroplan, há razões de sobra para o pessimismo no curto prazo: o quadro econômico recessivo ainda não surtiu todos os seus efeitos, o ajuste fiscal está “desidratando”, e a situação política tende a ir ladeira abaixo. A perda do grau de investimento do Brasil ainda este ano é dada como praticamente certa. Boa parte dos investimentos estruturadores está comprometida com o escândalo envolvendo empreiteiras na Operação Lava-Jato. “E esse foi apenas mais um baque para um país que já vinha investindo muito pouco nos últimos anos”, complementa Porto.

Não deixa de ser surpreendente a intensidade e a velocidade do desgaste do segundo mandato de Dilma Roussef, comenta Claudio Porto. Para ele, este fenômeno decorre da conjugação de três forças que operam na mesma direção — as duas primeiras de caráter objetivo: (1) a degradação da situação econômica — com piora generalizada dos principais indicadores econômicos — produção, emprego, renda, inflação, investimento; (2) a evolução da Operação Lava-Jato, que mudou de patamar e de capacidade de impacto, ao começar a prender e punir grandes empresários e avançar no indiciamento de políticos poderosos (até agora quase 500 pessoas e empresas foram investigadas, e 120 prisões preventivas ou temporárias ocorreram, das quais 35 pessoas ainda permanecem na cadeia); e(3) a perda de confiança, agindo como “fio condutor” do atual cenário de crise enfrentado pelo governo.

A deterioração das expectativas dos agentes econômicos e da sociedade está refletida no Índice de Confiança do Consumidor que teve queda de 44,6%, entre janeiro e julho de 2015 —e a confiança do empresário industrial que tem trajetória de queda constante, chegou a 27,6 (o índice varia de 0 a 100).

O cenário batizado de “UTI” configura uma agonia prolongada da economia e do governo — lembrando o período Sarney — e tem alguma probabilidade de ocorrer : aponta para altos e baixos no ajuste fiscal; crescimento econômico entre - 2% ( 2015) e+ 2% ( 2018) e expectativas de inflação sempre em torno de 6,5% ao ano, a partir de 2017, com estagnação do emprego e renda.

Neste cenário, a impopularidade da presidente fica mantida em patamares altos, e também mantém- se em baixa a confiança no governo e no seu partido, com consequente fragmentação da base de sustentação parlamentar, que opera na base do “toma lá dá cá”.

A Operação Lava-Jato tem efeitos amplos, mas não chega a atingir a pessoa da presidente. Este seria o pior cenário para o país, do ponto de vista econômico e social, pois significará a consumação de outra “década perdida”.

Outro cenário antecipa uma “recuperação progressiva do Governo Dilma” na economia e na política que, na melhor das hipóteses, somente ocorrerá a partir de meados de 2016, com o declínio da inflação, a recuperação parcial do emprego e renda (a partir de 2017) e da popularidade da presidente que, no entanto, dificilmente chegará a níveis parecidos aos do primeiro mandato.

A Operação Lava-Jato neste cenário tem efeitos limitados e diluídos no tempo. Este, contudo, é hoje o cenário mais improvável na avaliação dos especialistas da Macroplan.