Título: Já está acontecendo
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 16/09/2011, Tecnologia, p. 18

Espécie de "caçador" de atividades terroristas na internet, o professor e escritor israelense conta como a rede mundial de computadores virou abrigo e ferramenta importante para os extremistas

Autor de The theater of terror (O teatro do terror) e Terror on the internet (Terror na internet), o israelense Gabriel Weimann especializou-se em vasculhar a rede mundial de computadores na busca pela atividade de grupos extremistas islâmicos e em como essas facções utilizam os meios de comunicação de massa.

Em entrevista ao Correio, o professor de comunicação da Universidade de Haifa revelou que o número de sites de organizações terroristas aumentou de forma vertiginosa após os atentados de 11 de setembro de 2001.

"Começamos o projeto na década de 1980, antes mesmo da internet. Analisamos como os terroristas usavam o rádio, a televisão, os jornais e como manipulavam e alimentavam a mídia", afirmou. De acordo com ele, a internet tem se tornado uma ferramenta importante no planejamento de ataques terroristas, ao fornecer mapas e fotos de satélites, além de ser uma difusora da ideologia do ódio.

Entrevista Gabriel Welmann

Como o senhor analisa o potencial da internet como fonte de novos complôs terroristas? Não se trata de um potencial. Isso está ocorrendo. A maior parte das atividades terroristas atuais foi coordenada e originada on-line. Com bastante frequência, fotos, mapas e instruções são enviados pela internet pelos extremistas. Um exemplo é o Google Earth. Pense sobre a perspectiva de um terrorista, que obtém acesso livre a fotos de satélite e mapas. Temos vários exemplos de grupos extremistas que realizaram o download de mapas e dessas imagens quando planejavam suas ações. A internet não é um instrumento teórico ou futurístico de planejamento de atentados. Já está acontecendo. Os terroristas precisam da internet e não podem viver sem a rede. Os terroristas não usam celulares, porque podem ser rastreados.

Existe alguma forma de impedir que os extremistas usem o mundo virtual para impor suas ideologias e para planejar mortes? Esse é um desafio. Trata-se de um novo campo de batalha, uma nova arena. Você precisa de novas armas e novos soldados para lutar nessa guerra. Os Estados Unidos acreditavam que a solução seria bloquear os sites. Eles descobriram que isso não funcionava. Mesmo que você bloqueie os sites, eles podem ressurgir, em um novo local, em cinco minutos. O ciberespaço não tem fronteiras nem limites. Não existe censura. O meio mais sofisticado para penetrar nesses sites compreende a infiltração de vírus que podem ser usados como fontes para a inteligência. Uma das maiores ameaças atuais é o ciberataque. Hackers contratados ou recrutados pelos terroristas podem entrar em sites protegidos, como os de usinas nucleares, do Pentágono e de agências de segurança.

Os atentados de 11 de setembro aumentaram a ameaça representada pela rede mundial de computadores? Os terroristas começaram a surgir na internet, na década de 1990. Em 1998, detectamos apenas 12 sites de grupos extremistas. Algumas facções já estavam na rede, inclusive a Al-Qaeda, mas cada grupo tinha um site, em uma linguagem diferente. Atualmente, monitoramos 7,8 mil sites terroristas, em cerca de 20 idiomas. Também estamos examinando o uso do Facebook, do Twitter, do YouTube e do Google Earth. Houve um aumento considerável de sites após os atentados de 11 de setembro de 2001. Os extremistas se moveram para a internet, porque tornou-se difícil para eles se reunirem, treinarem e se comunicar. A guerra ao terrorismo tornou a vida deles mais difícil. Eles passaram a ter dificuldades para viajar, para realizar transações financeiras e para frequentar campos de treinamento terroristas. Eles se moveram para o ciberespaço e começaram a fazer tudo no meio virtual: comunicação, treinamento, recrutamento, disseminação de propaganda e discussão sobre atentados. O próprio 11 de setembro foi produzido, planejado e executado pela internet. O intervalo de tempo entre os voos de aviões sequestrados, a comunicação entre os terroristas, a reserva de assentos nas aeronaves. Tudo foi feito pela internet.

