Título: A Líbia após a derrubada de Kadafi
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 24/08/2011, Opinião, p. 14
É impossível desvendar de forma exata os horizontes que se abrirão à Líbia após a derrubada do ditador Muamar Kadafi. A missão do Conselho Nacional de Transição, constituído como governo transitório, é a de construir instituições políticas que possam expressar as aspirações democráticas da insurreição iniciada em 15 de fevereiro. Sabe-se que há correntes conflitantes entre os grupos insurrectos, daí o desafio de conciliá-las para fundar poder único e estável.
Mas não fica apenas aí a complexidade do arranjo político pacificador. A população do país é composta por grande maioria sunita e pequena minoria ibadita. Em ambos os lados, contudo, militam fundamentalistas, que permaneceram quietos ante o punho truculento de Kadafi. Agora, há dúvidas sobre se não arrastarão a partilha do poder ao fogo de resistências temerárias.
O panorama se torna mais crítico quando se sabe que inexistem na Líbia organizações civis, como partidos políticos, sindicatos, frentes sociais e outras do gênero. Não há, portanto, interlocutores aos quais se possa confiar, sem receio, a mudança pacífica para o pluralismo democrático. Além de tudo, Kadafi, inexcedível cultor da personalidade e repressor furioso, não permitiu que, no país, cintilasse outra liderança.
Trata-se de complicador que coloca em cena o risco de vácuo do poder. Sociedade organizada em tribos, os líderes tribais reassumiriam, ante eventual fragilidade da autoridade central, as regiões que dominavam antes do regime tirânico de Kadafi. Seria rebelião equivalente a acender o pavio para a deflagração de guerra civil.
Todavia, reconhecido como o poder legítimo da Líbia pelas principais potências ocidentais, à frente Estados Unidos, França, Alemanha, Itália e Reino Unido, o Conselho Nacional de Transição conta com vigoroso apoio externo. Mas precisa de mais intensa cooperação internacional de tais países e da ONU, para abortar a conspiração de fatores adversos que tem pela frente. Não terá de nada valido a ofensiva aérea da Otan para abrir caminho ao êxito da rebelião se a Líbia se converter em novo Iraque.
A lamentar que a visão oblíqua da diplomacia brasileira, inspirada em ideologia caduca, tenha levado o país a não reconhecer, desde logo, o Conselho Nacional de Transição. Pior, não reconheceu e explicou que precisava consultar a China, a Índia, a África do Sul e a Rússia para saber que decisão adotar. Em suma, submeteu-se ao escrutínio de outros países para praticar ato inserto nos atributos da soberania nacional. Expôs-se, acrescente-se, à censura da consciência democrática das nações civilizadas.