GLAUCE CAVALCANTI
RAMONA ORDOÑEZ
Para cortar gastos, estatal revê contratos e cobra multas. Setor de máquinas alega ter R$ 500 milhões a receber, e dez empresas já estudam entrar na Justiça, informam GLAUCE CAVALCANTI e RAMONA ORDOÑEZ. Com o aprofundamento da crise da Petrobras, cresce o número de fornecedoras do setor de óleo e gás que avaliam ir à Justiça contra a companhia. Uma dezena de afiliadas à Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) já estuda processar a petroleira, diz José Velloso, presidente executivo da entidade. É que o aperto no caixa da estatal — que impôs uma freada em desembolsos — afeta as finanças da cadeia produtiva do segmento. E impulsiona as consultas a advogados especializados sobre os caminhos do litígio contra a gigante brasileira de petróleo.
— Num mercado em que a Petrobras é quase cliente único, processar a empresa é uma decisão extrema e que deve ser avaliada considerando o peso da estatal na carteira do fornecedor. Era raro. Mas, no atual cenário, vai acontecer — conta Velloso. — O mercado está parado. A Petrobras não nos recebe. Pelo vácuo de informação, em caso extremo, recomendamos ao associado ir à Justiça contra a companhia.
‘CRESCIMENTO PÍFIO’
A Abimaq conta com 500 fornecedoras de máquinas e equipamentos para o setor de óleo e gás, que respondem por quase dez mil das 35 mil demissões nessa indústria de janeiro a julho. Cerca de 90 empresas esperam receber pagamentos de companhias em recuperação judicial, conta Velloso. Destas, 50 processam empresas que fazem a intermediação entre a Petrobras e os fornecedores na execução de projetos.
— Já há perto de R$ 500 milhões em dívidas a serem recebidas por fornecedores de máquinas e equipamentos para óleo e gás — avalia Alberto Machado Neto, professor do MBA da FGV e diretor de Petróleo e Gás da Abimaq.
A forte redução nos investimentos da Petrobras — que caíram de uma faixa de US$ 45 bilhões anuais até 2013 para menos de US$ 27 bilhões este ano — tem efeito em cascata no mercado. Uma fonte da estatal conta que serão reduzidos aportes para 2016 para menos de US$ 25 bilhões. A Petrobras reconhece negociar com fornecedores parte de seus contratos visando a redução de custos, mas não informa valores. E afirma seguir na busca pela competitividade nos processos e pelo desenvolvimento nacional de fornecedores, que somam mais de dez mil em seu cadastro.
— No setor offshore, as empresas são especializadas. Não é possível diversificar atividades. E a redução da curva do petróleo pela Petrobras é absurda, passando da produção de dois milhões de barris por dia hoje para só 2,8 milhões em 2020. É um crescimento pífio — diz Marcelo Nacif, gerente geral da Swire Oilfield Services, multinacional de serviços de transportes.
Para preservar o caixa, a Petrobras renegocia e até rescinde contratos. A concessão de aditivos foi suspensa e, de meados de 2014 para cá, relatam advogados e empresas do setor, é crescente a aplicação de multas às contratadas, incluindo penalidades ligadas a contratos já terminados. A carioca BSM Engenharia, de serviços de logísticas à atividade offshore, foi à Justiça contra a estatal. Argumenta ter sofrido aplicação de multas abusivas, de R$ 18 milhões. E cobra R$ 11,7 milhões por serviços realizados.
— A questão mostra uma conduta abusiva por parte da Petrobras. Com a posição dominante que tem no mercado de óleo e gás no Brasil, ela impõe uma série de condições listadas em contrato padrão e que não aceitam negociação de cláusula. (O abuso) fica ainda mais flagrante com as multas, pois faz notificações sobre inadimplementos cometidos mais de um ano atrás. Como fazer a defesa de algo já passado? — questiona Leonardo Marins, advogado da BSM.
Segundo Marins, a Petrobras informa das multas em documentos. As explicações da fornecedora são recusadas sem apresentação de justificativa. Com isso, o valor da multa é descontado do pagamento por serviços prestados.
— Isso significa que a empresa recebe um pagamento cada vez menor, reduzindo o fluxo de caixa — pondera Marins, ressaltando que a BSM tem a Petrobras como cliente há mais de 30 anos.
A BSM pediu recuperação judicial em julho, dias após rescindir um contrato com a Petrobras, alegando ser inviável manter as operações devido à aplicação de multas abusivas. A Petrobras esclareceu, por meio de nota, que aplicou multas e sanções à empresa ao longo da execução de contrato de serviços para a operação na Base de Imboassica, em Macaé, que tinha duração de cinco anos. As penalidades eram relativas ao não cumprimento de prazos e obrigações contratuais. Após a rescisão do contrato pela BSM, a Petrobras substituiu a empresa por nova contratada.
Márcio Cotrim, sócio do escritório Leal Cotrim, vê uma mudança de paradigma:
— A estatal tem feito leituras mais restritas dos contratos, favorecendo aplicação de sanções e multas. Como têm cláusulas abertas, as empresas se esforçam para resolver administrativamente, mas já fazem consultas sobre o caminho judicial.
GRANDES EMPRESAS MUDAM ESTRATÉGIA
A Petrobras afirma que observa a legislação, suas normas internas e os procedimentos previstos em contratos para aplicação de multas e resolução de disputas. E que sempre notifica a empresa de conduta passível de penalidade, garantindo prazo para apresentação de defesa pelo fornecedor, que é avaliada para, só depois, aplicar a multa.
O impacto do desinvestimento afeta empresas de todos os portes. Segundo fontes do setor, a Rolls-Royce avalia desativar a fábrica de propulsores marítimos que inaugurou em Duque de Caixas no primeiro trimestre. Procurada, a companhia não respondeu. Já a OneSubsea, unidade de Cameron Schlumberger de produtos e sistemas para o setor de óleo e gás, dizem executivos próximos, estuda direcionar sua produção no país para a exportação. A empresa não comentou o assunto.
Especialistas avaliam que os debates sobre a posição dominante da Petrobras na indústria de óleo e gás devem esquentar. Para João Emílio Gonçalves, gerente executivo de política industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o tema é incontornável:
— Não há como recuperar demanda na cadeia sem recuperação da Petrobras. A discussão sobre contar com um operador único do pré-sal é importante. Limita investimentos e é um fardo para a estatal, que tem de entrar em todos os projetos, mesmo que avalie não ser o melhor. Conhecida como a Cidade do Petróleo, Macaé, no Norte Fluminense, amarga perdas em receita e empregos em consequência da crise no setor de óleo e gás. Só o segmento offshore já demitiu nove mil pessoas até setembro deste ano, contra cinco mil em todo o ano de 2014, segundo o Sindicato dos Trabalhadores Offshore do Brasil (Sinditob). Duas semanas atrás, fontes próximas à Petrobras informaram haver planos da petroleira de demitir ao menos cinco mil terceirizados da área administrativa.
O efeito da crise chega em ondas a outros setores. A hotelaria viu a ocupação média despencar para pouco mais de 30% ao mês, enquanto as vendas de imóveis recuaram 60%.
A arrecadação da prefeitura caiu quase um terço até julho, frente a igual período do ano passado. A Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro) estima que os royalties para Macaé devem cair de R$ 576,3 milhões, em 2014, para R$ 357,4 milhões este ano.
— A queda média em geração de receita é de 30%. É a pior crise que enfrentamos nos últimos 25 anos — diz o prefeito Aluízio dos Santos Jr. (PMDB).
AUDITÓRIO PARA HOMOLOGAÇÕES
Segundo Santos, a previsão é que a região que vai de Cabo Frio a Campos dos Goytacazes deve perder R$ 2 bilhões de receitas do petróleo até 2016
Por ora, o remédio é adequar os gastos e preparar a cidade para a retomada, prevista para daqui a dois anos. Em julho, começou a reforma administrativa para economizar R$ 34 milhões por ano, com o corte de 37 órgãos. Foi reduzido o número de cargos comissionados e fixados novos tetos salariais, incluindo redução de 20% nos salários do prefeito e do vice-prefeito.
