O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), afirmou ontem que a "divulgação" de informações relativas à Operação Lava Jato é feita pelas autoridades de maneira seletiva para incriminá-lo e para poupar o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), aliado do Palácio do Planalto.
Ao negar ter negociado a aprovação de Medidas Provisórias com o presidente da empreiteira OAS, Leo Pinheiro, ele fez questão de dizer que Renan aparece em várias páginas do relatório de ligações do empresário. Com a afirmação, Cunha agravou ainda mais a crise interna do PMDB, protagonizada por ambos e pelo vice-presidente da República, Michel Temer, desde que o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff foi aceito na Câmara.
"Na ação cautelar minha, que motivou a busca e apreensão (nas casas de Cunha no Rio e em Brasília e em um escritório no Rio), tem um relatório das ligações do Leo Pinheiro com 632 páginas dizendo que são apenas 10% das chamadas dele feitas até agora. Dessas 632, por exemplo, tem 60 páginas que tratam do presidente do Senado. Ninguém publicou uma linha. Então, é preciso olhar com cautela porque se está selecionando sobre quem divulgar e, justamente na que está divulgada sobre mim, misturam-se os diálogos que não são comigo ou que supostamente não são comigo", disse Cunha, em café da manhã com jornalistas ontem.
Afastamento. Ele se referia ao pedido de afastamento dele apresentado ao Supremo Tribunal Federal, no qual a Procuradoria-Geral da República identificou troca de mensagens de celular que supostamente indicam a atuação do deputado peemedebista no Congresso Nacional em favor de interesses de empreiteiras.
O presidente da Câmara tem afirmado a seus aliados e a jornalistas que a "divulgação" ou "Vazamento" dos documentos relativos à Lava Jato são feitos de maneira seletiva pela Procuradoria-Geral da República para incriminá-lo e desgastá-lo politicamente, com o objetivo de favorecer Dilma, de quem Cunha é adversário.
Apesar de também ser alvo de uma série de acusações em delações feitas no âmbito da Operação Lava Jato, Renan tem sofrido menos que Cunha nas mãos da Procuradoria e do Supremo Tribunal Federal. O presidente do Senado é alvo de ao menos seis inquéritos no STF.
No entanto, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ainda não ofereceu denúncia formal contra Renan. Além disso, no mesmo dia em que autorizou a realização de buscas nas casas e no escritório de Cunha, o ministro do STF Teori Zavascki, relator do processo da Lava Jato, rejeitou pedido de Janot para realização de busca e apreensão na casa do presidente do Senado. O motivo da rejeição ainda é mantido sob sigilo.
Divergências. À medida que as investigações sobre Cunha avançaram, ampliou-se o abismo entre eles, agravado por suas posições em relação ao impeachment e à disputa interna no PMDB. O presidente da Câmara, defensor do impedimento de Dilma, se aproximou de Michel Temer, cujo grupo político tem atuado pelo impedimento e defende sua reeleição na presidência do PMDB. Já o presidente do Senado tem se posicionado contra o impeachment e pretende apresentar um nome para suceder a Temer no comando da sigla. A convenção do PMDB está prevista para março.
Os dois lados se estranharam recentemente graças à disputa pela liderança da bancada do PMDB na Câmara. Temer e Cunha apoiaram o movimento que derrubou o deputado anti-impeachment Leonardo Picciani (RJ) do posto e o substituiu por Leonardo Quintão (MG). Dias depois, com apoio do Planalto, Picciani retomou a liderança. No meio deste processo, o senador afirmou que o PMDB "não tem dono" e Michel Temer respondeu que "não tem dono nem coronéis".
Ontem, Eduardo Cunha negou ter negociado qualquer Medida Provisória e afirmou que houve uma mistura no teor das mensagens e um vazamento seletivo sobre o seu caso. Questionado diretamente se achava que Renan Calheiros estava sendo poupado, esquivou-se: "Não estou aqui para fazer comentário ou acusação a quem quer que seja", disse o presidente da Câmara dos Deputados. / COLABOROU BEATRIZ BULLA
• "Cuidado"
"Na ação cautelar minha, que motivou a busca e apreensão (nas casas de Cunha no Rio e em Brasília e em um escritório no Rio) tem um relatório das ligações do Leo Pinheiro com 632 páginas dizendo que são apenas 10% das chamadas dele feitas até agora. Dessas 632, tem 60 páginas que tratam do presidente do Senado. Ninguém publicou uma linha. Então, é preciso olhar com cautela porque se está selecionando sobre quem divulgar"
Eduardo Cunha (PMDB-RJ)
PRESIDENTE DA CMARA
Deputado diz que "dá de presente" conta encontrada
• O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), voltou a negar ontem que tenha contas no exterior. Em café da manhã com jornalistas, o peemedebista disse que "dá de presente" qualquer conta dele que venha a ser encontrada pelos investigadores.
"Vocês podem preparar em qualquer escritório de advocacia internacional qualquer documento que diga "empresa", "truste", para eu assinar procuração, doação, busca, verificação, de Israel, da Arábia Saudita, do Líbano, de qualquer lugar do mundo e de qualquer conta bancária, que eu dou de presente a quem quiser porque não existe", disse.
Investigações do Ministério Público suíço já encontraram quatro contas ligadas a Cunha naquele país. Cunha afirma, no entanto, que não se tratam de contas, mas de trustes, espécie de fundos de investimento. / d.c. e c.a.