Título: Relator descarta fronteiras de 1967
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 26/09/2011, Mundo, p. 12
Menos de 24 horas antes do discurso do presidente palestino, Mahmud Abbas, na Assembleia Geral da ONU, um relatório repercutiu com força na mídia internacional. No texto, entregue às Nações Unidas, o norte-americano Richard Falk ¿ professor de direito internacional da Universidade de Princeton e relator especial para a Palestina no Conselho dos Direitos Humanos da ONU ¿ acusou Israel de submeter os palestinos a "violações sistemáticas e disseminadas" de seus direitos humanos básicos. Em entrevista ao Correio, por e-mail, ele tornou a usar uma retórica contundente contra o governo de Benjamin Netanyanu e fez uma análise histórica sobre como o Ocidente transformou os palestinos em vítimas. "Praticamente quase não existe a possibilidade de um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967, enquanto a atual liderança em Israel permanecer no poder e gozar do apoio incondicional dos EUA", afirmou.
O senhor afirmou em relatório que os palestinos têm sido vítimas de injustiça desde 1948, desde a criação do Estado de Israel. Como explica a passividade do mundo? Os palestinos têm sido vitimizados pelas potências ocidentais desde que a Declaração Balfour prometeu ao povo judeu uma terra natal na histórica Palestina, em 1917. Essa foi uma decisão colonial, sem qualquer esforço para obter o consenso da população nativa que então vivia na Palestina. Esse processo essencialmente continuou, e o clímax foi a decisão da ONU sobre a partilha do país, em 1947 ¿ rejeitada pelos países árabes vizinhos. Isso levou a uma grande expulsão dos palestinos de sua própria terra. Mais uma catástrofe envolveu esse povo em 1967, quando os restantes 22% dos palestinos tornaram-se moradores de um território ocupado. Israel começou a estabelecer seus assentamentos, mais tarde suplementados por uma rede de estradas e por um muro de separação. Abusos ilegais sobre as chances palestinas de autodeterminação. A passividade da comunidade internacional tem sido produto de vários fatores: a culpa e a empatia das democracias liberais na Europa e na América do Norte pelas consequências do Holocausto, expressando sua simpatia pelos judeus sobreviventes; as capacidades militares de Israel que deram valor estratégico aos interesses do Ocidente no Oriente Médio, especialmente após a sua vitória na Guerra dos Seis Dias, de 1967; o fime apoio geopolítico estendido a Israel pelos EUA, combinado com seu papel como intermediário na negociação ¿ uma incrível identidade dupla.
Sobre essa identidade dupla, Obama prometeu usar o poder de veto. Que consequências teria esse ato? Da perspectiva da política doméstica, Obama parece estar em uma oposição em que ele tem subordinado seu papel de liderança aos desejos do lobby israelense. Caso ele se recusasse a usar o veto, os republicanos colocariam em xeque sua grande confiança como um aliado de Israel, e supostamente o dinheiro e os votos judeus nos Estados Unidos abandonariam o Partido Democrata e, por consequência, Obama. No âmbito internacional, o uso do veto no Conselho de Segurança, se for necessário, isolará ainda mais os EUA e o retratarão como um governo avesso a permitir que o povo palestino caminhe à sua autodeterminação. Isso poderia levar a um aumento da militância islâmica nos países árabes vizinhos e entre os palestinos que vivem sob ocupação ou em campos de refugiados. Tal ação também construiria apoio ao movimento de solidariedade global palestina, já em ascensão e baseado em uma campanha de boicotes, privações e sanções.
Quais as chances de um Estado palestino baseado nas fronteiras anteriores a 1967? Praticamente não existe a possibilidade de um Estado palestino dentro das fronteiras de 1967, enquanto a atual liderança em Israel permanecer no poder e gozar do apoio incondicional dos EUA. A expansão contínua dos assentamentos judaicos e outras atividades em Jerusalém Oriental enviam um claro sinal de que Israel não abandonará sua tática atual ¿ ou seja, apoiar o estabelecimento de um Estado palestino por meio de negociações, mas fazer de tudo para evitar que isso se torne realidade. A demanda de adesão palestina à ONU expressa o senso palestino de futilidade em relação ao "processo de paz" que não produziu qualquer resultado desde sua origem, em 1993, com os acordos de Oslo. (RC)