Título: Dólar cai, mas inflação atormenta o BC
Autor: Martins, Victor; Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 24/09/2011, Economia, p. 14

Governo mostra alívio com a baixa da divisa dos Estados Unidos, mas teme que a disparada das cotações desde o início do mês - alta de 15,45% - tenha estimulado um movimento de remarcações preventivas por indústria e comércio

Para alívio do governo, sobretudo do Banco Central, o dólar caiu ontem 3,24% e terminou o dia cotado a R$ 1,838. Mas, ainda assim, a preocupação continua latente na autoridade monetária. A instituição acredita que a moeda norte-americana recuará para um nível próximo de R$ 1,70 nas próximas duas semanas. O problema é que a disparada nas cotações da divisa, que chegaram a bater em R$ 1,95, pode ter estimulado remarcações preventivas no comércio e na indústria, movimento que tende a contaminar os índices de preços de setembro e de outubro. Desde o início do mês, o dólar acumula valorização de 15,45%.

O BC tenta, agora, descobrir até que ponto a inflação foi contaminada. Antes da disparada do dólar, as estimativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) variavam entre 0,50% e 0,55% para setembro. Em 12 meses, a prévia do indicador atingiu 7,33%, superando, de longe, o teto da meta definida pelo governo, de 6,5%. Ou seja, o risco desse teto ser superado no fim do ano ficou maior. Segundo técnicos da instituição, os dados mostram que o impacto será mínimo, entre 0,1 e 0,3 ponto percentual, o que, no entanto, não deixa de ser um tormento.

"Na média, a transmissão da alta do dólar para os preços não é rápida, demora de três a quatro meses. Mas, diante da velocidade que a moeda norte-americana subiu e se os atuais preços forem mantidos por mais alguns meses, ampliam-se os riscos para a inflação", ponderou Flávio Serrano, economista do Espirito Santo Investment Bank.

A preocupação é tanta no governo, que o presidente do BC, Alexandre Tombini, e o diretor de Política Monetária, Aldo Mendes, fizeram questão de frisar que a autoridade monetária intervirá no mercado de câmbio sempre que necessário para corrigir distorções. "A oferta do BC de US$ 5,5 bilhões no mercado futuro, na quinta-feira, foi um claro recado. Ficou evidente que a autoridade monetária combaterá qualquer movimento especulativo", avaliou Alfredo Barbutti, economista da Corretora BGC Liquidez.

Para o BC, que reviu várias projeções para as contas externas neste ano (veja quadros), é questão de honra que o dólar recue, pois poderá continuar com o discurso em prol da redução da taxa básica de juros (Selic), de 12% ao ano ¿ o governo não esconde o desejo de baixar o custo do dinheiro para estimular o crescimento do país em meio à grave crise mundial. A presidente Dilma se assustou com os prognósticos feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), indicando que o avanço do Brasil neste ano, de 3,8%, será o segundo menor da América do Sul, superando apenas o da Venezuela.

O governo admite que a aversão ao risco e o medo de recessão mundial são grandes, o que tem influenciado o dólar. Porém, o BC identificou manipulação no mercado futuro de câmbio por causa da briga entre os hedge funds (fundos altamente especulativos) e os bancos nacionais. Na semana que vem, a disputa entre esses dois lados se intensificará. Na sexta-feira, vencerão contratos entre os que defendem a alta da moeda norte-americana e os que apostam na baixa. Quem perder pagará caro. "A pressão será grande e as oscilações de preços, também", disse José Roberto Carreira, da Fair Corretora.

Na avaliação da equipe econômica, ficou claro que o mundo viverá um longo período de instabilidade, até que esteja bem delineado o contágio da crise no caso de calote da Grécia. "O problema grego já está no preço. Mas se teme o seu efeito sobre o sistema bancário internacional, com redução das linhas de financiamento e restrições de liquidez", afirmou um integrante do governo.

Contas refeitas (Em US$ bilhões) Autoridade monetária reviu uma série de projeções deste ano para o setor externo

Indicadores Antes Agora Deficit em transações correntes 60 54

Saldo comercial 20 29

Serviços e rendas 83 86

Lucros e dividendos 37 38

Investimentos Estrangeiros Diretos 55 60

Viagens internacionais 15 16

Fonte: Banco Central

Raio X da conta-viagem (Em US$ bilhões)

Agosto Receitas 0,6

Despesas 1,9

Líquido -1,3

Setembro Receitas 0,4

Despesas 1,0

Líquido -0,6

Acumulado no ano até agosto Receitas 4,4

Despesas 14,2

Líquido -9,8

Fonte: Banco Central