Título: Cisão entre índios e Morales se agrava
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Fonte: Correio Braziliense, 01/10/2011, Mundo, p. 25

Documento que revela planejamento da repressão a protesto contra estrada aumenta tensão

Em meio a um cenário de protestos e revolta social, agravado por renúncias de importantes ministros, o governo do presidente boliviano, Evo Morales, sofreu ontem mais um forte golpe. A divulgação na imprensa local de um documento no qual constam informações de que a repressão da polícia ao protesto indígena de domingo foi planejada piorou a situação política do atual presidente e pode ter causado um significativa ruptura entre o governante e sua principal base popular: os índios.

O planejamento da ação, que deveria dispersar da região de Yucumo a manifestação contra a rodovia que pretende ligar o Brasil a portos do Chile e do Peru, passando pela Bolívia, continha, segundo o jornal La Razón, as ações operacionais e logísticas que deviam ser postas em prática pela polícia. Intitulado Plano de Desconcentração, o documento ¿encontrado pela liderança indígena durante buscas por desaparecidos na violenta repressão ¿ mencionava, inclusive, a quantidade prévia de manifestantes que deveriam ser transferidos do local. "Em cumprimento à missão constitucional, o contingente policial do Departamento de Beni executará a transferência de 350 a 400 indígenas manifestantes", registra o texto. O papel não informa quem coordenou a operação, mas detalha o nome, a patente e a quantidade de policiais envolvidos.

O vice-presidente do país, Álvaro García, afirmou que "não houve instrução política" nem da Presidência nem do Ministério do Governo para a prática da ação. Ele sustentou, sem mencionar nomes ou cargos, que o governo já identificou os responsáveis pela ordem de execução da represália. "Sabemos o que aconteceu. Já fizemos um conjunto de averiguações internas", disse García, negando declarações de ministros do governo na terça-feira, que acusavam o então vice-ministro de Interior, Marcos Farfán.

A ação policial deixou apenas poucos feridos, mas grandes cicatrizes. "A polícia contra indígenas tem um simbolismo muito forte. Os manifestantes ganharam a batalha simbólica", avalia Hervé do Alto, um analista especializado no partido do governo, o Movimento ao Socialismo (MAS). "O conflito coloca em evidência um grande número de tensões que estavam reprimidas na heterogênea coalizão de Morales", afirma do Alto. A criação do MAS, que desembocou na eleição de Morales, em 2005, reuniu radicais, moderados, camponeses, mineiros, indígenas e parte da classe média, em uma coalizão que era muito mais que um partido. "Havia uma coesão fictícia ou várias coalizões."

Não ao referendo Sem indicar qualquer mudança de posicionamento, a liderança indígena reiterou ontem que rejeita o referendo proposto por Morales, destinado a consultar a população a respeito da construção da estrada. Os representantes dos índios exigem que o presidente boliviano suspenda definitivamente qualquer construção que venha a passar pela reserva de Tipnis, na Amazônia do país.

O vice-presidente, por sua vez, afirmou que a Constituição boliviana não prevê consulta prévia a povos indígenas em caso de construções de estradas, apenas em situações de exploração de recursos naturais em território habitado por eles. García informou que o referendo à população irá seguir e disse que não há razões para os índios continuarem com os protestos, já que "a construção está paralisada".

A reação policial ao posicionamento da comunidade indígena, porém, pode ter causado efeitos mais profundos do que a continuação dos protestos pela suspensão da construção da estrada. Para o ex-embaixador da Bolívia perante a Organização das Nações Unidas (ONU), Pablo Solon, deve haver coerência entre o que o país fala e o que faz, "para que se mantenha a confiança" no governo. "É incompreensível que promovamos a realização de uma Conferência Mundial da ONU sobre os Povos Indígenas para 2014 e não sejamos vanguarda na aplicação da consulta prévia dos povos indígenas em nosso próprio país", pontuou.