Por: LUCIANNE CARNEIRO
LUCIANNE CARNEIRO
lucianne.carneiro@oglobo.com.br
- RIO, DOHA, LONDRES E NOVA YORK- Os preços internacionais do petróleo amargam uma queda superior a 70% desde meados de 2014, passando de mais de US$ 100 para cerca de US$ 30, o que fez empresas reduzirem investimentos, a fim de conter os prejuízos, e prejudicou a economia de países dependentes da exportação da commodity. Os mercados estavam à espera de um movimento que revertesse essa queda — por isso, quando Arábia Saudita, Rússia, Qatar e Venezuela anunciaram ontem um acordo para congelar a produção de petróleo nos níveis de janeiro, a reação inicial foi de euforia, com a cotação subindo. Esse otimismo, porém, durou pouco, sendo substituído por cautela. Primeiro, ressaltam especialistas do setor, a decisão depende da adesão de outros países produtores. Além disso, a avaliação é que a oferta da commodity no mundo já é muito grande. Em um momento de desaceleração da economia mundial, para haver alguma alteração nos preços do petróleo, seria necessária uma ação mais decisiva, como um corte na produção.
— É um acordo histórico e um esforço para lidar com os preços baixos, mas não é suficiente para levar a um aumento sustentado do preço de petróleo. Se não se transformar em um acerto de quotas de produção na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e num acordo entre Arábia Saudita e Irã, deve levar a mais volatilidade, não a um novo patamar de preço — afirma o professor da Coppe/ UFRJ Alexandre Szklo.
Após os países anunciarem o acordo sobre o nível de produção, o barril do petróleo tipo Brent, referência no mercado internacional, chegou a ser negociado em Londres a US$ 35,55 na máxima do dia, uma alta de 6,4%. Mas a commodity inverteu sua trajetória e encerrou cotada a US$ 32,18, em queda de 3,6%. Já o barril do WTI, negociado em Nova York, recuou 1,09% no fim do dia, a US$ 29,12, após ter registrado a máxima de US$ 31,14.
O acordo anunciado ontem é tomado por países que, juntos, respondem por 30,9% da produção mundial de petróleo, segundo dados de estudo da BP sobre o mercado de energia em 2014. A Arábia Saudita é líder (12,9%), acompanhada de perto por Rússia (12,7%) e Estados Unidos (12,3%) — que não participa do acordo. A Venezuela tem 3,3% do mercado, enquanto o Qatar tem 2%.
IRÃ SERIA O FIEL DA BALANÇA
A despeito da força desses quatro produtores, a principal preocupação é com a posição do Irã. Em janeiro, Estados Unidos e União Europeia (UE) suspenderam o embargo econômico ao país. Com a retomada das exportações de petróleo pelo Irã, a oferta no mundo ficará ainda maior, e muitos analistas não veem disposição de o país aderir a congelamentos de produção.
“Esperamos que o Irã rejeite os limites a suas exportações, o que abre uma brecha para que outros produtores ignorem o congelamento, enquanto a Arábia Saudita poderá argumentar que os preços baixos são culpa do Irã, por ter rejeitado uma oferta inaceitável”, afirmou em nota a consultoria Citi Futures.
Segundo o chefe de Pesquisa na área de Commodities da Capital Economics Julian Jessop, nem mesmo a participação de outros países da Opep está garantida. Ele lembra que o Irã pretende aumentar em pelo menos 500 mil barris por dia a produção este ano, já tendo indicado não estar disposto a congelar a produção até alcançar os níveis de antes das sanções, que eram de pelo menos um bilhão a mais por dia.
— Há pelo menos três razões para sermos cautelosos. Não está garantida a participação de outros países, nem mesmo da Opep. A Rússia precisa cumprir seu papel. E, mesmo retomando o nível de janeiro, isso significaria apenas manter o excesso de oferta que existe hoje. Pode ser melhor que mais aumento, mas não eram os cortes de produção que estavam sendo esperados — afirma Jessop.
Na projeção da Capital Economics, o barril do petróleo voltará a US$ 45 no fim do ano. A expectativa de alta, no entanto, não reflete o acordo nem uma coordenação entre Opep e Rússia, e sim uma avaliação de que a demanda global deve reagir e haverá redução na oferta de países que não fazem parte da Opep.
Para Anupama Sen, pesquisadora sênior do Instituto para Estudos de Energia da Universidade de Oxford, um acordo de congelamento de produção de petróleo sem a participação de Irã ou Iraque não deve ter efeito substancial.
— O congelamento da produção poderia indicar que os produtores estão abertos a uma cooperação no futuro, mas muitas questões, como determinar o nível em que a produção será congelada, assim como assegurar o cumprimento do acordo, ainda não estão claras. Além disso, mais do que o volume absoluto de produção, é o crescimento da produção futura que importa para o mercado — alerta Anupama.
Já o professor de Economia da USP Paulo Feldmann vê mais potencial no acordo fechado por Arábia Saudita, Rússia, Qatar e Venezuela. O anúncio, avalia ele, é uma sinalização de que os países produtores podem conversar e se coordenar, bem como que as previsões de barril de petróleo a US$ 10 estavam distante da realidade.
— Não acho que o petróleo volte para US$ 100, mas o acordo mostra ao mundo que as previsões de US$ 10 não faziam sentido. Acredito que o preço deve voltar para perto de US$ 50. O que importa é a expectativa, e ela se inverteu. Agora, acreditase que o preço vai subir — explica.
Na avaliação de Olivier Jakob, consultor- chefe da Petromatrix, o acordo deve ter pouco efeito nos próximos dois meses, mas deve ajudar a estabilizar o mercado no segundo semestre. Segundo ele, a iniciativa marca a mudança de posição da Arábia Saudita — que vinha resistindo a planos para cortes na produção. Jakob avalia que o acerto entre os quatro países deve se estender para englobar todos os participantes da Opep, inclusive o Irã, ainda que em condições especiais:
— Acredito que o acordo vai ajudar a estabilizar o mercado. Não devemos ter um retorno para US$ 100, mas ficaremos distantes de US$ 25. Nossa previsão é que, na segunda metade de 2016, os preços fiquem entre US$ 45 e US$ 65.