Título: Roriz desiste de Luziânia
Autor: Tahan, Lilian
Fonte: Correio Braziliense, 21/09/2011, Cidades, p. 22

Ex-governador anuncia que não vai mais concorrer à prefeitura da cidade goiana. O motivo alegado é que ele teria chance de vencer o pleito no Distrito Federal, em 2014. Mas a candidatura ainda depende do entendimento do Supremo Tribunal Federal sobre a Lei da Ficha Limpa

O ex-governador Joaquim Roriz (PSC) declinou da ideia de transferir seu título eleitoral para Luziânia, em Goiás, onde havia anunciado pretensão de concorrer às eleições para prefeito no ano que vem. Com a decisão, Roriz adia seus planos de retornar ao cenário político. Desde que foi considerado ficha suja pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), se recolheu. Ensaiou a reaparição para as eleições municipais, mas ontem disse que essa hipótese está descartada. Ele atribuiu a decisão ao resultado de pesquisa em que teria chances de vitória em 2014 e negou que a saída de cena tenha sido motivada por questões de saúde.

Em entrevista ao Correio (leia mais trechos abaixo), o ex-governador disse que vai concorrer às próximas eleições no Distrito Federal e atribuiu a desistência de competir em Goiás a uma decisão política tomada com a ajuda de uma equipe de assessores. "Desisti de Luziânia para me preparar, disputar e ganhar a eleição em 2014, aqui em Brasília", alegou Roriz, que respondeu às questões por e-mail. Ele rebateu a hipótese de que tenha anunciado o desejo de concorrer em Goiás apenas para testar sua popularidade depois de ter sofrido um afastamento em consequência da Lei da Ficha Limpa. "Não faço política desse jeito. A possibilidade de ser candidato em Luziânia surgiu a partir de um movimento da comunidade, de lideranças locais e do estado de Goiás, que me procuraram para saber de minha disposição."

Desejo espontâneo na versão de Roriz e balão de ensaio para os adversários do ex-governador, o fato é que a hipótese gerou uma expectativa política sobre o retorno dele e dividiu o discurso do grupo que o apoia. Uma parte da família e dos assessores defendia que as eleições em Goiás seriam uma forma de estimulá-lo a se manter na política, atividade da preferência de Roriz. A outra considerava a atitude um desgaste desnecessário, tanto do ponto de vista do investimento em campanha, quanto de saúde. Roriz tem feito diálise quase todos os dias da semana em uma clínica na Asa Sul.

Disposição Favoráveis ou não, o discurso torna-se uníssono quando o assunto é participar das eleições em 2014. O próprio Roriz afirma disposição para retornar ao front eleitoral. Mesmo que desista até lá ou que seja impedido pela Justiça, é importante para os aliados manter a expectativa de que ele ainda lidera o grupo que por anos comandou na condição de governador. Com a performance de dona Weslian em 2010 ¿ que mesmo sem nenhuma tradição na política reuniu pouco mais de um terço dos votos no DF ¿, Roriz demonstrou que tem um espólio valioso. Por isso, independentemente de sua situação pessoal, o grupo acha que ele ainda tem chances de influenciar no processo eleitoral.

Do ponto de vista pessoal, para voltar a ser ele próprio o candidato, Roriz terá antes de conhecer o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre os meandros da Lei da Ficha Limpa. O TSE considerou que o ex-governador do DF e então candidato ao mesmo cargo em 2010 estava enquadrado na legislação quando renunciou ao cargo de senador para escapar de processo de cassação. Em 2007, Roriz se envolveu no escândalo da bezerra de ouro. Foi flagrado em escutas da Operação Aquarela negociando a divisão de um cheque no valor de R$ 2,2 milhões com o empresário Nenê Constantino.

No ano passado, o Supremo considerou que a Lei da Ficha Limpa não poderia ser aplicada nas eleições de 2010. Mas outras questões ¿ como a dúvida se as regras valem para atitudes anteriores à existência da lei ¿ ainda precisam ser esclarecidas pelo Supremo. Até lá, a tendência no grupo Roriz é mostrar que ele está mais decidido do que nunca a voltar a competir pelo comando do DF. "Me animei em ficar (no DF) depois de uma pesquisa na qual em todos os cenários, sou o vitorioso. Derroto todos os adversários, inclusive o atual governador", desafiou Roriz, do alto de seus 75 anos e com o histórico de quatro governos no currículo.

Investigação Realizada em 14 de junho de 2007, a Operação Aquarela foi uma ação conjunta do Núcleo de Combate às Organizações Criminosas (Ncoc) do Ministério Público do DF e Territórios e da Divisão de Combate ao Crime Organizado (Deco) da Polícia Civil do DF. O objetivo era apurar suspeitas de envolvimento do ex-presidente do Banco de Brasília (BRB) Tarcísio Franklim de Moura em suposto esquema de desvios de recursos de contratos firmados com a Associação Brasileira de Bancos Estaduais (Asbace) e suspeita de lavagem de dinheiro por meio de cartões corporativos do Banco do Brasil.