Dengue já matou 19 este ano no estado

 

ANTÔNIO WERNECK

O globo, n. 30033, 29//10/2015. Rio, p. 10

 

Dezenove pessoas já morreram no Estado do Rio este ano vítimas da dengue. Em todo o ano passado, foram dez mortes. Até este mês, houve 56.568 casos suspeitos, nove vezes mais que em 2014. Os números preocupam às vésperas de um verão com previsão de falta de água e luz mais cara. Dezenove pessoas já morreram este ano vítimas de dengue no estado, o que representa quase o dobro do número registrado em todo o ano passado. A maior parte dos óbitos ocorreu em municípios da Região do Médio Paraíba: Resende (sete), Porto Real (dois), Volta Redonda, Barra Mansa, Itatiaia, Piraí e Quatis (um cada). Os outros aconteceram em Campos (dois), Paraty (dois) e Miracema (um). Os dados da Superintendência de Vigilância Epidemiológica da secretaria estadual de Saúde mostram ainda que, entre janeiro e outubro deste ano, as notificações de casos suspeitos de dengue somam 56.568, nove vezes mais do que as do mesmo período de 2014 (6.967 casos).

Fonte: Secretaria estadual de Saúde
Editoria de Arte

A secretaria estadual de Saúde acredita que o início do período de chuvas e a previsão de altas temperaturas para o verão podem favorecer a proliferação dos mosquitos transmissores da dengue na Região Metropolitana do Rio.

— Altas temperaturas e chuvas são fatores de risco. Mas não há previsão de uma epidemia de dengue em 2016 no estado. Alguns municípios preocupam mais, como os do Norte e Noroeste Fluminense, mas, o Rio, não. Aqui a situação está sob controle até agora — afirmou Alexandre Chieppe, subsecretário de Vigilância em Saúde do estado.

No ano passado, segundo a secretaria estadual de Saúde, as mortes por dengue aconteceram nos municípios de Campos (quatro), Rio (dois), Petrópolis (um), São Gonçalo (um), São José do Vale do Rio Preto (um), e Vassouras (um).

Chieppe lembrou que a secretaria monitora larvas e criadouros de Aedes aegypti, o mosquito transmissor da dengue, da febre chicungunha e do zika vírus.

— A gente monitora a dengue e o Aedes. É nossa maior preocupação — disse Chieppe.

Um dos maiores especialistas em dengue do estado, com vários livros publicados sobre o assunto, o professor Fernando Portela Câmara, chefe do Setor de Epidemiologia de Doenças Transmissíveis da UFRJ, concorda que o estado está entrando num período crítico. Um momento que favorece a proliferação dos mosquitos. Ele lembrou que o fator climático este ano deve ser considerado pela Vigilância Epidemiológica.

— Nos nossos estudos publicados, analisamos milhares de casos nos últimos anos. Já existe um consenso de que quando o verão é quente, e com poucas chuvas, temos mais dengue no Rio. E o verão que se aproxima pode ser exatamente assim: altas temperaturas e muito seco — afirmou Fernando Portela.

O professor lembrou que o Aedes aegypti é um mosquito doméstico, que gosta muito de sombra e água limpa.

— Para proliferar, ele precisa de água limpa e calor. Ele se cria no quintal, na casa das pessoas. Mas eu não quero com isso culpar a população. A culpa é de um mosquito que está muito bem adaptado às condições climáticas do Rio — disse Portela.

EPIDEMIAS COM POUCA CHUVA

Segundo explicou o especialista da UFRJ, um estudo publicado por ele e seus colegas acadêmicos, em 2009, levando em conta fatores climáticos, revelou que o Rio teve aumento dos casos de dengue quando as temperaturas mínimas foram mais altas.

— As temperaturas dos primeiros trimestres do período de 1986-2003, especialmente as mínimas, mostraram-se significativamente mais altas nos anos em que as epidemias de dengue tiveram início na cidade do Rio. Epidemias foram mais frequentes nos anos em que o volume de chuvas no verão foi pequeno, abaixo de 200mm em média no período — garantiu o professor.

A secretaria estadual de Saúde lembrou que, com relação à chicungunha, foram confirmados três casos no Rio. Todas as notificações da doença foram de pessoas com registro de viagem recente para países ou estados (no caso da Bahia) onde ocorre a transmissão. Até o momento, garantiu Chieppe, não há evidências de circulação do vírus no Rio.

A febre chicungunha é parecida com a dengue, causada pelo vírus CHIKV. A pessoa infectada apresenta febre, mal-estar, dores pelo corpo, dor de cabeça, apatia e cansaço. A grande diferença para a dengue está nas articulações: o vírus avança nas juntas dos pacientes e causa inflamações com fortes dores acompanhadas de inchaço, vermelhidão e calor local. Já no caso do zika vírus, doença de baixa letalidade, a secretaria não cobra notificação, seguindo orientação do Ministério da Saúde. Portanto, os casos não são contabilizados.