O globo, n. 30142, 15/02/2016. País, p. 4

Ribeirão Preto, uma cidade tomada pelo Aedes

Por: MARIANA SANCHES

 

MARIANA SANCHES

Enviada especial mariana.sanches@sp.oglobo.com. br

 

“Ouvi de tudo: que era dengue, que era zika, que o bebê podia morrer, que já estava grande para desenvolver microcefalia. Só não ouvi nada do médico.” Miriã Carmo Grávida de 7 meses

 

Já não importa mais se será menino ou menina. Dentro de alguns dias, quando Elisângela Zampier, de 36 anos, completar o quarto mês de gestação e puder novamente ver seu bebê pela tela do exame de ultrassom, há apenas uma informação que a interessa:

— O tamanho da cabeça. Não quero saber mais nada a não ser se a cabeça está normal — conta, recém- recuperada da intensa coceira pelo corpo, da dor nas articulações e da febre, características das doenças transmitidas pelo mosquito

Aedes aegypti. Elisângela é uma das 170 grávidas do município de Ribeirão Preto suspeita de ter contraído vírus zika, agente responsável, de acordo com o Ministério da Saúde, por provocar microcefalia em fetos. Pelo menos outras oito gestantes da cidade do interior paulista já obtiveram a confirmação do contágio.

Ribeirão Preto, vive um paradoxo: com o 25 º melhor índice de renda per capita do país e o 40 º mais alto índice de desenvolvimento humano municipal, enfrenta uma das piores infestações do mosquito no Brasil. A Prefeitura estima que 10% dos quase 600 mil habitantes contrairá dengue na temporada mais quente deste ano. Serão 60 mil casos, uma proporção 30 vezes maior do que a estabelecida pela Organização Mundial de Saúde para determinar se uma região enfrenta uma epidemia. A riqueza e boa educação do município não impediram a região de viver o pânico e o colapso trazidos pelo estado de emergência.

 

DIAGNÓSTICO DIFÍCIL

— Acho que temos mais casos de zika do que de dengue, mas não temos exames para confirmar — avalia o secretário de saúde de Ribeirão Preto Stênio Correia Miranda.

A percepção de Miranda se baseia na ordem de ocorrência de sintomas nos pacientes. A infecção por zika costuma provocar rápido aparecimento de manchas avermelhadas por todo o corpo, enquanto que na dengue as marcas podem levar alguns dias para surgir. A confusão de diagnósticos baseados em sintomas pode acontecer. E como os vírus da zika e da dengue são “parentes”, o exame de sangue mais comum para determinar qual o agente causador da doença também tem apresentado resultados cruzados. No caso em que é preciso certeza, como o das gestantes, o município envia amostras de sangue para exame pelo Instituto Adolfo Lutz, em Santos. O resultado, no entanto, tem demorado mais de 40 dias para ficar pronto.

A recepcionista Silvana de Amorim, de 36 anos, chegou ao posto de saúde semana passada com a pele vermelha e grossa e uma coceira quase incontrolável. Descobriu que sua espera seria dupla: pelo bebê há dois meses em seu ventre e pelo resultado do exame de zika, cujos sintomas apresenta em abundância.

— Comecei a chorar quando o médico falou. Estou com medo. Só posso pedir a Deus que proteja a criança — diz, expressando confusão sobre as possíveis consequências do vírus e sem parar de se coçar um minuto.

Ao lado de Silvana, Bruna Pereira, de 18 anos, acompanhava a irmã, de 7, cujo corpo estava coberto por manchas vermelhas. Bruna está grávida de três meses. Nesse curto período já teve dengue. O medo de pegar a mesma zika que acometia a irmã mais nova a fez criar uma rotina intensa de cuidado.

— Passo repelente durante o dia e acordo duas vezes por noite para repassar. E se escuto um zumbido, não consigo mais dormir — disse Bruna.

A Prefeitura de Ribeirão preto estima que será necessário gastar cerca de R$ 15 milhões apenas com o tratamento dos enfermos e credita a epidemia à dinâmica cíclica da incidência do mosquito, ao clima quente e úmido da região e ao descuido da população com o descarte de lixo. O secretário de saúde nega que tenha havido falha do poder público no combate às doenças e que faltem médicos para fazer frente à epidemia.

Grávida de 7 meses, Miriã Carmo, de 25 anos, discorda da Prefeitura. Nos últimos dias, ela esperou seis horas apenas para coletar o sangue que dirá se foi infectada por zika.

— A consulta não durou nem 10 minutos. A médica disse que era zika, mas nem tocou em mim. Perguntei o que poderia acontecer com o bebê e ela não quis responder, fui tratada com descaso — afirma.

Angustiada, Miriã se lançou a pesquisas pelo Google e fóruns de mães até o ponto em que, em suas palavras, chegou “à beira da loucura”:

— Ouvi de tudo: que era dengue, que era zika, que o bebê podia morrer, que ia ter problemas, que já estava grande para desenvolver microcefalia. Disseram que para curar eu deveria tomar soro, e até suco de inhame. Só não ouvi nada do médico.

 

DILEMA DAS GESTANTES

O virologista da USP em Ribeirão Preto Benedito Lopes da Fonseca, que comanda pesquisa com grávidas para descobrir como se dá a transmissão de zika para o feto e o desenvolvimento da microcefalia, reconhece que hoje a ciência ainda não tem muitas respostas para dar às gestantes:

— Eu não sei dizer qual é a chance de uma grávida contaminada com o vírus transmitir ao feto. A zika tem se mostrado uma doença de grande disseminação e prever o comportamento do vírus é difícil.

Diante do risco de que os bebês nasçam com má- formação, nenhuma das mães ouvidas pela reportagem afirmou ter cogitado um aborto. Há duas semanas, o Alto Comissariado da ONU para Direitos Humanos defendeu que a interrupção da gestação seja descriminalizada para mulheres que contraíram zika. O Secretário de Saúde de Ribeirão negou que, apesar da epidemia, haja registro de aumento de tentativas de aborto ou abortos clandestinos. E criticou a recomendação da ONU, que considera “histérica”:

 

— Não podemos criar esse clima de pânico, estigmatizar essas mães e essas crianças. Temos visto pais abandonando famílias. Essa recomendação de aborto está fora da tradição cultural do país. Não são monstros que estão sendo gerados, são seres humanos.