Título: Duelo em Nova York
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 16/09/2011, Mundo, p. 16
Presidente Mahmud Abbas reitera que pedirá o reconhecimento do Estado palestino pela Assembleia Geral das Nações Unidas, na próxima semana. Primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anuncia viagem aos EUA para expor sua objeção.
Daqui a exatamente uma semana, um conflito que já dura 63 anos ocupará as tribunas da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Dessa vez, os protagonistas não serão os soldados das Forças de Defesa de Israel (IDF) ou os militantes islâmicos palestinos. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou ontem que pretende ir pessoalmente a Nova York para convencer o organismo a rejeitar o reconhecimento do Estado palestino e sua consequente adesão como 194º país-membro da entidade. "A Assembleia Geral não é um lugar onde Israel costuma receber uma audiência justa, mas eu decidi dizer a verdade. (...) Pensei que é justo que eu fale na ONU e apresente os fatos como são", declarou o premiê. "Israel quer a paz e tentou negociar há dois anos e meio. Sabemos que a paz depende de um reconhecimento (mútuo) e da segurança", emendou.
Netanyahu precisará enfrentar uma retórica defendida com unhas e dentes pelo presidente palestino, Mahmud Abbas. Na mesma data, o líder da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) e do governo sediado em Ramallah (Cisjordânia), apresentará o pedido de adesão ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon. Os diplomatas palestinos insistem que isso não ocorrerá somente se surgir uma alternativa "confiável" de negociação ¿ algo em que nem eles nem especialistas em Oriente Médio acreditam. "A hora da verdade se aproxima... Os palestinos levarão sua luta para lá, onde tudo começou: no recinto da Assembleia Geral", anunciou o negociador Mohammed Chtayyeh à agência France-Presse. Foi ali que, em 1947, o brasileiro Oswaldo Aranha presidiu a sessão que decidiu pela criação do Estado de Israel.
"A Assembleia Geral apoiará a demanda palestina, com uma maioria esmagadora. Mas os Estados Unidos usarão seu poder de veto e nada mudará no terreno, a não ser a possibilidade de vermos protestos antiamericanos em massa", afirmou ao Correio, por e-mail, o israelense Barry Rubin, diretor do Centro de Pesquisa Global em Assuntos Internacionais, em Hezrliya. De acordo com ele, a aprovação da ONU seria uma permissão global para que os palestinos violem os compromissos assinados desde 1993 e destruiria qualquer possibilidade de um processo diplomático para se alcançar a paz. "Por qual motivo os palestinos negociariam ou firmariam um compromisso, se eles podem obter qualquer coisa, sem dar nada em troca? Esse voto custará muitas vidas e atrasará a paz em vários anos", alerta.
Sem volta O também israelense Mordechai Kedar, analista do Centro para Estudos Estratégicos Begin-Sadat (em Ramat Gan), vê o reconhecimento do Estado palestino como favas contadas. Também por e-mail, ele explica que a Assembleia Geral detém uma maioria contrária a Israel ¿ liderada pelo bloco de 57 países islâmicos e árabes e pelos Estados dependentes do petróleo. "Outros governos são normalmente contrários a Israel apenas porque se opõem aos Estados Unidos", explicou à reportagem, por e-mail. No entanto, o especialista duvida que a nação palestina saia do papel. "O Hamas (movimento fundamentalista islâmico) é contrário a Abbas, e a facção jamais desistirá de governar Gaza. Muitas das tribos na Cisjordânia se opõem ao presidente", comenta.
Kedar aposta que Netanyahu lembrará que o islã ocupou Jerusalém no ano 638 ¿ 1,6 mil anos após a cidade ter se tornado capital judaica. "Ele poderá questionar o fato de que a Jordânia ocupou a Cisjordânia por 19 anos, entre 1948 e 1967, e nunca estabeleceu um Estado palestino. Também poderá argumentar que não há garantias de que um "Estado palestino" jamais se torne um "Estado de terror" dominado pelo Hamas", prevê.
Ainda que o próprio Ban Ki-moon demonstre simpatia pela causa palestina, a qual considera "compreensível", moradores da Faixa de Gaza não guardam falsas expectativas. "Estamos muito pessimistas, pois há muito tempo os EUA vêm usando seu poder de veto sobre o direito das pessoas de viverem em liberdade", disse à reportagem o jornalista palestino Ayed Al-Lahham, de 40 anos. Ele sabe, porém, que o aval da Assembleia Geral à adesão tem suas vantagem, ao menos no plano simbólico. "Será bom, porque o mundo saberá quem precisa da paz real." A Autoridade Palestina defende a criação de um Estado baseado nas fronteiras de 4 de junho de 1967 ¿ com Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza. "Agora, estamos prontos", garantiu o primeiro-ministro palestino, Sallam Fayyad.