Correio braziliense, n. 19060, 02/08/2015. Economia, p. 6/7

Um país no atoleiro

‚Äč VICENTE NUNES

 
Desde a posse em 2011, Dilma trouxe de volta a inflação, o medo de desemprego e mergulhou o Brasil na recessão.

A presidente Dilma Rousseff já definiu o lugar dela na história. Ostentará, sob os ombros, o peso de ter destruído, em tão curto espaço de tempo, os pilares que permitiram ao Brasil, depois de duas décadas perdidas, livrar-se da praga da hiperinflação e tornar-se um país mais próximo da normalidade. Desde que tomou posse, em janeiro de 2011, a petista conseguiu trazer a inflação de volta, mergulhar o país na recessão, destruir as contas públicas e assombrar a população com o fantasma do desemprego. Não há, nos tempos recentes do Brasil, um presidente que tenha cometido tantos erros de uma só vez na economia.

Os números ostentados hoje pelo país são assombrosos. As estimativas apontam que o Produto Interno Bruto (PIB), a soma de todas as riquezas produzidas ao longo de um ano, poderá encerrar 2015 com queda superior a 3% — o consenso é de tombo entre 2% e 2,5%. Também para o próximo ano, os prognósticos são de contração da atividade. Com isso, o PIB per capita, a riqueza dividida pela população, fechará 2015 na casa dos US$ 9,2 mil, retornando aos níveis de sete anos atrás, quando o mundo foi devastado pelo estouro da bolha imobiliária dos Estados Unidos. Numa conta simples, durante a era Dilma, cada brasileiro teve a renda reduzida em US$ 2,1 mil.

A presidente conseguiu a proeza de jogar pelos ares o maior dos ganhos dos governos petistas: a redução da desigualdade social. Com a inflação beirando os 10% ao ano e as demissões se acelerando, a renda dos trabalhadores foi devastada. Não à toa, o consumo das famílias, que, em anos anteriores, foi o grande impulsionador da economia, vai encolher pela primeira vez em mais de uma década e ser o principal responsável por jogar o Brasil no fundo do atoleiro.

Pedaladas
Os estragos produzidos por Dilma são muitos e poderão ser conferidos nas edições de hoje e de amanhã do Correio. A petista não brincou em serviço, sobretudo na área fiscal, na qual usou e abusou de pedaladas e maquiagens. O país registrou, neste ano, o primeiro semestre com rombo nas contas públicas, de R$ 1,6 bilhão, desde que passou a fazer ajuste fiscal. Esse resultado pode acelerar a decisão da agência de classificação de risco, Standard & Poor’s (S&P) de tirar do Brasil o selo de bom pagador que ela mesma concedeu em 2008, quando o país dava claras demonstrações de responsabilidade fiscal.

A presidente não se furtou, ainda, de destruir, ao mesmo tempo, a capacidade de geração de caixa da Petrobras — ao manter uma política irresponsável de preços irreais para os combustíveis —, o setor de etanol e as concessionárias de energia, vítimas do populismo tarifário. Dilma acreditou que essas políticas intervencionistas segurariam a inflação por tempo indeterminado, uma vez que o Tesouro Nacional seria capaz de bancar pesados subsídios aos consumidores. Como a realidade se impôs, a petista foi obrigada a promover um tarifaço que destruiu o poder de compra das famílias.

Piora
Os analistas são céticos quanto à capacidade de reversão da economia até pelo menos 2017. No entender deles, a situação ainda vai piorar muito antes de melhorar. As famílias, que estão superendividadas, vão se deparar com o desemprego e ser obrigadas a recorrerem ao calote. Nesse quadro, o consumo vai diminuir e as empresas, que já andam desconfiadas, adiarão os necessários investimentos produtivos que dariam um forte alívio ao PIB. Estima-se que, somente este ano, pelo menos R$ 100 bilhões deixarão de ser aplicados na ampliação de fábricas e na geração de empregos.

O desânimo fica maior porque se acreditava que, com a chegada de Joaquim Levy ao Ministério da Fazenda, a confiança voltaria com tudo e a economia, já neste segundo semestre, deslancharia. O que se vê, porém, é um ministro cada vez mais fraco, incapaz de pôr as finanças do governo em ordem e solapado por uma crise política que pode custar o mandato de Dilma.

O Brasil vive o pior momento em pelo menos 25 anos, quando Fernando Collor de Mello assumiu com a promessa de revolucionar o país. Foi um desastre e, em menos de dois anos, foi defenestrado do poder. Infelizmente, quando se olha para a frente, nada indica que estamos próximos de sair do fundo do poço. O buraco cavado por Dilma foi fundo demais.
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Desemprego e informalidade

SIMONE KAFRUNI


O governo Dilma Rousseff conseguiu destruir a principal bandeira do Partido dos Trabalhadores: o emprego. Há menos de um ano, o Brasil ostentava índices de desocupação pouco acima de 4%. Agora, encosta nos 7% e não será surpresa se, nas seis principais regiões metropolitanas do país, cravar os 10%, nível inconcebível para uma economia ainda tão desigual. Em meio à onda de demissões, e com a inflação acima de 9%, a renda desabou. 

