Dilma irá fundir pastas controladas por PT e criar Ministério da Cidadania
Andrea Jubé, Thiago Resende e Lucas Marchesini
25/09/2015
A presidente Dilma Rousseff embarcou ontem à noite para Nova York, onde participa da 70ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em meio à queda de braço entre alas do PMDB por espaço na reforma ministerial. Dilma foi advertida de que não deveria favorecer a bancada na Câmara dos Deputados, onde enfrenta a ameaça de impeachment, em prejuízo do PMDB orgânico. Dilma também confirmou Miguel Rossetto (PT) no novo Ministério da Cidadania, mas não definiu o titular da pasta resultante da fusão de Trabalho e Previdência Social, que ficará com o PT.
O Valor apurou que o ministro das Comunicações, Ricardo Berzoini, no comando da articulação política, disse a aliados que as mudanças na Esplanada devem ser anunciadas na terça-feira (29) ou quarta-feira (30). Em nota oficial, o Palácio do Planalto atribuiu aos aliados a decisão de adiar o anúncio da reforma. "Alguns dos partidos que integram a base aliada solicitaram o adiamento do anúncio da nova composição ministerial, para que mais consultas possam ser realizadas".
Ontem o líder da bancada do PMDB na Câmara, Leonardo Picciani (RJ), reagiu à notícia de que Dilma havia recuado da decisão de criar o Ministério da Infraestrutura, com a fusão das Secretarias da Aviação Civil e dos Portos. Os deputados haviam indicado dois nomes para a pasta, além do Ministério da Saúde, que também ficará com a bancada.
Bastou Picciani sugerir que retiraria as indicações e revogaria o acordo com o governo para que emissários de Dilma lhe telefonassem assegurando que a bancada seria contemplada com mais dois ministérios.
Mas o esboço que vigorava ontem, que irritou os deputados pemedebistas, previa a continuidade do ministro Eliseu Padilha na Aviação Civil e o remanejamento do ministro da Pesca, Hélder Barbalho, para a Secretaria de Portos. Os deputados alegam que Padilha é da cota pessoal de Michel Temer, enquanto Hélder deve ser considerado um representante do PMDB do Senado, já que é filho do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), um aliado destacado do presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), e do Palácio do Planalto.
Dilma foi alertada de que deve compor com Michel Temer, que é presidente do PMDB e quem deve garantir os votos do partido para barrar o impeachment na Câmara. A cúpula partidária irritou-se porque Dilma abriu um atalho com o PMDB da Câmara, ao negociar diretamente com o líder Leonardo Picciani e o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Dilma foi avisada de que terá de assumir a responsabilidade pelos riscos dessa escolha.
Se ceder a todas as pressões, Dilma teria de reservar sete ministérios para contemplar as diversas alas do PMDB. Os deputados levam o Ministério da Saúde - com o maior orçamento da Esplanada, de cerca de R$ 111 bilhões -, o Ministério do Turismo é mantido com o ex-presidente da Casa Henrique Alves, e a bancada ainda ganha mais uma pasta, ainda indefinida.
Na cota do PMDB do Senado, está confirmada a permanência de Kátia Abreu e Eduardo Braga, respectivamente, nos ministérios da Agricultura e de Minas e Energia. E Hélder Barbalho pode assumir os Portos. O PMDB da Câmara avisou Dilma que a continuidade de Eliseu Padilha na Aviação Civil entra na cota pessoal dela e de Michel Temer.
Em outra ponta, o espaço do PT segue indefinido. Ontem Dilma decidiu reunir três pastas da área social - Direitos Humanos, Política para Mulheres e Igualdade Racial - no novo Ministério da Cidadania, que será confiado ao ministro Miguel Rossetto (PT), da Secretaria-Geral da Presidência.
Mas Dilma ainda não bateu o martelo sobre a eventual fusão dos ministérios do Desenvolvimento Social e Agrário, que ficariam sob a tutela de Patrus Ananias. O problema é que Dilma gosta da ministra Tereza Campello, do MDS, e não quer abrir mão dela no primeiro escalão.
Rossetto é um dos ministros mais próximos a Dilma e foi um de seus coordenadores de campanha. Ele perde o gabinete no Planalto, mas seguirá participando das reuniões do conselho político e representando uma das principais tendências do PT, a Democracia Socialista (DS), que é um braço da Mensagem, na Esplanada. Com isso, Pepe Vargas, hoje ministro de Direitos Humanos, que também pertence à DS e tem mandato de deputado federal pelo PT do Rio Grande do Sul, deve retornar à Câmara, para reforçar a base governista. Dilma comunicou a fusão ontem a Vargas, Eleonora Menicucci (Secretaria de Mulheres) e Nilma Gomes (Igualdade Racial).
Valor econômico, v. 16 , n. 3849, 25/09/2015. Política, p. A10