Correio braziliense, n. 19239, 28/01/2016. Cidades, p. 23

237 mil desempregados
Nunca a falta de ocupação cresceu tanto no período de um ano no Distrito Federal. Dados da Companhia de Planejamento do DF mostram que, ao longo de 2015, esse aumento chegou a quase 34%
 

» ALESSANDRA AZEVEDO

"Todos os dias, vejo os classificados dos jornais, mando currículos por e-mail, procuro processos seletivos, mas não aparece nada. Pode ser de atendente, balconista, serviços gerais, a vaga que surgir, eu aceito. Na situação atual, não estou me dando ao luxo de escolher" 

Cristiane Ávila, 25 anos, moradora de Santa Maria

 
O exorbitante índice de desemprego é uma das heranças de 2015 para o Distrito Federal, que fechou o ano com 237 mil pessoas, ou 15,4% da população economicamente ativa, sem trabalho. Em dezembro de 2014, o percentual era de 11,7%. Mas 60 mil entraram na lista no decorrer de 2015, o que significa um aumento de 33,9% no contingente de desempregados em apenas um ano. É a maior variação anual da série histórica, iniciada em 1992. Os dados são da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), divulgada ontem pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).
 
O DF nunca presenciou um crescimento tão expressivo no desemprego em tão pouco tempo. Segundo o diretor de Estudos e Pesquisas Socioeconômicas da Codeplan, Bruno Cruz, o que levou o número a esse patamar foi a diminuição nas contratações. Ao mesmo tempo em que 37 mil postos acabaram fechados, pelo menos 22 mil pessoas entraram na força de trabalho e não foram absorvidas. “A grande piora, do meio do ano para cá, foi a queda do nível de ocupação no segmento de serviços”, explica Bruno. De julho a dezembro, 13 mil vagas foram perdidas no setor.
 
Outro ponto que influencia negativamente nos resultados é a baixa rotatividade nas empresas. “Os desligamentos tiveram queda em relação ao ano passado, mas as admissões caíram ainda mais. O mercado não tem conseguido manter os empregos, muito menos absorver a mão de obra nova”, alerta o especialista em mercado de trabalho Rodolfo Peres Torelly, ex-diretor do Departamento de Emprego e Salário do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Prova disso é que 31,9% dos jovens brasilienses entre 16 e 24 anos estão desempregados.
 
A realidade é ainda mais dura para as parcelas frágeis da população. A pesquisa revela que, em 2015, o grupo de moradores das regiões administrativas com renda mais baixa do DF foi o que percebeu maior aumento no índice de desemprego — de 14,7%, saltou para 19,2%. Ou seja, moradores de Brazlândia, Ceilândia, Samambaia, Paranoá, São Sebastião, Recanto das Emas e Santa Maria foram os que mais sofreram com a restrição de vagas.
 
Já o desemprego no grupo com maior renda — Plano Piloto, Lago Norte e Lago Sul — variou apenas 1,7 ponto percentual (de 5,4% para 7,1%). “Manter o emprego é mais fácil para as pessoas de classes sociais mais altas, pois elas têm mais qualificação profissional. O contrário acontece com a população com menos poder aquisitivo, a que mais enfrenta dificuldades durante a crise”, revela o economista Clovis Scherer, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O resultado é o agravamento da disparidade social.
 
Dívida
Moradora de Santa Maria, Cristiane Ávila, 25 anos, entende a situação. Mãe de duas crianças — Isabela, 1 ano, e Mateus, 8 —, ela está há mais de sete meses à procura de uma oportunidade. Não por falta de tentativa. Cristiane não conseguiu sequer uma entrevista de emprego desde que foi demitida do supermercado em que trabalhava, em maio do ano passado. “Todos os dias, vejo os classificados dos jornais, mando currículos por e-mail, procuro processos seletivos, mas não aparece nada. Pode ser de atendente, balconista, serviços gerais, a vaga que surgir, eu aceito. Na situação atual, não estou me dando ao luxo de escolher”, desespera-se.
 
Ela faz parte dos 17,2% da população feminina economicamente ativa do Distrito Federal que está sem emprego. Com as contas acumuladas e sem fonte de renda, Cristiane precisou recorrer à poupança de emergência e ao cartão de crédito, para ajudar o marido com as despesas da casa. “Zerei as economias há quase dois meses. Agora, estou sem emprego e com uma dívida de mais de R$ 1,2 mil, que não sei como vou fazer para pagar”, lamenta.