Título: Líbios aclamam Sarkozy e Cameron
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Fonte: Correio Braziliense, 16/09/2011, Mundo, p. 17
Recebidos como heróis, presidente francês e premiê britânico visitam Trípoli e Benghazi
Em um clima no qual medidas estritas de segurança se misturavam com a alegria, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, foram recebidos como heróis, ontem, na Líbia. Os dois líderes europeus são os primeiros governantes a levar pessoalmente seu apoio ao novo governo da era pós-Kadafi e a reiterar seu reconhecimento ao Conselho Nacional de Transição (CNT).
Dirigentes da coalizão rebelde, que depôs o ditador Muamar Kadafi e assumiu interinamente o comando do país, reconheceram os visitantes como chefes dos países que tomaram a dianteira também no apoio internacional ao levante, iniciado em fevereiro. Enquanto Sarkozy e Cameron eram recebidos com honras em Trípoli e aclamados pela população em Benghazi, cidade que foi o berço da rebelião, tropas leais ao novo governo iniciavam um ataque a Sirte, cidade natal de Kadafi e um dos últimos redutos das forças leais ao coronel.
Sarkozy e Cameron garantiram a jornalistas, na capital líbia, que seus governos defenderão a continuidade da operação militar da Otan (aliança militar ocidental) na Líbia, iniciada em março, com aval do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Os dois reafirmaram o compromisso de ajudar a capturar o ex-ditador, foragido desde 23 de agosto, quando os rebeldes irromperam em Trípoli. "Devemos continuar com a missão da Otan até que todos os civis estejam protegidos e até que nosso trabalho termine", disse Sarkozy. "Vamos manter a missão por todo o tempo necessário, sob o mandato da resolução nº 1.973 das Nações Unidas", completou Cameron.
Autorizados a usar "todos os meios necessários" para "proteger a população civil", os países da Otan apoiaram com bombardeios aéreos o avanço do movimento insurgente, iniciado em Benghazi, em 15 de fevereiro. "A vitória nunca teria sido possível sem a ajuda dos aliados, especialmente da França e do Reino Unido", elogiou o presidente do CNT, Mustafa Abduljalil, que deve encabeçar a transição à democracia.
Contrastes Os visitantes garantiram que se somarão aos esforços dos líbios para capturar Kadafi, que ainda representaria um perigo para a manutenção da paz. Também pediram aos governos que receberam aliados do antigo governante, acusados de diversos crimes, que os repatriem. Sarkozy e Cameron fizeram ainda um apelo para que os líbios submetam os acusados a julgamentos justos e evitem fazer justiça com as próprias mãos.
Antes de o presidente e o primeiro-ministro partirem para Benghazi, o governo de Londres anunciou o desbloqueio de 600 milhões de libras (US$ 950 milhões), correspondentes a parte dos recursos financeiros e outros bens líbios que estão depositados no Reino Unido e tinham sido congelados, em atendimento a resolução da ONU. Com a liberação dos fundos, as autoridades britânicas buscam auxiliar o CNT a reconstruir o país e melhorar os serviços de telefonia e saneamento.
Nas duas cidades que visitaram, Sarkozy e Cameron viveram momentos de pop star para desespero dos serviços de segurança. Eles visitaram um hospital, falaram com doentes e combatentes feridos, e cumprimentaram algumas pessoas na rua, numa breve caminhada.
Enquanto isso, forças do CNT iniciavam o avanço contra Sirte, 360km a leste de Trípoli. A ofensiva foi confirmada por um representante da coalizão em Misrata. "Eu confirmo que nossas forças estão em Sirte. Ainda há resistência, mas nossos combatentes podem superá-la", disse à agência de notícias France-Presse o porta-voz militar do DNT, Fathi Bachaga.