Correio braziliense, n. 19.233, 22/01/2016. Política, p. 3
Em mais uma demonstração de que o clima não está bom entre o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) e o partido, o presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, rebateu, durante encontro do diretório nacional, recentes críticas do ex-ministro da Educação e falou sobre a possível desfiliação dele. “Partido político é que nem igreja, a porta é aberta. Não exigimos atestados de bons antecedentes a ninguém que entra, nem fechamos a porta pra quem quiser sair. Disse e repito: siga seu caminho ‘que eu quero passar com a minha dor’, como diria o poeta Nelson Cavaquinho.”
Em entrevista ao Correio, no início do mês, Cristovam falou sobre a pretensão de deixar o PDT por não encontrar na sigla a abertura para se candidatar à Presidência da República em 2018. Argumentou que a filiação de Ciro Gomes (CE) ao PDT, em setembro do ano passado, já com status de candidato, sem a organização de prévias, foi a “gota d’água”. “O partido estava me ‘desconvidando’ dos eventos. Não de maneira explícita, mas na ordem de uma passagem que não saía, de uma data que não era confirmada”, explicou na ocasião. “Alegaram que a minha presença constrangeria o Ciro (Gomes)”, reclamou.
Ao lado do pré-candidato Ciro Gomes, Carlos Lupi se mostrou chateado com a postura do ex-governador do Distrito Federal e, com ares de despedida, falou sobre a importância dele para o partido. “Cristovam teve um papel muito bom e importante com a candidatura à Presidência. Foi o primeiro candidato depois da morte do Brizola. Levantou com muita honradez a bandeira da educação, bandeira que o Brizola foi pioneiro. Ele mesmo reconhece que jamais teria tido essa chance em outro partido, muito menos no PT”, comentou.
Entretanto, Lupi rebate as críticas sobre a escolha do candidato. “Nesse momento (da candidatura de Cristovam), o presidente do PDT era bom, democrático, era até bonito, o que não sou porque tenho espelho. De repente, passamos a ser autoritários e centralizadores porque ele acha que tinha o direito adquirido de ser candidato permanente à Presidência da República. Ele tem o direito. E eu, como cidadão fundador desse partido, também tenho o direito de ter a minha opção. A minha opção pessoal e a vontade majoritária do partido são que o Ciro seja candidato.”
Questionado em relação à possibilidade de o senador Reguffe também deixar a legenda, Lupi rebateu: “Ele falou isso a você? Porque, pra mim, ele disse reiteradas vezes que não vai deixar o PDT.” Ao menos no encontro preparatório para a reunião do diretório nacional, que traçou estratégias para as eleições municipais de outubro e celebrou a data em que o fundador da legenda completaria 94 anos, os senadores Cristovam Buarque e Reguffe não compareceram. Em viagem ao Chile, Cristovam não foi encontrado para entrevista.
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A executiva nacional do PDT segue reunida hoje e reafirmará posição contrária ao processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e pedirá o afastamento do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) da Presidência da Câmara. Convidada pelo ex-ministro da Integração Nacional Ciro Gomes, a presidente Dilma Rousseff, ex-pedetista, deve participar da cerimônia em homenagem a Leonel Brizola.
Sem lançar oficialmente o nome de Ciro Gomes como candidato à Presidência da República em 2018, o presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, destacou o desejo pessoal de que seja ele. “Não vejo como ser outra pessoa. Ciro tem uma afinidade política e ideológica muito grande com o nosso partido, mas ainda não vamos cravar. Uma coisa é certa: o PDT terá candidato próprio.” Aliado do PT, Lupi afirmou que já conversou pessoalmente com Dilma, Lula e os dirigentes do PT sobre o assunto. “Inclusive, uma parcela significativa do PT vê o nome do Ciro com muita simpatia.”
Ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, que tem feito comentários ácidos sobre a política atual, não mudou a postura. Ciro ironizou a reaproximação da presidente Dilma com o vice Michel Temer (PMDB-SP). “Só quem for idiota acredita. Agora isso não quer dizer que a presidente tenha que repudiar isso. Até porque a política vive desses bailados”, afirmou. “O que é importante é não acreditar, porque ele está no golpe e é o capitão deste barco”, emendou. Em relação às eleições municipais, o partido pretende eleger 10% dos prefeitos do Brasil — cerca de 560 — e lançará candidato em 10 capitais. Atualmente, a legenda tem aproximadamente 400 prefeituras, segundo Lupi.