Para Amaro Luiz da Silva, presidente do Sinditob, o maior desafio é ajudar as empresas que operam na cidade a atravessar a crise preservando os trabalhadores:
— São muitas demissões. Quem tem recursos opta por empreender. Mas quem não tem acaba indo para o mercado informal.
As sucessivas demissões obrigaram o Sinditob a alugar um auditório para homologações. Isso aconteceu quatro vezes este ano:
Silva acredita que recorrer à Justiça é o caminho natural para fornecedores e trabalhadores. O sindicato prepara ação civil pública contra a Schahin, operadora de sondas investigada pela Operação Lava-Jato e que pediu recuperação judicial em abril, reclamando direitos trabalhistas.
— Vamos acionar a Schahin e pôr a Petrobras como corresponsável pelo problema, por afetar trabalhadores de suas contratadas — afirma Silva.
Com menos empregados no setor, a cidade está mais vazia. Na hotelaria, a ocupação média, que era de 80% até dezembro, está em 30% ao mês, diz Marco Aurélio Maia, do Macaé Convention & Visitors Bureau:
— Ao menos oito hotéis fecharam as portas. E outros operam com pavimentos inteiros fechados. Com isso, é preciso dispensar funcionários.
Os restaurantes enfrentam queda de 30% a 40% no movimento. Renato Martins, sócioproprietário de três estabelecimentos — Ilhote Sul, Luca e Seu Adonias Botequim — lamenta a redução do gasto médio:
— O tíquete médio era de R$ 80. Agora está em R$ 50. Demitimos funcionários e renegociamos salários.
A crise também atingiu o mercado imobiliário. Este ano, vendas e aluguéis recuaram 60%, informa Emerson Mendes, delegado do Conselho Regional de Corretores de Imóveis. Segundo ele, os preços baixaram até 40% e novos projetos estão suspensos.
Éuma perfect storm (tempestade perfeita), uma combinação de eventos que isoladamente podem não ser perigosos, mas que, em conjunto, têm efeito desastroso. Essa é a definição de muitos executivos para a crise enfrentada por fornecedores da Petrobras.
Ainda assim, representantes do governo do Estado do Rio e empresários estão otimistas. Para eles, a turbulência abre espaço para reduzir a dependência da economia e dos fornecedores em relação à Petrobras. Karine Fragoso, gerente de Petróleo, Gás e Naval da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), muitas fornecedoras do setor de óleo e gás buscam diversificar a atuação. Ela defende a entrada de outras petroleiras como operadoras na exploração de óleo:
— Uma multiplicidade de operadoras leva a uma diversidade de oportunidades para a cadeia fornecedora. É necessária uma reestruturação que passe pela redução da atuação da Petrobras como operadora única em projetos do pré-sal.
Karine destaca que a indústria de petróleo equivale a 30% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado do Rio e 12% do PIB nacional.
POLÍTICA INDUSTRIAL
O secretário de Desenvolvimento Econômico do Rio, Marco Capute, busca sócios privados que possam entrar em projetos como a conclusão de obras do Comperj:
— Precismos fazer todo um trabalho para retomar os investimentos no Rio. O momento é propício para se abrir mais o mercado para não ficar tão dependente de uma única empresa.
Para Manuel Fernandes, presidente do Comitê de Energia da Câmara de Comércio Americana no Rio, o momento é propício para adotar uma política industrial que permita que o país se torne um importante fornecedor de equipamentos para o setor de petróleo na América Latina: — O momento é de virada. Para o gerente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Paulo Sérgio Galvão, metade das empresas de automação depende de encomendas da estatal e enfrenta problemas de caixa.
Para o presidente do Parque Tecnológico da UFRJ, Maurício Guedes, o cenário é de preocupação. Das 50 empresas instaladas, 13 têm pesquisa voltada para o setor de petróleo:
— O risco é perder todo a capacitação e desenvolvimento tecnológico alcançados até agora. Muitos profissionais, ao terminarem o doutorado, podem ir para o exterior por falta de oportunidades no país.