O globo, n. 30.061, 26/11/2015. Mundo, p. 33

Gabinete CEO

Macri privilegia nomes com experiência de gestão no setor privado para compor governo

-BUENOS AIRES- Na reta final da campanha eleitoral, o agora presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, prometeu “formar a melhor equipe dos últimos 50 anos” para governar o país. Ontem, num clima de forte expectativa, foram anunciados os nomes escolhidos para compor um Gabinete onde predominarão funcionários que iniciaram suas carreiras no setor privado, em muitos casos, com experiência em gestão pública, mas que contrastam com o perfil de militantes políticos dos ministros de Néstor e Cristina Kirchner.

AFP/24-11-2015Novo governo. Macri deixa a Quinta de Olivos, residência oficial: presidente eleito lamentou decisão de Cristina de não permitir encontro entre antigos e novos ministros

Para analistas e jornalistas locais ouvidos pelo GLOBO, Macri deixou claro que, apesar de ter chegado ao poder graças a uma aliança eleitoral com a União Cívica Radical (UCR) e a Coalizão Cívica, seu governo não será uma coalizão, nos moldes chileno e uruguaio. Como fez em seus oito anos como prefeito portenho, o chefe de Estado optou por “gestores e não políticos que representem partidos de uma base aliada, que aqui, ao contrário do Brasil, não existe”, explicou Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos Nova Maioria.

— É o Gabinete que se esperava, com forte componente empresarial. Para Macri, a política é gestão, e isso é o que se reflete — apontou Fraga.

Nas redes sociais, alguns argentinos se referiram ao futuro Gabinete como market friendly, principalmente pela origem dos homens que integrarão a equipe econômica. O ministro da Fazenda e Finanças, o deputado Alfonso PratGay, que foi presidente do Banco Central entre 2002 e 2004, trabalhou no banco de investimentos JP Morgan e, mesmo ocupando uma vaga na Câmara, está à frente da empresa de consultoria econômica Tilton Capital. Seu sócio, Pedro Lacoste, será vice-ministro de Economia, e Dante Caputo, que passou pelo Deutsche Bank, comandará a Secretaria de Finanças.

CRISTINA DIZ QUE PAÍS NÃO É EMPRESA Estes serão os funcionários encarregados de negociar com os chamados fundos abutres, que estão litigando contra a Argentina nos tribunais de Nova York e obrigaram o país a decretar o calote da dívida pública. Segundo rumores que circulavam ontem em Buenos Aires, Prat-Gay já está em contato com bancos de investimento, negociando acordos para enfrentar a escassez de dólares, uma das heranças kirchneristas.

— Estamos felizes e orgulhosos de apresentar esta equipe, com pessoas que representam uma nova etapa para o governo argentino do futuro — declarou o futuro chefe de Gabinete, Marcos Peña, que foi coordenador da campanha e, há anos, é braço direito do chefe de Estado eleito.

Antes mesmo de confirmados os nomes do Gabinete macrista, a presidente Cristina Kirchner aproveitou para dar uma alfinetada em seu sucessor, um dia depois de um tenso encontro entre ambos.

— Não se confundam, um país não é uma empresa — declarou a presidente que, na véspera, não permitira fotógrafos em sua conversa com Macri nem a utilização da sala de jornalistas da residência oficial de Olivos.

Depois da reunião, o presidente eleito afirmou que “não serviu para muito” e lamentou a decisão de Cristina de não permitir que os futuros ministros se reúnam com o atual Gabinete, para conhecer detalhes da herança que será recebida no próximo dia 10 de dezembro.

— Teríamos preferido uma transição mais normal, como em outros países. A Presidência propõe um cenário diferente — enfatizou Peña. MINISTRO KIRCHNERISTA É MANTIDO O chefe de Gabinete considerou que a atitude de Cristina transformou a transição em “clandestina”, e defendeu a necessidade de “tornar públicos” momentos tão importantes.

— Existe um Estado que está acima dos funcionários. Somos empregados dos argentinos e nos parece importante que tudo seja com a mais absoluta transparência — frisou.

A lista de ministros de Macri inclui, ainda, o exCEO da Shell, Juan José Aranguren, na pasta de Energia; Guillermo Dietricht (herdeiro de uma das principais concessionárias da Volkswagen) no Transporte, mesmo cargo que ocupou no governo portenho; e Francisco Cabrera, que também trabalhou vários anos no setor privado, na Produção.

— Cabrera foi executivo da área de recursos humanos do jornal “La Nación”, são pessoas com muita experiência, em alguns casos, pública e privada — comentou o secretário de redação do jornal, Pablo Sirvén.

Na opinião do analista Sergio Berenztein, “a formação acadêmica deste Gabinete é uma das melhores que a Argentina já teve”.

— Teremos ministros com doutorado, que falam inglês, o nível é altíssimo. Veremos se darão certo, mas o material é bom — disse Berenztein.

Os políticos terão uma participação menor: dois deputados e um dirigente. Na véspera, a equipe de Macri confirmara que a Chancelaria ficará em mãos de Susana Malcorra, há dez anos na ONU e que antes da carreira internacional ocupou posições de peso na IBM e da Telecom.

Numa decisão que surpreendeu, Macri decidiu manter o atual ministro da Ciência kirchnerista, Lino Barañao.

— Foi uma das políticas mais bem sucedidas dos últimos anos. Queremos os melhores para cada um dos lugares — justificou o futuro chefe de Gabinete.

O presidente eleito também pretende designar o economista Federico Sturzenegger, que foi deputado e presidente do Banco Cidade de Buenos Aires, para o Banco Central. Para isso, deverá renunciar o atual presidente, Alejandro Vanoli, cujo mandato, aprovado pelo Congresso, não vence ao terminar o de Cristina.

— Macri quer gente de gestão, não políticos — frisou Fraga.