Título: Sem acordo com Kadafi
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 29/08/2011, Mundo, p. 15
Conselho Nacional de Transição rejeita qualquer diálogo com o ditador. Rebeldes se aproximam de cidade-chave
O Conselho Nacional de Transição (CNT), movimento que liderou a tomada de poder na Líbia, voltou ontem a descartar qualquer possibilidade de acordo com Muamar Kadafi. Em telefonema a uma agência de notícias, o porta-voz do regime líbio, Mussa Ibrahim, afirmou que está pronto para negociar uma transição rumo à democracia no país e prometeu inclusive debater a transferência de poder para os rebeldes. Ibrahim disse que Saadi, um dos filhos de Kadafi, comandaria as negociações com o CNT e garantiu que o ditador e sua família ainda se encontram em território líbio ¿ apesar de especulações sobre uma possível fuga para o Zimbábue. "Não há espaço algum para um acordo. Kadafi não tem nada que possa nos dar. Ele perdeu tudo e não entendemos o que eles querem dizer com "transferência de poder". Ele não tem nenhum poder que possa transferir. Kadafi está numa posição muito fraca. Perdeu, está escondido e a única solução para ele é se entregar", comentou, por telefone, ao Correio o líbio Guma El-Gamaty, porta-voz e coordenador do CNT no Reino Unido. "Não existe nada para negociar."
O chanceler britânico, William Hague, assumiu o mesmo tom e desqualificou a oferta de Ibrahim. O ministro assegurou que o CNT estava no comando do país e que Kadafi deveria exortar seus simpatizantes a baixarem as armas. Para o libanês Nadim Shehadi, analista do Instituto Real de Assuntos Internacionais da Chattam House (em Londres), o CNT tem toda a razão. "Kadafi está tentando ganhar tempo e manter o poder", disse à reportagem, por meio da internet. "Mas seu regime acabou. Já bastam 42 anos, não é?", questiona. O paradeiro do ditador continuava um mistério, até as 22h de ontem (pelo horário de Brasília). Alguns integrantes da oposição líbia creem que ele tenha fugido para o Zimbábue a bordo de um jato fornecido pelo presidente Robert Mugabe, na semana passada. Um blecaute ocorrido na capital, Harare, teria fortalecido a tese ¿ muitos apostam que o apagão teria sido intencional, para conferir o máximo de discrição à "chegada" de Muamar Kadafi.
George Charamba, porta-voz oficial do governo zimbabuano, declarou que o país não recebeu qualquer pedido de asilo da Líbia e desmentiu ter recebido o ditador. "A verdade é que tudo é possível, mas isso me parece irrelevante. Kadafi poderia estar na Argélia, na Venezuela, no Irã, na Coreia do Norte e no Brasil", brinca Shehadi. "O que importa é que a era Kadafi acabou." No sábado, um outro rumor dava conta de que um comboio de veículos blindados foi visto atravessando a fronteira com a Argélia. Mas o governo argelino negou categoricamente a informação e considerou-a sem qualquer fundamento.
Combates No front, os rebeldes se aproximavam ontem de Sirte, terra natal de Kadafi e importante bastião de seus assessores e simpatizantes. Segundo a agência France-Presse, os insurgentes avançam em duas frentes, e estão a 30km a oeste da cidade e a 100km a leste. Eles também comemoram a conquista de Bin Jawad, a 140km de Sirte. "Estamos negociando com as tribos da região para que a cidade se renda pacificamente", afirmou Ahmed Omar Bani, porta-voz militar dos rebeldes. Ao mesmo tempo, Bani anunciou a libertação de 10 mil prisioneiros do antigo regime. "Acreditamos que entre 57 mil e 60 mil pessoas foram detidas nos últimos meses. Entre 10 mil e 11 mil foram libertados. Onde estão os demais?", perguntou. De acordo com ele, valas comuns vêm sendo descobertas perto dos centros de detenção e da penitenciária de Abu Salim, em Trípoli.
Tiroteios ainda eram travados ontem pelo domínio de Ragdalin, cidade situada na região oeste da Líbia e a 60km da fronteira com a Tunísia. Os rebeldes foram surpreendidos por moradores, que dispararam depois de permitir a entrada pacífica da coluna. "Éramos uns 50, entramos pacificamente, mas haviam planejado uma armadilha. Usaram metralhadoras e lança-foguetes", disse o guerrilheiro Nabil Bukra, à agência AFP.
Crise entre a Síria e a Liga Árabe Uma crise surgiu ontem entre a Síria e a Liga Árabe, que pediu que esse país "siga o caminho da razão antes que seja tarde demais". Enquanto isso, o governo de Bashar Al-Assad manteve a repressão: suas tropas mataram três pessoas e feriram nove, no noroeste do país. O presidente promulgou uma nova lei de imprensa, em meio às reformas anunciadas para diminuir os protestos contra seu regime. O comunicado da Liga Árabe significa "uma violação (...) clara dos princípios da Carta da Liga e de seus fundamentos na ação árabe conjunta", afirmou o regime de Damasco, em nota enviada ao secretário-geral da organização. A Liga Árabe manteve, no sábado à noite, uma reunião extraordinária sobre a Síria e a Líbia. Durante o encontro, os chanceleres que participaram do encontro pediram a Al-Assad "para colocar fim ao derramamento de sangue".
Instantes de sonhos no aeroporto O domingo foi de descontração e de sonhos para os rebeldes que tomaram o Aeroporto Internacional de Trípoli. Como os combates no local tinham cessado, eles aproveitaram para se divertir dentro do luxuoso avião particular de Muamar Kadafi. Subiram a escadaria da aeronave, pisando o tapete vermelho usado para autoridades. Deixaram-se posar para fotos do lado de fora do jato, dentro do luxuoso quarto com sofá e cama grandes e na sala de estar, onde lê-se na parede, em árabe: "Seja grato e lhe será dado mais".