Título: Remessas de US$ 5,1 bilhões
Autor: Cristino, Vânia
Fonte: Correio Braziliense, 24/09/2011, Economia, p. 15
Multinacionais instaladas no Brasil se antecipam à alta do dólar e mandam dinheiro para socorrer suas matrizes
As multinacionais instaladas no Brasil se anteciparam à alta do dos preços do dólar, rasparam o que puderam do caixa e remeteram ao exterior US$ 5,1 bilhões em lucros e dividendos em agosto. Foi o valor mais alto da série para o período. Tradicionalmente, as remessas são feitas no fim do ano. Mas, antevendo a valorização do câmbio, matrizes instaladas em países sob forte crise econômica cobraram de suas filiais, que dão lucro no país, o envio dos dólares. O movimento excepcional foi suficiente para piorar as contas externas brasileiras e levar o deficit em transações correntes a R$ 4,8 bilhões no mês passado. O Banco Central esperava um rombo menor, de US$ 3,2 bilhões.
A exemplo do que ocorreu na crise financeira de 2008 e 2009, acirrada pela quebra do banco norte-americano Lehman Brothers, as multinacionais voltaram a pedir ajuda de suas filiais lucrativas. Com isso, as unidades instaladas no Brasil tiveram que socorrer as sedes em dificuldade. A expectativa do BC é de que, nas próximas semanas, essas remessas registrem uma nova alta.
A "culpa" do envio extra de lucros e dividendos foi do aquecimento da economia brasileira, justificou o chefe do Departamento Econômico do BC, Túlio Maciel. A seu ver, é a força da atividade no país que vem permitindo a acumulação de ganhos pelas empresas e, consequentemente, a realização das remessas às matrizes. A parcela das remessas decorrentes de Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) ¿ no setor produtivo ¿ foi de US$ 3,5 bilhões. O restante, US$ 1,5 bilhão, saiu dos ganhos com aplicações em ações e títulos públicos.
Bancos Empresas dos setores financeiro, automobilístico e de bebidas foram as que mais mandaram dinheiro para fora do país. O destaque ficou para os bancos, que remeteram US$ 954 milhões às suas matrizes, especialmente para a Europa, onde a crise se aprofundou diante do risco de um calote da Grécia. As montadoras aparecem em segundo lugar do ranking das remessas ao exterior: enviaram US$ 845 milhões às suas sedes.
O câmbio desvalorizado favorece a remessa de lucros e dividendos para o exterior porque, com menos reais, as empresas adquirem mais dólares para mandar para fora. Diante disso, o BC ampliou de US$ 37 bilhões para US$ 38 bilhões a previsão anual das remessas. Até agosto, as multinacionais já enviaram para suas matrizes US$ 25,6 bilhões, o maior estoque da série histórica iniciada em 1947. Os serviços demandados por brasileiros no exterior também pesaram, com destaque para o aluguel de equipamentos, que resultou num saldo líquido negativo de US$ 1,39 bilhão no mês.
Atração de US$ 10 bilhões Até agora, a crise não tem afetado o fluxo de recursos estrangeiros em direção ao Brasil. Muito pelo contrário. Depois de fechar agosto com um saldo positivo de US$ 4,1 bilhões, devido à forte corrente de comércio ¿ o saldo das exportações foi responsável por esse resultado ¿, em setembro o fluxo cambial já se encontra positivo em mais de US$ 10 bilhões até o dia 23. Contribuiu para esse saldo o segmento financeiro, com um ingresso líquido de recursos da ordem de US$ 2,2 bilhões. No período, a balança comercial (diferença entre compras e vendas no exterior) também ficou positiva em US$ 7,7 bilhões. Já a posição de câmbio dos bancos, que antes apostavam na valorização do real, mudou de direção. Até o dia 21, a aposta das instituições financeiras contra a moeda nacional batia em US$ 3,1 bilhões.