Dados do próprio governo mostram que 2015 começou com o fechamento em massa de vagas formais. Mantido o atual nível de cortes de postos na indústria, no comércio e no setor de serviços, pelo menos 1 milhão de pessoas chegarão ao fim deste ano com o carimbo da demissão na carteira de trabalho. O resultado disso será o aumento da desigualdade social. Muitos desses trabalhadores voltarão para a informalidade. 

Para o vice-presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Júlio Miragaya, o avanço social conquistado na década passada, quando o total de empregos formais quase dobrou, está ameaçado pela retração econômica, provocada, sobretudo, pela política monetária. A taxa de juros está subindo desde março de 2013, com evidentes reflexos negativos sobre o mercado de trabalho, explica. A culpa, porém, é do governo, que brincou com a inflação, acreditando que um pouco mais de carestia ajudaria o crescimento. Só colheu recessão e o Banco Central está sendo obrigado a correr atrás do prejuízo ao elevar os juros para 14,25% ao ano. 

Desde o ápice alcançado em 2010, com a geração de 2,63 milhões de empregos, o saldo na geração de vagas no Brasil vem despencando. Caiu para 2 milhões em 2011, pouco mais de 1 milhão em 2012 e 2013 e cerca de 400 mil em 2014. O mais grave é que o saldo foi negativo no primeiro semestre de 2015 (345 mil postos fechados), com previsão de desempenho ainda pior no segundo semestre. O ano de 2015 deve fechar com perda superior a 1 milhão de empregos, estima Miragaya. 

Sem seguro 
O estrago provocado por Dilma na economia pegou em cheio Juliano Gomes, 24 anos, que foi demitido no fim do ano passado de uma imobiliária e ainda não conseguiu se recolocar no mercado. Estava no seguro-desemprego até abril, mas acabou. Estou procurando emprego desde dezembro, mas não consegui nada. Para sobreviver, ele faz bicos de ajudante de obra e pintura. 

Se o emprego formal e os salários estão em queda, a saída é buscar ocupação ou renda extra na informalidade. Foi o que fizeram Fabiane Aline da Silva, 30 anos, e Gérson Antônio Gino, 42. Fabiane diz que já perdeu a conta de quantos currículos enviou nos últimos quatro meses. Não tive nenhuma resposta. Mas não dá para ficar parada. Estou vendendo bonecos nos sinais de trânsito e conseguindo até R$ 1,3 mil por mês. 

Gérson cumpriu o aviso prévio no trabalho de vigilante no mês passado. Ainda não recebeu a rescisão e teve que se virar, vende película de unhas sete dias por semana e garante até R$ 3 mil por mês para o sustento da família. 
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Endividada, família reduz o consumo


ADOLFO COSTA

ALESSANDRA AZEVEDO
 


A decisão do governo de estimular o consumo como mola propulsora do crescimento do país resultou em um custo altíssimo para as famílias: o elevado endividamento. Após anos de bonança, de compra do carro, da casa própria, de móveis e eletrodomésticos, a população encontra-se diante do pior momento para gastos em pelo menos 10 anos. Quase 62% das famílias têm algum tipo de dívida e 46,3% da renda estão comprometidos com débitos. 

O pior, dizem os especialistas, é que o quadro tende a se agravar nos próximos meses. A inflação continuará subindo e corroendo o orçamento das famílias; e a deterioração do mercado de trabalho gerará mais desemprego e recuo da renda média, provocando inadimplência. Nesse cenário, o consumo das famílias que representa cerca de 60% do cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) pela ótica da demanda deve registrar a primeira queda desde 2003. 

Com pelo menos cinco empréstimos acumulados e morando em uma nova casa desde junho, a trabalhadora doméstica Maria Aparecida Lucas, 52 anos, até hoje não conseguiu comprar nem os móveis mais básicos, 
como sofá. É muito ruim não poder receber visitas, porque elas não têm nem onde se sentar. Se pudesse, até faria outro empréstimo para mobiliar a minha casa, admite. O problema é que o banco não liberará recursos porque ela não tem como pagar. Estou endividada demais. No mês passado, até a conta de telefone eu negociei: dividi em seis prestações porque não sobrou dinheiro, lamenta. 

Eliminar as dívidas transformou-se em uma meta pessoal para o servidor público Valdair Mason, 58, que há pouco mais de um ano acumulou sete empréstimos de uma vez. Cheguei a ficar com 70% da renda comprometida. Fazia empréstimo para pagar outro, recorda. Estava trabalhando para dar dinheiro ao banco. Agora, faço planilhas de gastos para controlar o consumo, diz. 

O problema, diz o consultor Roberto Luiz Troster,  é que as pessoas se embriagaram de crédito estimuladas pelo governo. Agora, com as taxas de juros nas alturas, estão se dando conta de que exageraram no consumo e no endividamento, afirma. Para não estragar de vez o orçamento doméstico, o jeito será comprar apenas o básico, até que a economia volte a dar sinais de recuperação. Será preciso muito paciência, recomenda.