Título: Líderes das Américas
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 21/08/2011, Economia, p. 18

Mesmo com a queda das ações, por causa da crise mundial, bancos brasileiros estão entre os mais valorizados da região. Motivo: a rigidez da legislação no país, iniciada com o Proer

Com os bancos europeus sob suspeição, por estarem atolados em dívidas podres superiores a US$ 2 trilhões, os olhos se voltaram para o sistema financeiro brasileiro, apontado como um dos mais sólidos do mundo, graças a uma rígida legislação. Não à toa, as instituições do país registram os maiores valores de mercado em todas as Américas, mesmo com o derretimento dos preços de suas ações desde o início do ano, por causa da crise mundial. O Bradesco vale 1,78 vez o seu patrimônio líquido. O Itaú Unibanco está cotado em bolsa de valores a 1,77 vez o preço registrado em seu balanço e o Banco do Brasil, a 1,33 vez, conforme cálculos da Consultoria Economatica.

Mas foram necessários muitos anos de ajuste para que se chegasse ao quadro atual, diz o economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central. A arrumação da casa começou em 1995, quando foi editado o Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro Nacional, mais conhecido como Proer. Nascido sob a pecha de ter sido criado para salvar banqueiros, foi, oficialmente, reabilitado. "Com certeza, o Proer evitou uma enorme crise bancária no Brasil", ressalta Cláudio Mauch, ex-diretor de Normas e de Fiscalização do BC.

Ele reconhece, porém, que, independentemente da sua importância, o Proer foi visto com antipatia. "Infelizmente, qualquer programa que envolve bancos não é bem-visto. Com o Proer, não foi diferente", destacou Mauch. Num primeiro momento, ficou a visão de que o programa ¿ que exigiu uma complicada engenharia financeira para separar a parte boa das instituições da ruim ¿ serviria apenas para preservar o patrimônio de banqueiros importantes à época, como Ângelo Calmon de Sá, do Econômico; Marcos Magalhães Pinto, do Nacional; e Andrade Vieira, do Bamerindus.

Mais tarde, ficou provado que tal premissa era falsa. Todos, sem exceção, perderam seus bancos. A parte boa, com ativos e passivos equilibrados, foi assumida por outra instituição. A parte ruim, sob liquidação do BC, ficou com os débitos e ainda hoje existe dívida a pagar, embora ela venha caindo, em termos reais, ao longo do tempo. "Foi um período difícil. Mas tínhamos uma razão muito forte para fazer o Proer. O sistema bancário estava muito fragilizado e, se sofrêssemos uma perda generalizada de confiança nas instituições, poderíamos ter uma crise bancária de grandes proporções, que poderia comprometer o Plano Real", observou Loyola. "O Proer salvou a economia popular, pois preservou os ativos de todos os correntistas dos bancos que fizeram parte do programa", emendou.

Honra ao mérito Gustavo Loyola, Cláudio Mauch, Alkimar Moura e Luiz Carlos Alvarez, todos ex-dirigentes do Banco Central, receberão, em 31 de agosto, a medalha Pedro Ernesto, a mais alta honraria concedida pela cidade do Rio de Janeiro. Motivo: a criação do Programa de Estímulo à Reestruturação do Sistema Financeiro Nacional, o Proer, considerado vital para dar solidez aos bancos nacionais.