O Brasil está à mercê de um atentado? Que influência a Tríplice Fronteira tem nesse risco? Já estive na Tríplice Fronteira, que tem sido uma área de tensão do terror há anos. Isso não é novo, mas há ameaças que precisam ser consideradas. O Brasil vai sediar eventos globais, o que o torna foco da mídia mundial. O ataque a um desses eventos teria caráter global, captaria atenção mundial. Além disso, as recentes mudanças econômicas impulsionaram o Brasil ao primeiro plano da economia global. O Brasil se tornou uma das principais economias em desenvolvimento. Há um paradoxo aqui: quanto mais se é acessível, mais se é atraente para os terroristas. Um ataque não atingiria apenas a economia brasileira, mas teria um efeito dominó, afetando os mercados globais. Outro elemento que precisa ser considerado é que o Brasil já contou com a presença de terroristas em seu território. Relatos da CIA, do WikiLeaks e mesmo da mídia brasileira dão conta da presença de vários grupos aqui, incluindo a Al-Qaeda, o Hamas e o Hezbollah. A ausência de uma legislação sobre o terrorismo é outro motivo pelo qual o Brasil pode ser atraente para os extremistas.

Como o senhor vê a eficácia de nossos policiais em rastrear ameaças no mundo virtual? Não tenho ideia, e isso é uma má notícia. Temos participado de conferências e workshops em várias partes do mundo, com agências de contraterrorismo e polícias federais. Pelo que eu saiba, não existe uma unidade na polícia brasileira responsável por esse rastreamento. Isso é um sinal de ignorância, fraqueza ou de falta de preparo. Muitos países que enviarão delegações aos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro querem estar protegidos. A Al-Qaeda pode realizar buscas com as palavras Olimpíada e Brasil, de uma forma muito fácil, na internet.

A Primavera Árabe surtiu algum impacto em atividades terroristas na internet? O que chamamos de Primavera Árabe expressa nossas esperanças, as esperanças do Ocidente ou do mundo moderno de mudança rumo à democracia e a regimes mais liberais, mais tolerantes e mais ocidentalizados. A Al-Qaeda também avalia a Primavera Árabe. Ayman Al-Zawahiri e sua Al-Qaeda estão buscando oportunidades e colideram essa revolução, no sentido de buscar regimes jihadistas. Para eles, a instabilidade é um bom local para se penetrar. Eles creem que o espírito da jihad tornou possível derrubar Muamar Kadafi e Hosni Mubarak. No Egito, a Irmandade Muçulmana desempenha agora um papel low profile, mas está aguardando uma chance. E essa chance serão as eleições parlamentares, em outubro. Na Líbia, sabemos que há caos e que algumas das muitas tribos estão ligadas a grupos islâmicos.

Que perigo representaria para Israel o reconhecimento do Estado palestino pela ONU? O Estado palestino já existe. Nós o chamamos de Autoridade Palestina. Eles têm sua própria polícia, controlam seu próprio território e combatem o terrorismo na Cisjordânia. Não haverá uma mudança dramática com o reconhecimento pela ONU. A transformação será dramática essencialmente em termos de imagem. A ideia é muito simbólica. Nada mudará no Oriente Médio. No entanto, o significado simbólico pode afetar a audiência, que pode ir às ruas e protestar contra os assentamentos judaicos. Israel gostaria de ver um mútuo reconhecimento: o Estado judeu reconheceria a existência da Palestina, mas a Palestina reconheceria Israel. Em termos de atividades terroristas, não vejo mudanças significativas relacionadas a esse reconhecimento. O Hamas independe da Autoridade Palestina. Além da Jihad Islâmica, que lançou alguns ataques a partir da Faixa de Gaza, temos a presença da Al-Qaeda no Líbano, no Sinai e na Jordânia. Esses grupos, porém, podem usar esse reconhecimento como um palco para ecoar sua voz e ganhar a atenção mundial.