Manter carro fica cada dia mais caro
Rodolfo Costa
23/10/2015
Manter um carro pesa cada vez mais no bolso do consumidor. Não bastasse o aumento dos combustíveis, custos com reparo e peças estão subindo apesar do ambiente recessivo. Em outubro, os preços de pneus ficaram 5,8% mais caros em 12 meses, segundo o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o indicador oficial de inflação. Foi a maior alta registrada em pelo menos três anos. Na mesma base de comparação, as despesas com conserto subiram 12,1% (veja arte), acima da média geral para o período, de 9,9%.
Uma das explicações para a alta é o aumento da demanda por veículos usados, segundo o economista sênior da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes. No acumulado de um ano até outubro, foram comercializados 4,4 milhões de motos, carros e comerciais leves novos, quantidade 15,8% menor em relação ao mesmo período do ano passado. No mesmo período, 14,1 milhões de seminovos foram vendidos, o que representou alta 3,4% na mesma comparação, de acordo com dados da Federação Nacional de Distribuição da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).
Como está mais caro comprar um automóvel 0km, seja porque a inflação está abocanhando boa parte do orçamento das famílias, seja devido ao crédito mais caro e escasso no mercado financeiro, alguns consumidores estão optando por motos ou carros usados que, dependendo das condições de uso, demandam mais despesas com manutenção. “Esse movimento não indica mais dinheiro no bolso. Conserto de automóvel é um exemplo clássico de efeito de substituição. Se a compra do veículo 0km fica difícil de concretizar, o consumidor vai atrás de outras opções”, analisa.
Paciência
O servidor público Humberto Pereira da Silva, 50 anos, além de dinheiro, está perdendo a paciência com o aumento de despesas. “Se o problema fosse só os gastos com combustível, estava bom. Mas não é o caso”, reclama ele, que tem quatro carros em casa. “São dois meus e os outros, dos meus filhos”, conta. Ao todo, ele estima ter gasto ao longo de 2015 cerca de R$ 4 mil, sendo que metade desses despesas foram consumidas por um dos veículos, que chegou a parar na oficina cinco vezes apenas este ano. “Tudo está subindo muito. A troca de óleo que até o ano passado saia a R$ 140, agora custa R$ 200. Fora os discos de freio eu pastilhas de ar, que gastei R$ 80. Até o ano passado, pagava metade disso”, criticou.
Não apenas o crescimento da demanda fez as oficinas cobrarem mais pelos serviços. O aumento com custo da mão de obra e a pressão gerada pela alta da energia elétrica levaram donos de oficinas e grandes empresas a ajustarem as tabelas de preços. O coordenador de Treinamento Técnico da Monroe — fabricante mundial de amortecedores –, Juliano Caretta, ressalta que a alta do dólar também impacta nos valores dos produtos, já que alguns insumos são importados. “O aumento é inevitável, mas sempre trabalhamos para repassar o mínimo possível para o consumidor”, afirma.
Caretta, no entanto, garante que é possível driblar esses gastos. Para ele, é preciso pensar em mudanças de comportamento na direção, não apenas para viver o momento atual. “É importante ter muito cuidado na hora de conduzir o veículo. Quanto mais cauteloso o consumidor for na direção e conservação, menores serão os desgastes. Com isso, a economia é certa”, atesta.
3,4%
Crescimento da venda de carros usados no acumulado do ano até outubro em relação ao mesmo período do ano passado.
Revisão é fundamental
O consultor automotivo e especialista em segurança veicular e de trânsito Marcus Romaro acredita que a melhor maneira de evitar dores de cabeça é fazer manutenção preventiva. “Esse tipo de manutenção é planejado para evitar danos ou falhas, sendo baseado por tempo de utilização”, explica. Em cerca de 80% dos casos, os veículos são levados à oficina apenas quando o automóvel já está apresentando algum defeito. Nesses casos, é realizada a manutenção corretiva, em que normalmente são executados reparos após dano ou falha no equipamento.
Esse tipo de serviço é o menos indicado pelos consultores automotivos. “Tudo que é realizado com planejamento, com certeza, é mais rápido, mais barato e mais seguro”, diz Romaro. “Seguindo-se os intervalos de revisões programadas, ou seja, respeitando as manutenções preventivas, os gastos serão significativamente menores, não só pela manutenção em si, mas também pela durabilidade dos componentes, menores consumo e desgaste”, acrescenta.
Romaro não descarta problemas em carros 0km — “tudo que é feito pelo homem está sujeito a falhas” —, mas admite que se espera menos problemas de durabilidade em veículos novos. Ele ressalta que sempre existe a possibilidade de falhas de projeto, por isso, sugere que, na hora de comprar carro novo, opte pelos modelos lançados há, pelo menos, um ano.
Para Jacques Waksman, proprietário da JW Autos, a opção pelo 0km é sempre a mais indicada, até por uma questão do seguro: o custo é maior para carros usados. No entanto, caso o consumidor opte pelo automóvel seminovo, o ideal é que a escolha recaia por um com até dois anos de uso, de preferência, de pessoas conhecidas. E mesmo assim, ele recomenda que o consumidor verifique o estado do carro sempre acompanhado de um mecânico de confiança. “São profissionais com experiência que poderão avaliar melhor se aquele veículo é bom, ou não, para comprar”, justifica.
Correio braziliense, n. 19173 , 23/11/2015. Economia, p. 6