O globo, n. 30048, 13/11/2015. Economia, p. 21
Petrobras tem prejuízo de r$ 3,8 bi, e dívida preocupa. diretor avisa que recuperação será gradual
Ramona Ordoñez
ramona@oglobo.com.br
Bruno Rosa
bruno.rosa@oglobo.com.br
Crise na estatal
A Petrobras registrou no terceiro trimestre um prejuízo de R$ 3,8 bilhões. O resultado, dentro das expectativas de analistas, é um pouco melhor que a perda de R$ 5,3 bilhões do mesmo período de 2014, mas pior que o lucro de R$ 531 milhões do segundo trimestre deste ano. Se antes os balanços da estatal haviam sido prejudicados pela Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, bem como pelo pagamento de passivos tributários, desta vez foram a valorização de 28% do dólar frente ao real, entre julho e setembro, e a queda do preço do barril do petróleo os principais fatores que afetaram os resultados.
A desvalorização cambial também contribuiu para o aumento de 44% do endividamento total da empresa ao fim de setembro, que atingiu R$ 506,5 bilhões. Já o endividamento líquido avançou 43%, para R$ 402,348 bilhões. Ontem, ao apresentar os resultados, Ivan Monteiro, diretor financeiro da estatal, afirmou que vai buscar uma reestruturação do endividamento, com objetivo de alongar o perfil da dívida.
Para analistas de mercado, a dívida da empresa é a principal preocupação.
- A companhia precisa ser mais agressiva no seu programa de vendas. É a única saída para aliviar sua dívida - afirma Maurício Pedrosa, sócio da gestora Queluz.
PRESSÃO PARA REAJUSTE
Com endividamento elevado e perdas bilionárias no trimestre, o reajuste de combustíveis é tido como certo no mercado, o que deve pressionar ainda mais a inflação.
- O mercado já trabalhava com uma forte hipótese de reajuste. Com esse resultado, o governo sofrerá ainda mais pressão da Petrobras para liberar a alta de preços - disse Flavio Conde, da consultoria WhatsCall.
Monteiro e Solange Guedes, diretora de Exploração & Produção, destacaram, contudo, os resultados operacionais da companhia, que consideram positivos. A produção de óleo e gás no Brasil avançou 8%, para 2,6 milhões de barris por dia, nos primeiros nove meses do ano, em relação ao mesmo período de 2014.
- O grande impacto neste ano foi a variação do câmbio. O resultado operacional da companhia está melhorando de forma consistente. Temos perseguido números e metas que possamos entregar. Podemos esperar uma continuidade desse processo. A Petrobras não terá a varinha mágica do Harry Potter. É a revisão do plano de negócios, a redução dos investimentos e a melhoria da produtividade para manter a liquidez. Assim, eu consigo aos poucos regularizar as dívidas contratuais e, no próximo ano, buscar uma restruturação do endividamento. Vamos fazer operações para alongar o perfil do passivo - disse Monteiro, lembrando que já foram rolados US$ 5 bilhões em dívidas que vencem neste ano.
De acordo com a Petrobras, a depreciação cambial representou uma despesa adicional de R$ 5,4 bilhões no terceiro trimestre. Pesaram ainda os processos trabalhistas e tributários, no total de R$ 2,3 bilhões, os gastos com "baixas de poços secos e/ou subcomerciais", de R$ 668 milhões, além de R$ 270 milhões pagos à Agência Nacional do Petróleo (ANP) por devolução de campos.
'Volta ao mundo', promete diretor
Monteiro lembrou que a meta da companhia é chegar ao fim do ano com um caixa de US$ 22 bilhões. Ele destacou que, dos US$ 14 bilhões captados neste ano, US$ 3 bilhões ficarão para o caixa de 2016. O diretor financeiro explicou que não serão feitas novas captações se a companhia cumprir a meta de arrecadar US$ 15,1 bilhões com a venda de ativos em 2016.
- Trabalhamos com US$ 15,1 bilhões de desinvestimentos. E, se isso não acontecer, mas na nossa visão o risco é baixo, conseguiremos financiamento. Hoje, temos US$ 25 bilhões de oferta de crédito de diferentes alternativas. A companhia está querendo manter o saldo mínimo de caixa de US$ 20 bilhões, e é isso o que a gente vai perseguir - destacou Monteiro.
Ele destacou que, na semana que vem, junto com outros diretores, vai "dar a volta ao mundo" para buscar parceiros para a venda de ativos, como a de parte da BR Distribuidora. Segundo Monteiro, "empresas no mundo inteiro estão mostrando interesse" na BR. Entre os países a serem visitados estão México, Estados Unidos, Canadá e China.
- Temos recebido consultas de investidores. Temos um portfólio imenso. Temos várias alternativas. Não tem como desalavancar a empresa sem a venda de ativos. E isso será ao longo do Plano de Negócios. Se tiver lucro, paga dividendos. Se não tiver, não paga - afirmou, ressaltando que em 2015 a única operação planejada que não ocorreu foi a abertura de capital da BR Distribuidora.
INVESTIMENTOS CAÍRAM 11% NO ANO
Com o preço do petróleo em baixa, a geração de caixa operacional da companhia, medida pelo Ebitda, ficou em R$ 15,5 bilhões no terceiro trimestre, uma queda de 22% em relação ao segundo. Ao mesmo tempo, a empresa continuou pisando no freio em relação aos investimentos, que caíram 11%, para R$ 55,4 bilhões nos primeiros nove meses deste ano. Segundo a estatal, todas as áreas tiveram recuo, exceto o segmento de exploração, que avançou apenas 6%.
Além disso, o diretor de Abastecimento, Jorge Celestino, destacou que a produção de derivados caiu 6%, como reflexo da desaceleração da economia, nos nove primeiros meses deste ano, frente ao mesmo período de 2014. Já venda de derivados caiu 8% no mesmo período.
Solange Guedes, de Exploração & Produção, disse, em sua apresentação, que neste ano o custo médio de extração por barril chegou a US$ 12,4 por barril, uma queda de 16% em relação ao ano passado. Já no pré-sal, em função de sua elevada produtividade, o custo ficou em US$ 8 no terceiro trimestre.
- Já estamos com um poço perfurado em menos de 30 dias. Em 2010, eram 150 dias - explicou, ressaltando que, apesar de a greve dos petroleiros ter reduzido em 5% a produção, a estatal mantém sua meta de chegar a dezembro produzindo 2,5 milhões de barris de petróleo e gás por dia.