Especialistas já projetam para 2016 superávit de até US$ 50 bi

Arícia Martins, Marta Watanabe, Camilla Veras Mota e Tainara Machado 

23/12/2015

Considerado um dos poucos fatores positivos no cenário econômico do ano que vem, o superávit da balança comercial brasileira deve praticamente ter forte expansão em 2016 na comparação com este ano, avaliam economistas. O desempenho em grande parte ainda será influenciado pela redução das importações. Segundo a estimativa média de 23 instituições financeiras e consultorias ouvidas pelo Valor, o saldo positivo das trocas de bens com o exterior será de US$ 33,4 bilhões no próximo ano, bem acima dos US$ 16,6 bilhões registrados de janeiro até a terceira semana de dezembro de 2015. Se confirmado, esse será o melhor resultado para o indicador desde 2007. A projeção mais pessimista aponta saldo positivo de US$ 25 bilhões para a balança comercial e, do lado mais otimista, há quem estime superávit de US$ 50 bilhões.

José Augusto de Castro, presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), estima que a balança comercial será superavitária em US$ 29,2 bilhões no próximo ano. As importações, diz Castro, devem alcançar US$ 158,2 bilhões no período, com queda de 9,5% contra o projetado para este ano. Já as exportações devem somar US$ 187,4 bilhões, o que representa recuo de 1% em relação a 2015.

De acordo com o presidente da AEB, a substituição de importações por conta do real desvalorizado pesará na diminuição das compras externas, que deve ocorrer em todas as categorias de uso, mas o que vai fazer maior diferença é a retração da economia. Em suas estimativas, os desembarques de matérias-primas e bens intermediários vão cair 7,9% sobre este ano. Bens de capital terão queda de 11,8% e bens de consumo, 7,8%.

Do lado das exportações, a redução dos preços deve ser a principal influência na contração de 5,5% prevista para os embarques de produtos básicos, afirma Castro, mas a boa notícia é que o câmbio irá propiciar elevação no volume embarcado de bens manufaturados. Nas projeções da AEB, a exportação de industrializados irá crescer 3,1% em 2016, puxada principalmente pela alta de 5% no embarque de manufaturados. Os semimanufaturados, segundo estimativa, irão cair 2%.

Próximo do topo das previsões para o superávit da balança no próximo ano, o economista Igor Velecico, do Bradesco, trabalha com resultado positivo de US$ 44,3 bilhões para o indicador, mas pondera que os números mais expressivos devem ser avaliados com cautela, justamente pela tendência mais forte de retração das importações do que de avanço das exportações. "Vamos ter boa notícia quando as exportações de manufaturados voltarem a crescer."

Depois de encolherem 25,5% em 2015, as importações devem recuar outros 8,9% em 2016 no cenário do Bradesco, somando US$ 156,5 bilhões. "Uma queda brutal nas importações dificulta o aumento da formação bruta de capital fixo e as chances de recuperação da economia", observa Velecico. As exportações, por outro lado, devem voltar a subir, com alta de 6,5%, chegando a US$ 200,9 bilhões, após diminuírem 15,9% em 2015.

A taxa de câmbio deve encerrar 2016 em R$ 4,40, o que ajudará as exportações a voltarem à trajetória positiva, afirma Mauricio Nakahodo, do Banco de Tokyo-Mitsubishi UFJ Brasil. A moeda brasileira mais depreciada, diz, eleva a rentabilidade das vendas ao exterior e compensa, em parte, a redução nas cotações de commodities.

Há, ainda, a perspectiva de que a mudança de política econômica na Argentina com o novo presidente, Mauricio Macri, provoque uma melhora no fluxo comercial com o país vizinho, importante comprador de bens manufaturados brasileiros, aponta Nakahodo. O economista estima em US$ 25 bilhões o superávit da balança no próximo ano.

Castro, da AEB, pondera que, com a maxidesvalorização cambial do peso argentino, o país ficará mais competitivo na exportação de itens com os quais concorre com o Brasil, como soja, milho, girassol e carnes. Num prazo maior, porém, o parceiro comercial terá um maior volume de divisas em dólar, o que possibilitará elevação das importações de produtos manufaturados brasileiros a partir de 2017.

Para Alessandra Ribeiro, da Tendências Consultoria, as exportações devem fechar o ano com alta de 9,8%, principalmente por causa do volume, o que deve ajudar em maior grau a indústria. "Os preços ainda estão atrapalhando, mas já estamos observando aumento das quantidades vendidas ao exterior", afirma ela, que projeta saldo de R$ 31,4 bilhões da balança no ano. "Claro que temos também retração de importações, mas o setor externo deve evitar um número ainda pior do PIB e ainda contribuir para ajustar o déficit em conta corrente", diz ela.

Nas contas do Banco Central, que considera queda de 8,6% das importações e estabilidade das exportações, a balança comercial vai ser um dos fatores a contribuir para que o déficit em conta corrente caia quase dois pontos percentuais em dois anos, de 4,3% do PIB em 2014 para 2,7% do PIB em 2015. "Esse é um dos ajustes macroeconômicos que está acontecendo mais rapidamente. É uma fragilidade a menos", comenta Alessandra, da Tendências.

Valor econômico, v. 16 , n. 3910, 23/12/2015. Brasil, p. A3