Correio braziliense, n. 19137, 18/10/2015. Economia, p. 12

Rebaixamento de nota destrói valor no país

Na iminência de perder o grau de investimento por mais uma agência de classificação de risco, o Brasil vive o fim de uma era em que se sentiu mais próximo do Primeiro Mundo. "A vida com dinheiro fácil acabou", vaticina Ivo Chermont, economista-chefe da Itaim Asset Management.


Em abril de 2008, já depois do estopim da crise global, a agência Standard & Poor's concedeu o tão esperado selo de bom pagador para o risco soberano do governo brasileiro. No mês seguinte, foi a vez da Fitch conceder o grau de investimento ao país. A reação dos mercados foi eufórica. O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) atingiu o seu ápice naquele mês, com 73.516, um patamar que nunca mais voltou a atingir. A Fitch Ratings demorou um pouco mais: só em setembro de 2009 colocou o Brasil no patamar dos países mais desenvolvidos.

"O custo de investir no Brasil despencou, o que viabilizou vários projetos e o acúmulo de US$ 373 bilhões de reservas internacionais. Agora, tudo isso está se revertendo", explica Marcos Molica, sócio da Rosenberg Investimentos.
Se o país tem o selo de bom pagador, é menor o risco para quem lhe empresta dinheiro. Assim, os credores aceitam pagar juros mais baixos. Isso vale para os papéis do governo, no caso do risco soberano, mas também para as empresas, estejam elas ou não no grau de investimento. O valor de mercado das empresas listadas na BM&FBovespa passou de US$ 722 bilhões em dezembro de 2006 para US$ 1,54 trilhão em dezembro de 2010, quando atingiu o auge - no mês passado, havia recuado para US$ 550 bilhões.

Fundos institucionais dos Estados Unidos têm obrigação estatutária de colocar recursos em empresas ou países com o selo por não menos do que duas agências de classificação de risco, o que explica a entrada massiva de recursos desde então.
A vantagem, porém, não se limitou à entrada de recursos para comprar títulos públicos e privados, ou mesmo ações. Cresceu muito a visibilidade do Brasil no mercado internacional. "O grau de investimento é importante para o branding do país", diz Carlos Braga, professor de economia política internacional do IMD, escola suíça de negócios.
Em outubro de 2009, o Rio de Janeiro foi anunciado como sede das Olimpíadas de 2016 - já se sabia que a Copa do Mundo seria no Brasil desde 2007. E, em novembro, a revista The Economist, a mais importante publicação do mundo com foco em finanças e negócios, publicou a célebre capa em que transformava o Cristo Redentor em foguete, sob o título "O Brasil decola".

Captação de recursos
Graças a isso, muitas empresas conseguiram se financiar, entrando no mercado de capitais por meio de ofertas públicas iniciais de ações ou recorrendo ao mercado financeiro com juros mais baixos.

"O grau de investimento só não é considerado importante por quem não tem noção de como funciona a economia, o que inclui a presidente Dilma Rousseff e seu antecessor", diz o economista José Matias-Pereira, professor de finanças públicas da Universidade de Brasília (UnB).

Chermont, da Itaim, lembra que o selo de bom pagador não pode ser considerado o marco inicial da bonança que o país experimentou na década passada. "Foi mais uma consequência de um processo que já estava em curso com o boom das commodities e o juro perto de zero no mundo", nota.

Ele explica que o governo tomou decisões corretas, mas o país também foi beneficiado pelo ambiente internacional favorável, sobretudo pela demanda chinesa de grãos e minérios. "Se alguém é um estilista, trabalha duro, faz roupas bacanas, e encontra um milionário que se interessa muito por elas, é difícil saber se a razão do sucesso está mais no seu talento ou na sorte de encontrar um bom comprador", diz Chermont.


O problema foi a história que se seguiu. "A estabilidade econômica e a prosperidade do país trouxeram a ascensão de várias pessoas à classe média. Mas faltou o movimento mais saudável de promover maior abertura econômica. Foi um algo calcado em consumo e crédito, o que não é sustentável", diz Renato Nobile, presidente da gestora de recursos Bullmark.

Em vez de contentar-se com ascensão ao grupo de bons pagadores, o país deveria ter buscado galgar vários degraus para cima. "Isso exigiria abrir a economia para o mundo e tomar outras medidas que a fortalecessem", diz Nobile.

O que se viu, porém, foi o contrário: o governo intensificou medidas de intervenção na economia - sobretudo porque, graças ao sucesso inicial delas, o país atravessou o início da crise global sem sofrer consequências graves, e foi elogiado por isso. "Num primeiro momento, era razoável fazer políticas anticíclicas, mas isso continuou de 2010 em diante, o que não deveria ter acontecido", aponta Chermont.

Os juros foram baixados artificialmente até perto de 2% em termos reais, enquanto tarifas públicas foram contidas para segurar a inflação. Neste ano, quando a energia e os combustíveis subiram, a inflação foi para as alturas: aproxima-se dos dois dígitos ao ano.

Fartos empréstimos subsidiados concedidos por bancos públicos não tiveram o esperado efeito de elevar o nível agregado de investimento na economia. E aumentaram a dívida pública, a principal razão apontada para o rebaixamento do país pelas agências de classificação de risco.


O dólar mais do que dobrou de valor em relação ao real neste ano, fazendo com que a crise se espraie por várias cadeias produtivas. "As empresas estão derretendo como sorvete sob o sol quente", critica Matias-Pereira, da UnB.

Para Chermont, da Itaim, é necessário que o governo e o Congresso entendam o alerta das agências de classificação de risco e façam o Orçamento voltar para o azul, revertendo o crescimento da dívida. "Se isso não ocorrer, as coisas podem piorar muito. Não existe teto para a inflação, o dólar e o desemprego, nem piso para a recessão", alerta.

Analistas explicam que recuperar o grau de investimento tende a demorar até uma década. E, mesmo assim, só vai acontecer a partir do momento em que o país entrar num processo de recuperação, o que, ressaltam, ainda se vislumbra a curto ou médio prazo.

O Brasil perdeu o selo de bom pagador da Standard & Poor's em setembro. Foi rebaixado pela Moody's em agosto e pela Fitch na semana passada, mas em ambas ainda se mantém acima do grau especulativo. O país tende a ser novamente rebaixado, porém, segundo avaliações de mercado, nos próximos seis meses, a menos que o governo demonstre capacidade de resolver os impasses fiscais.