Vilhena Soares
03/01/2015
Um dos maiores problemas enfrentados em cidades de todo o mundo é o que fazer com o lixo gerado diariamente pela população. O desafio, contudo, pode ser contornado. Alguns países encontraram maneiras de utilizar os resíduos sólidos para gerar energia elétrica e combustíveis, o que, além de reduzir a sujeira, contribui para o crescimento da economia. O Brasil engatinha nesse departamento, mas pesquisadores e empresas têm se dedicado a desenvolver técnicas para aproveitar materiais descartados, gerando receita e preservando o meio ambiente. Segundo esses especialistas, a transformação do lixo em energia é a melhor saída para o país evitar a poluição, embora o interesse de empresas por tecnologias que cumprem esse papel ainda seja pequeno.
Maurício Mamede é um dos pesquisadores interessados em estratégias do uso inteligente do lixo. Em um estudo realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), ele fez um levantamento das principais tecnologias utilizadas mundialmente para gerar energia a partir da transformação dos resíduos sólidos, além de ter visitado a Usina de Biogás Sobacken, na cidade de Borás, na Suécia, que reaproveita 99% dos rejeitos. "Pouco se faz pelo lixo no Brasil, por isso esse foi o foco de meu estudo. Cada país tem uma situação, não existe uma resposta única. Na Suécia, a energia elétrica é a solução mais viável, mas, em outros lugares, o combustível é a resposta. Tudo vai depender de fatores envolvidos, como a venda de cada produto", explica ao Correio.
O especialista diz que tanto a produção de energia elétrica quanto a de combustíveis poderiam ser buscadas pelo Brasil. O importante é saber que cada uma das soluções possui vantagens e desvantagens. "Aqui, você não consegue vender a energia elétrica a um preço alto, ainda mais por concorrer com empresas grandes. Seria necessário, portanto, um incentivo a essas companhias, assim como a energia solar, que tem potencial, mas não consegue concorrer com hidroelétricas", analisa. Já os combustíveis são opções que, segundo Mamede, podem gerar mais lucro, mas demandam mais trabalho. "A produção de combustível acaba sendo mais interessante por ter uma entrada maior de capital, só que também tem a questão de produção, que é mais complexa. Você precisa de mais tecnologia, a qualidade tem que ser alta, e tudo isso tem um custo", completa.
Obstáculos
Para que o Brasil enfrente dessa maneira sua imensa produção de lixo, será necessário maior interesse dos responsáveis que atuam nessas áreas, mas o cenário, avalia o cientista, não é animador. "Fui procurar algumas empresas que trabalham com aterros sanitários e elas não têm muito interesse em novas tecnologias, já que os aterros utilizados por elas são simples e já dão retorno", conta.
Guy de Capdeville, chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Agroenergia, também acredita que seria preciso maior interesse para que novas tecnologias para gerar energia fossem implantadas no Brasil. "Falta um incentivo maior dos órgãos públicos. Usar o lixo para gerar energia é algo que pode sair mais barato e gerar renda. Desde 2002, nós da Embrapa temos uma proposta para Brasília, de transformar o lixo da cidade a partir de ferramentas como a pirólise (alteração a partir de altas temperaturas) e a gaseificação, que podem gerar, além de energia elétrica, compostos úteis à agricultura. Mas ainda não conseguimos apoio para implantá-la", lamenta.
José Goldemberg, professor da Universidade de São Paulo (USP) e um dos principais cientistas brasileiros especializados em produção de energia, também vê na falta de interesse e de investimento o maior obstáculo para que o Brasil comece a dar um destino melhor aos seus resíduos. "Está faltando mais ação, e não apenas pesquisa, que já está bastante desenvolvida. A Política Nacional de Resíduos Sólidos demorou 20 anos para ser aprovada. Não podemos esperar mais duas décadas para que seja colocada em prática. É lógico que requer investimento, e toda a cadeia produtiva, incluindo os consumidores e os governos municipais, estaduais e federal, terão de investir e mudar hábitos", destaca.
Inspiração
Buscar ideias em países que já obtiveram sucesso na transformação de energia em resíduos sólidos pode ser muito útil ao Brasil, acreditam os especialistas na área. "Falando especificamente em geração de energia a partir de resíduos sólidos urbanos, de responsabilidade dos governos municipais, todo o mundo (desenvolvido) já faz. E com sucesso. É uma questão de política pública, e até de saúde pública", frisa Goldemberg.
Capdeville também acredita que utilizar como base ideias que deram certo lá fora é interessante, mesmo que o Brasil já possua muitas pesquisas na área. "Temos como desenvolver nossos próprios projetos, mas, enquanto não produzimos alternativas nossas, que resolvam completamente o problema, podemos utilizar as que surgem mundo afora. As estratégias que existem em países como Japão e Alemanha são bem diferentes. Acredito que podemos focar em formas de exploração de resíduos agrícolas, por exemplo, que possuem um perfil da economia do Brasil", opina.
Para Mamede, seguir o exemplo de outras nações é importante, mas mudar a maneira como o lixo é visto pela população é o principal desafio. "A Europa, de modo geral, possui uma legislação mais rigorosa em relação ao descarte, e isso facilita a reciclagem e a transformação desses recursos em energia, que pode servir como um bom exemplo. Acho também que nossa cultura precisa sofrer uma transformação, para enxergamos o lixo de outra maneira. Precisamos mudar a cabeça das pessoas para que elas não vejam os resíduos como algo descartável, mas sim como um recurso de energia."
Correio braziliense, n. 19214, 03/01/2016. Ciência, p. 15