Redução do ministério alarma base

 Andrea Jubé e Raphael Di Cunto 

26/08/2015

O anúncio precipitado de uma reforma ministerial inacabada serviu para desviar o foco do desembarque do vice-presidente Michel Temer da coordenação política, numa tentativa de blindar a presidente Dilma Rousseff de mais um ingrediente da crise política. Mas a ofensiva de comunicação deflagrada simultaneamente, com uma rodada de entrevistas de Dilma sobre o assunto, ao invés de turbinar a agenda positiva, alarmou os aliados e gerou mais turbulência na base.

Os aliados estão aflitos com a iminente perda de espaço e a incerteza sobre quais cabeças vão rolar. Um fator a mais de pressão, já que sofrem reveses em suas bases eleitorais, a um ano das eleições municipais, por apoiarem um governo que agoniza.

A estratégia de Dilma com o anúncio da redução de ministérios, segundo uma fonte do Palácio do Planalto, é avocar para si a articulação política, numa tentativa de renegociar espaços com aliados mais fiéis. Com o afastamento de Temer e do ministro-chefe da Aviação Civil, Eliseu Padilha - braço-direito do vice na coordenação política - Dilma tenta assumir as rédeas da negociação dos cargos e emendas parlamentares.

É fato que bastou o anúncio de Temer de que passará a se dedicar, exclusivamente, ao que chamou de "macropolítica" - um diálogo amplo com as bancadas aliadas na Câmara dos Deputados e do Senado -, para que nomeações pendentes desembocassem na edição de ontem do "Diário Oficial da União". No caso, indicações para vice-presidências da Caixa Econômica Federal. Simultaneamente, Padilha anunciou que o Ministério da Fazenda liberou centenas de milhões de reais em emendas parlamentares.

Há semanas, pemedebistas reclamavam que o chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e a presidente da Caixa, Miriam Belchior, barravam as nomeações. Mas após a decisão de Temer e Padilha de deixar a articulação, Miriam Belchior foi chamada para uma reunião fechada no Palácio na sexta-feira.

O resultado foi a nomeação, publicada ontem, do ex-secretário estadual de Gestão e Previdência do Maranhão Marcos Fernando Jacinto para uma vice-presidência da Caixa, um acordo que havia sido fechado semanas antes por Temer e Padilha, e Miriam hesitava em cumprir. Impasses dessa natureza foram determinantes para a saída de Temer e Padilha.

Uma fonte do Palácio do Planalto disse ao Valor que Dilma decidiu chamar a imprensa para comunicar que reduziria o número de ministérios e cargos comissionados - sem o formato completo definido - porque queria ser a porta-voz oficial da novidade.

Segundo este interlocutor, Dilma não queria que as mudanças fossem divulgadas de forma enviesada, por meio de vazamentos. Uma contradição é que há cerca de um mês, Dilma garantia em entrevistas que não promoveria a reforma ministerial neste momento. A interlocutores, chegou a afirmar que somente se ocuparia de mudanças na Esplanada no ano que vem.

A nomeação de Marcos Jacinto, que foi secretário do governo Roseana Sarney (PMDB), filha do ex-presidente José Sarney (PMDB), é atribuída ao senador João Alberto (PMDB-MA), aliado do clã Sarney. "Ele [Jacinto] é muito competente, já trabalhou em banco internacional de fomento, foi excelente secretário no Maranhão e vai atuar na área de Recursos Humanos da Caixa", disse Alberto ao Valor.

O PT, por sua vez, foi contemplado com outras duas vice-presidências, que serão ocupadas pelo ex-presidente do Banco do Nordeste Nelson Antônio de Souza - indicado pelo governador do Piauí, Wellington Dias (PT) - e pelo ex-superintendente regional da Caixa em Campinas Paulo José Galli. Ambos são funcionários de carreira da Caixa.

Em outra frente, Padilha anunciou ontem que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, liberou R$ 300 milhões em restos a pagar de emendas parlamentares de 2014 e que outros R$ 200 milhões serão liquidados até o fim do mês.

Valor econômico, v. 16, n. 3828, 26/08/2015. Política, p. A7