O globo, n.30.005, 01/10/2015. Opinião, p.19

Poder legal e poder legítimo

A aposta, por força, é no eterno retorno de Lula, mas não há como subestimar a lesão simbólica dos últimos panelaços, que arrebataram ao petismo o suporte da baixa classe média

Ao sugerir a renúncia de Dilma Rousseff, Fernando Henrique Cardoso suscitanos, dentro do atual impasse brasileiro, o contraste entre a legalidade e a legitimidade, diante do nosso regime político. Na cultura democrática, a aceitação, de fato, de um governante marca a força de um consenso, ao lado do imposto pela norma.

Não é o que experimenta o país nesse mal- estar com o Planalto, no começo de um mandato. Abrem- se confrontações imprevisíveis, implicando novos alinhamentos, sobretudo do PMDB, ameaçando o seu controle pelo vice- presidente da República. Reconheceu- o Michel Temer, a proclamar a falta de comando do país, nas oscilações diárias de apoio ao sistema, inclusive frente à inédita e diminuta popularidade de Dilma.

Deparamos o esforço de agregação dos minipartidos à situação, buscando manter os acordos previstos pela campanha eleitoral. E a interrogação, de imediato, vai ao PT e ao vácuo emergente de suas lideranças nos governos estaduais, como suporiam as lógicas naturais de continuidade do partido. A aposta, por força, é no eterno retorno de Lula, mas não há como subestimar a lesão simbólica imposta pelos últimos panelaços, que arrebataram ao petismo o suporte da baixa classe média.

A condenação moralista cresce pelo óbvio das usuras, que atinge todo exercício continuado do poder, inevitável na chegada do petismo ao quarto mandato. A crítica que cerca o regime de Dilma, entretanto, não impacta o dito Brasil “de fora”, no seu acordar da marginalidade radical, na virada de página diante do país do status quo.

E é significativo que as tentativas de revisionismo de alguns dos próhomens da legenda, como Tito Costa ou Hélio Bicudo, não tenham encontrado um lastro nesse

mea culpa chegado ao coração do PT. A saída de Alessandro Molon, profundamente meditada, ainda não fez roldão, no testemunho incisivo do que propôs no congresso de Salvador, por uma ampla revisão do partido, em nova consciência pluralista frente ao esgotamento do modelo proclamado por Dilma.

A legenda presidida por Rui Falcão conserva- se inabalável na sua inércia em continuar no Planalto. E a aposta é a de que, fiel ao seu mito, mantém- se o “povo de Lula”, superado o país dos excluídos. Candido Mendes é membro do Conselho das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações