O Estado de São Paulo, n. 44.673, 08/02/2016. Política, p. A5

Deputados aproveitam ‘trampolim’ de legendas

Com promulgação de emenda constitucional sobre fidelidade partidária, até 35 parlamentares, principalmente da base aliada, vão mudar de sigla
Por: Ricardo Brito / Daiene Cardoso

 

Ricardo Brito

Daiene Cardoso / BRASÍLIA

 

Um grupo de até 35 deputados federais, principalmente da base aliada, vai mudar de partido, aproveitando a janela de 30 dias que será aberta em breve com a promulgação da emenda constitucional que permitirá a migração de detentores de cargos eletivos sem correr o risco de perder o mandato. Líderes afirmam que a transferência dos deputados deve ocorrer principalmente dentro da base aliada, numa espécie de "trampolim" para as eleições municipais deste ano e as gerais em 2018.

Parlamentares e dirigentes partidários, tanto da base quanto da oposição, admitem que essa movimentação não vai interferir na correlação de forças no andamento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. A avaliação é de que neste início do ano um eventual afastamento da petista perdeu força na Câmara.

O presidente do Congresso, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), já avisou a aliados que pretende promulgar na próxima semana a emenda constitucional. A partir daí, os detentores de mandato eletivo terão um mês para trocar de sigla de forma legal.

Atualmente, eles só podem mudar de partido preservando o mandato nos casos de grave discriminação pessoal, mudança substancial ou desvio reiterado do programa praticado pela legenda ou quando houver "criação, fusão ou incorporação de partido". Com o prazo fixado pela emenda, não será preciso qualquer pretexto para a mudança.

Contudo, a janela só não será mais atrativa porque, pelo texto da emenda aprovada pela Câmara e pelo Senado, os deputados não poderão levar a cota do fundo partidário e o tempo de rádio e TV para o partido ao qual se filiarão. Os parlamentares incluíram essa proibição a fim de inibir a criação de legendas como o Partido da Mulher Brasileira (PMB). Criada em setembro, a sigla tem 21 deputados federais e já dispõe das benesses financeiras. “A gente aprovou a janela para evitar um novo PMB”, diz o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE).

 

Eleições municipais. A busca de espaço nos Estados e as disputas municipais serão o mote das mudanças dos parlamentares, mais do que o conflito governo versus oposição. "Acho que é um movimento de interesse pessoal de cada deputado, com motivações de várias naturezas", diz o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). "Não muda a questão do impeachment. A lógica será voto pessoal e não partido", emenda o peemedebista. "A janela não vai interferir em impeachment ou no tamanho da bancada (governista)", comenta o líder do governo na Casa, José Guimarães (PT-CE).

Cotado para ser líder do PT em 2016, o deputado Paulo Pimenta (RS) diz que a janela terá pouco impacto, até mesmo na bancada petista. Desde a eleição de 2014, o PT perdeu nove deputados, atualmente tem 59. "Ir para onde? PSDB? DEM? Se aliar a Cunha? Qual o polo alternativo na política hoje? Não há", afirma Pimenta.

Crítico da futura janela, o líder do PPS, Rubens Bueno (PR), disse que não há um trabalho específico da oposição para filiar integrantes da base com o objetivo de aumentar o número de votos para tentar aprovar o afastamento de Dilma - para admitir o processo na Câmara são necessários pelo menos 342 apoios. "Nós não trabalhamos com esse tipo de ação."

A correlação de forças nas duas Casas será mantida. Uma das maiores movimentações deve acontecer no hoje nanico PTN: de quatro deputados, a sigla deve saltar para 14, sendo cinco do recém-criado PMB. "O PTN vai agregar o maior número de deputados", prevê o deputado Aluísio Mendes (MA), que deixou o PSDC, foi para o PMB e já está de olho na janela proporcionada pela emenda.

O PMB pode perder inclusive seu líder, Domingos Neto (CE), que se filiou à sigla após deixar o PROS e agora negocia sua mudança para o PSD. O partido do ministro das Cidades, Gilberto Kassab, tem hoje 37 deputados e trabalha com a possibilidade não só de perder quadros, como conseguir filiar dez parlamentares. O presidente da legenda, o ex-deputado Guilherme Campos (SP), diz que as negociações se consolidarão em fevereiro, no retorno do recesso parlamentar, e deve abranger parlamentares não só da base governista, como de oposição.

Senadores relacionados:

Órgãos relacionados:

_______________________________________________________________________________________________________

Rede deve manter bancada atual

Criado na mesma época do PMB, a Rede Sustentabilidade – da ex-senadora Marina Silva – deve se manter com cinco deputados e um senador, já que não tem oficialmente negociado a filiação de parlamentares. “É melhor ter pouco mas (ter) pessoas que tenham a ver com nosso ideal do que sair por aí criando bancada sem identidade", diz Pedro Ivo Batista, coordenador de organização da Rede. A sigla ainda não decidiu se vai questionar no STF o fato de a emenda constitucional não permitir que os deputados “levem” o tempo de TV e rádio e os recursos do fundo partidário.