Título: Dilma quer discutir medidas anticrise
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Fonte: Correio Braziliense, 24/09/2011, Economia, p. 16

Ministro da Fazenda antecipa volta ao Brasil e admite rever medida que ajudou a elevar a cotação da moeda norte-americana

Washington ¿ A pedido da presidente Dilma Rousseff, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, antecipou em um dia sua volta ao Brasil para discutir possíveis medidas de combate aos efeitos da turbulência global na economia brasileira. Mantega, que está na capital norte-americana participando do encontro do Fundo Monetário Internacional (FMI), desembarcará no país na noite de domingo, a tempo de estar presente, na segunda-feira pela manhã, da reunião de coordenação política do governo. Neste sábado, ele ainda cumpre agenda em Washington.

As conversas mantidas nos Estados Unidos com autoridades de outros países mostraram à cúpula do governo brasileiro que a situação internacional é mais grave do que se suspeitava. Além disso, Dilma, que passou a semana em Nova York, onde abriu a Assembleia Geral das Nações Unidas, ficou especialmente preocupada com a disparada do dólar frente ao real, nos últimos dias, temendo que ela alimente ainda mais a inflação, corroa o poder de compra dos trabalhadores e crie graves dificuldades para as empresas.

Ontem, Mantega disse que o fortalecimento da moeda norte-americana diante do real se deve a mudanças das posições dos bancos no mercado de derivativos, e não por uma fuga de dólares do país. Nesse sentido, ele admitiu que pode ser revista a tributação das operações com derivativos no mercado futuro de câmbio, decidida no fim de julho.

O governo passou a taxar essas transações com uma alíquota de 1% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para desarmar as apostas do mercado financeiro na valorização do real, tendência que vinha prejudicando a indústria e setores ligados à exportação. Desde então, a tendência do câmbio se inverteu, mas com uma rapidez que surpreendeu e assustou a equipe econômica.

Cobrança de IOF O ministro disse que não há ainda uma decisão, mas deixou a porta aberta para a retirada da cobrança do IOF. "Nós estabelecemos medidas regulatórias que são feitas para colocar e tirar. Temos vários tributos dessa natureza. Muitas vezes nós colocamos e depois, quando não é necessário, tiramos", afirmou.

Uma fonte da equipe econômica disse que a alta recente do dólar, que chegou a acumular 20% neste mês e ultrapassar o patamar de R$ 1,90, acendeu um "alerta importante" sobre a inflação. E, diante dessa forte volatilidade, havia "muita munição guardada para ser usada ou para ser retirada", referindo-se às medidas cambiais adotadas nos últimos meses.

Mantega, que ontem participou de um encontro com investidores, afirmou ainda que, em meio à turbulência que verga as principais economias, é recomendável para o Brasil manter a solidez fiscal. "É importante, no momento em que vários países sofrem de debilidade nesse ponto, que o país tenha uma situação fiscal sólida, de modo que, diminuindo os gastos correntes, tenhamos mais espaço para aumentar investimentos e que a taxa de juros ¿ que é muito alta ¿ possa cair", disse. Segundo o ministro, há espaço para afrouxar a política monetária e reduzir as taxas de juros se a crise global piorar.